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Crônica
 
Mercúrio na Enseada dos Tainheiros
Por: Antonio Jorge Moura

Hoje as empresas, sobretudo industriais, estão investindo na imagem ambiental e fazendo pesados investimentos na defesa do meio-ambiente. Ótimo, a consciência ambiental cresceu na sociedade. Mas nem sempre foi assim.

Os anos 70 do século passado, além da vigência do AI-5, foram marcados aqui na Bahia pelas denúncias feitas na imprensa de casos gravíssimos de poluição industrial. Afinal, como aconteceu com Cubatão, em São Paulo, a RM de Salvador foi sinônimo de violência ambiental do início do processo de industrialização brasileira em larga escala. A implantação da Petrobrás não foi nada ecológica no Recôncavo baiano.

Não havia nenhuma consciência ecológica e era urgente fazer o Brasil entrar na era industrial moderna. Não a industrialização têxtil, mas a indústria pós-descoberta de petróleo e da implantação da Refinaria de Mataripe.

O primeiro grande escândalo ambiental aconteceu em Salvador com a descoberta de que, na Enseada dos Tainheiros, em Itapegipe, uma fábrica de soda-cloro, a Companhia Química do Recôncavo (CQR) – atualmente funcionando em Camaçari – despejava células eletrolíticas de mercúrio em uma área de pesca e de cata de mariscos onde hoje existe a localidade de Joanes, no subúrbio ferroviário do Lobato.

Estávamos em pleno Governo Ernesto Geisel, que havia criado a Secretaria Especial do Meio-Ambiente (Sema), ligada à Presidência da República. Eram os primórdios da Era do Meio-Ambiente.

Uma pequena nota saiu publicada em O Estado de São Paulo dizendo que Paulo Nogueira Batista, o secretário de meio-ambiente do General Geisel, apontava casos de poluição industrial graves no território nacional e, em determinado instante, declarava que “um metal pesado poluía perigosamente a baía de Todos os Santos”.

O chefe de reportagem do Jornal da Bahia era o jornalista e publicitário Césio Oliveira. Ele me entregou o recorte como pauta do dia pedindo para que eu fosse entrevistar o secretário de Planejamento do Estado e presidente do Conselho Estadual de Meio-Ambiente, Edson Pitta Lima, no Governo Roberto Santos. Pitta Lima era professor da Faculdade de Economia da UFBA, onde eu estudava, e o chefe de gabinete dele era outro professor, Plínio Moura, que era meu amigo e de todos os colegas que faziam parte do movimento estudantil na faculdade.

Fui para o CAB e procurei Plínio Moura. Mostrei o recorte do jornal e pedi entrevista a Pitta Lima para esclarecer o caso. Fiquei esperando até a secretária me chamar para entrar. Sentado em frente a Pitta Lima, ele perguntou a Plínio: “é de confiança?”. A resposta foi positiva. Faço aqui em parêntese para dimensionar o impacto da informação que tive naquele dia. O fato é que, dias antes, como de costume, subi ao terceiro andar do JBa para conversar com Castro, chefe do Arquivo do jornal e ter dele lições de jornalismo que nenhuma faculdade ensina.

Como Castro estava ocupado organizando pastas do arquivo, folheei exemplares de O Cruzeiro e de Manchete. Uma delas trazia reportagem sobre o surgimento de uma doença de era industrial no Japão pós-II Guerra Mundial chamada Doença de Minamata. Uma doença misteriosa que surgiu na Baía de Minamata e que atacava o sistema nervoso central de pessoas que ingeriam frutos do mar contaminados por mercúrio lançado por uma fábrica que despejava no mar, sem tratamento, seus esgotos industriais. A contaminação provocava deformações terríveis em fetos que estavam no ventre de mães de uma colônia de pescadores. As crianças nasciam deformadas e as cenas eram dantescas.

Pita Lima então me disse: “a contaminação é por mercúrio”. Perguntei: “onde?”. Ele respondeu : “na Enseada dos Tainheiros”. “Quem é que despeja?”, insisti. E ele abriu o jogo: “é a CQR”. A informação foi um tapa no meu rosto. Nasci em Santa Luzia, subúrbio ferroviário vizinho ao Lobato, onde fui criado por minha família. Na infância e juventude assisti milhares de mulheres e homens dos bairros de São Caetano, Fazenda Grande, Largo do Tanque, Massaranduba, Jardim Cruzeiro e outros mariscarem na maré bem perto da CGQ e eram agora vítimas em potencial da Doença de Minamata.

No dia seguinte o jornal estampou em manchete “Mercúrio polui a Baía de Todos os Santos”. Salvador entrou em pânico, frutos do mar deixaram de ser vendidos e os restaurantes de moqueca localizados na Ribeira entraram em parafuso. João Ubaldo Ribeiro, então editor-chefe da Tribuna da Bahia, comprou meu passe e saído Jornal da Bahia. Mas a cobertura jornalística sobre a poluição continuou na TB.

Uma noite, quando cheguei à redação tinha recado de que dr. Jairo Simões, fundador e diretor da TB, estava me esperando na diretoria. Lá ele me comunicou que tinha chegado dos EUA um especialista em Doença de Minamata, o japonês Jon Ui, que tinha feito contato com José Sérgio Gabrielli, então estudante de mestrado e doutorado em Economia nos Estados Unidos. E o homem de Minamata veio direto ao gabinete do dr. Jairo, que também era professor da Faculdade de Economia da UFBA. E caiu na minha mão.

O entrevistei com ajuda de outro japonês, professor Sato, de Economia da UFBA, e a Tribuna escancarou a visita ilustre nas manchetes do dia seguinte. O telefone da redação não parou. Eram ligações de José Adeodato Neto e Irundi Edelveiss, diretores do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped), então gestor da política de meio-ambiente da Bahia, procurando o japonês. O levei para o Ceped onde ele reuniu-se com o corpo técnico, e depois o levei à margem da Avenida Suburbana, no Lobato, de onde ele podia ver a maré e a fabrica poluidora. E toda imprensa baiana e das sucursais das empresas do sul do país lá estava para entrevista-lo. Foi um acontecimento ambientalista.

Hoje, a poluição por mercúrio está esquecida. Mas o povo continua catando papa-fumo e sururu na maré da Enseada dos Tainheiros. Segundo técnicos e ambientalistas, o mercúrio nunca desaparece da natureza onde é descartado.

Antonio Jorge Moura é jornalista e ogan do Bogum.

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 12/01/2009

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