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Crônica
 
O filho do ferroviário - Parte I
Por: Antonio Jorge Moura

Laert era filho de ferroviário empregado na tradicional Rede Ferroviária Federal Leste Brasileira (RFFSA) quando o transporte de mercadorias e pessoas no Brasil ainda era feito por trens. Nasceu em 1917 e morava em Alagoinhas com o pai, mãe e três irmãs.
Brincava na porta de casa, ouvia o apito do trem, montava alçapão para pegar passarinho, jogava bola e fazia tudo que um menino da sua idade costuma fazer. Um certo dia tudo mudou. O pai faleceu, não tinha seguro de vida, a previdência não existia, mãe e irmãs, de repente, ficaram na pobreza.
Com 11 anos de idade, no início da pré-adolescência, teve que assumir o comando da família. E foi trabalhar num armazém de secos e molhados da vizinha cidade de Água Fria. E toda semana mandava dinheiro para a mãe comprar alimentos. O vai-e-vem monótono dos trens por Alagoinhas que já não avistava agora lhe inspirava para vôos mais amplos.
Soubera por fregueses que freqüentavam o armazém onde trabalhava que existiam duas grandes maravilhas para pessoas trabalhadoras como ele: ir para São Paulo fazer a colheita do café ou ir para Salvador, capital e cidade grande da Bahia, que na época tinha mais de dez mil moradores. Água Fria só tinha 50 moradores, se tinha muito, e não era futuro para ninguém.
Um dia, depois de mandar o dinheiro da semana para alimentar a mãe e as irmãs, viu que sobrou dinheiro para comprar uma passagem de trem até Salvador. Arrumou suas roupas, pegou o pedaço de sabão azul, juntou o frasco de brilhantina para o cabelo com o pente e foi conversar com o dono do pequeno armazém. Iria para Salvador tentar a vida, já estava com 12 anos e tinha mãe e irmãs para sustentar.
Pegou o primeiro trem que passou em direção a Salvador e desembarcou na Estação da Calçada. O tamanho da estação espantou Laert. Ele foi saindo devagarzinho, pisou no pátio de fora, viu alguns o bonde, parecendo o trem, andando sobre trilhos com cavalos amarrados, uns poucos carros de praça, as carroças puxadas por mulas carregadas de mercadorias, o largo, a estátua e a movimentação de gente. Do outro lado da praça tinha algumas casas comerciais com o nome pintado na parede: Ferragens Oitavem, Paradela, Casa Silva e outras.
O Armazém Paradela era muito grande. Tinha muitos fardos de carne de sertão, feijão, arroz e farinha. Gostou da casa de ferragens, que vendia pás, enxadas, fios elétricos e cavador. Passou pela porta e chegou junto a um homem alto que parecia ser o dono. Disse que tinha acabado de chegar de trem e pediu emprego. O homem olhou para ele de alto a baixo, perguntou de quem ele era filho e se já tinha trabalhado no comércio. Respondeu que sim, em Água Fria. Que sua mãe ficara viúva e que ele tinha que trabalhar para sustentá-la e a três irmãs.
O dono da casa de ferragens pediu para ele colocar a mala num canto e ficasse na loja para atender os fregueses que entrassem. Que ele ficaria de longe observando se o menino dava para o comércio. E se não soubesse se tinha alguma mercadoria que pedissem e o preço, que perguntasse a ele.
Laert sorriu e pensou logo em escrever para a mãe dizendo que arranjara emprego em Salvador. Perguntou ao homem da loja onde ficava os Correios e ele indagou para que. "Para escrever para minha mãe dizendo que consegui emprego". O homem lhe respondeu: "Deixe para escrever depois que conseguir o emprego. Agora só estou vendo se você dá para o comércio".
Laert passou o resto do dia despachando os fregueses. E se saiu bem. No final da tarde, princípio da noite o homem lhe chamou e perguntou se tinha lugar para dormir à noite. Respondeu que não. Lhe perguntou também se tinha dinheiro para comprar comida. Também respondeu que não e o homem mandou ele ir na padaria vizinha comprar uma vara de pão, mortadela, 100 gramas de manteiga e dizer que foi Oitaven que mandou pedir.
O dono da loja mandou ele pegar o gancho e arriar as portas de ferro. Disse que ia fechar a casa e arrumar um cantinho para ele dormir, depois de comer. Mostrou uma cama de colchão de palha, lençol, coberta, travesseiro e disse para ele dormir porque iria passar o cadeado na porta por fora. Que 8 horas da manhã do dia seguinte estaria na porta do estabelecimento para abrir e que queria ver ele de pé, já pronto para o batente. Mostrou uma moringa em cima de uma mesa de onde ele poderia beber água se sentisse sede. E saiu.
Oitaven era bem relacionado no comércio da Calçada e logo fez Laert ser admirado por todos os comerciantes da área porque era bom trabalhador. A Calçada era o centro comercial mais agitado da Cidade Baixa, porque muitos comerciantes vinham do interior e levavam de trem mercadorias compradas no comércio local. Laert estava animado, mas só sossegou quando foi aos Correios mandar uma carta para a mãe e colocar um dinheirinho no envelope.
O comerciante da padaria vizinha gostou muito de Laert e perguntou a ele se não queria trabalhar na entrega de pão, Ele iria, de venda em venda do Cortume, de Santa Luzia e do Lobato, carregando o baleio de pão na cabeça e Ceará, que era mais experiente, iria anotando a quantidade de pães deixados e recolhendo dinheiro da entrega do dia anterior. Ele conversou com Oitaven, que lhe abrigara, e foi liberado para trabalhar na padaria. Assim, conheceu Santa Luzia, que ficava na margem da linha do trem que saia da Calçada, onde terminou começando a vida como comerciante e morando depois de casado.

Antonio Jorge

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 16/02/2009

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