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Artigo
 
Um complô do Brasil contra os brasileiros
Por: Mauro Pitanga

O fato do Brasil ser um país festivo, que encontra razão de comemoração em tudo, mascara a realidade dos fatos ao mesmo tempo que testifica sua mediocridade. A mídia, como ninguém, é a melhor ferramenta para nos fazer crer em falácias que, ditas por um simples mortal, jamais acreditaríamos. O sistema midiático é uma artilharia pesada da qual dispõe os formadores de opinião, ou qualquer pessoa que tenha condições de pagar por determinadas encomendas midiáticas. Penso que foi Octávio Ianni quem nos advertiu em O Príncipe Eletrônico que as grandes notícias, os grandes julgamentos, antes de serem resolvidos no fórum apropriado, são decididos pela imprensa. Esta decide, enquanto àquele ratifica.

Lembro-me de quando morava em Copacabana: a prefeitura vez ou outra contratava celebridades da música para fazer shows na praia. Era recém chegado naquele bairro e, em um desses dias em que haveria show comecei a ouvir rumores, conversas baixas, entre as pessoas mais antigas, do tipo: “vamos entrar, o show vai começar”, “baixem as portas dos bares”. E, de imediato, presenciei os comerciantes baixarem as portas dos bares, os moradores correndo para dentro dos edifícios. É lógico que eu fiz o mesmo. E como numa “avalanche”, testemunhei, os moradores dos morros desceram todos, gritando, fazendo uma tremenda zuada, chutando o que via pelo caminho, inclusive as portas dos comércios. Fazendo um arrastão.

No dia seguinte via-se o estrago e ouvia-se os comentários. Quando questionei sobre o fechamento do comércio, falaram-me que se não o fizessem, seriam saqueados, roubados. Logo compreendi que aquele show, como muitos outros, não eram, nem nunca foram para os moradores da parte baixa da zona sul, mas uma espécie de escape, de válvula de pressão aberta para demover a periferia de tentações mais insanas. Ninguém que não more ou que nunca tenha morado na zona sul do Rio tem essa percepção.

Presenciamos algo parecido nessas últimas manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Está claro e evidente que temos dois brasis. Não o rural e o urbano, como se pensava há algumas décadas, mas o Brasil do solo e do subsolo. O Brasil educado, e o Brasil ignorante. O Brasil das escolas particulares, e o Brasil das escolas públicas. O Brasil que lê, e o Brasil analfabeto. O Brasil da casa própria, e o Brasil das invasões, dos aterros sanitários, dos lixões, das favelas. O Brasil popular, e o Brasil populacho, da turba. O Brasil do litoral, e o Brasil da seca. O Brasil da alta cultura, e o Brasil de Gabriel, o pensador. Por vezes esses brasis se entrelaçam e se confundem, mas é apenas um jogo de cena por parte do Brasil melhor.

Estamos obesos de informação e, paradoxalmente, mais desinformados. Urge voltarmos aos livros, à leitura robusta, à fonte primária, aos escritores sérios e responsáveis. À verdade. Aos escritores tementes a Deus. Que esclarece, não obscurece.

A palavra bem aplicada, a escrita que conduz a verdade e à verdade têm a força de uma bomba nuclear. Mas no caso da escrita, a mudança provocada pode transformar o indivíduo e o mundo para melhor ou para pior. Há intelectuais de tamanha envergadura cuja escrita se entedida a assimilada tem a mesma competência da dos céus: ...é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.

Tive essa comprovação no ano de 2004, em são Paulo, quando me deparei com um artigo de Olavo de Carvalho, intitulado história de quinze séculos, publicado no Jornal da Tarde, em junho daquele mesmo ano. Lê-lo foi como ouvir o sino soar, convidando-me aos melhores banquetes, tamanha a grandeza desse monstro da cultura e do conhecimento. Prontamente percebi que estava diante de um hors concour no universo da inteligência e do bom senso. Olavo acompanha pari passu o escritor de Hebreus citado acima. Não vejo no Brasil contemporâneo alguém com moral e capacidade intelectual suficientes para debater com Olavo de Carvalho sobre os assuntos sobre os quais ele se debruça. Em iguais condições não há. Recomendo a leitura atenta de seus livros.

Pôrcio Festo, governador da província romana no ano 60 A.D., ouvindo o apóstolo São Paulo se explicar afirmou: estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar. Quando na verdade Festo é quem delirava diante de Paulo. Falta-nos escritores e formadores de opinião assim, menos supérfulos e menos mentirosos.

Portanto, existe uma diferença muito grande entre o que ouvimos e as coisas como elas realmente são. Estamos cercados daqueles que, se passando por bons, sorrateiramente, roubam-nos nossas mentes e nos incapacitam para servir-lhes num exército ideológico capaz de, pouco a pouco, minar nossa capacidade de raciocinar corretamente. Minam valores eternos, o gosto pelas coisas sensíveis e amenas da vida, a prática de uma religiosidade séria e engajada, os prazeres duradouros, simbólicos. O gosto pela “alta cultura”, pela leitura densa, o amor pela família tradicional. No lugar colocam o descartável, a gritaria, o histerismo, o barulho, o efêmero, o vale tudo, a mentira, o cinismo, o controle mental, a sacanagem, os modismos, as novelas, a putaria. Por que isso? Assim ficamos mais voláteis, dessa forma nos impõem o que querem. Mais uma vez a Globo realiza um concurso para a próxima Globeleza. É a mídia colocando o negro no seu “devido” lugar.

O Brasil todo ecoa um som unívoco. Parece um complô do Brasil contra os brasileiros. Somos convidados todos os dias a engrossar a fileira dos estúpidos, dos alienados, dos canalhas. A religião gramsciana e a nova era encontraram morada nos corações e nas mentes dos professores universitários, dos estudantes, nos estatutos de muitos partidos políticos de esquerda; mais ainda no partido dominante que, paulatinamente, vai abatendo seus adversários políticos para que possa ser hors concours no universo político e do poder. A direita, por vezes, faz o mesmo, conforme nos mostrou um famigerado episódio envolvendo uma entrevista de Ciro Gomes a uma rádio do nordeste e José Serra. O que custou a vitória do primeiro em 2002.

O congresso, engessado e vendido, age episodicamente sem relevância. O povo adormecido e domesticado espera por um feitiço que o livrará da maldição de ser eternamente medíocre. Diante da prisão dos mensaleiros, um coro incessante pede a prisão domiciliar para os “inocentes”, e transformam ‘políticos presos’ em ‘presos políticos’.

A história da humanidade é marcada por momentos gloriosos e não tão primorosos assim. Sempre houve séculos de lacuna, de vazio intelectual. Mas observem o Brasil: da República Velha à Lula, o que tivemos de realmente importante? Qual foi o evento que por si só tenha transformado o Brasil em um país respeitado, além do controle da inflação e do fim da ditadura?

O que temos é uma colcha histórica formada por retalhos de acontecimentos mais ou menos significativos que culminaram no país da corrupção, da prostituição, do carnaval, do futebol e da impunidade. Por mais irônico que possa parecer, as grandes obras de base, estruturais, foram realizadas no regime militar. No campo simbólico, da cultura, da moral, da religiosidade, só aberrações.

Sejam bem-vindos ao Brasil!

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