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Artigo
 
O filho do ferroviário - Parte II
Por: Antonio Jorge Moura

Só tinha havido tempo para Laert estudar até a terceira série do antigo Curso Primário - primeira fase do atual Ensino Fundamental - até ser tragado pelo turbilhão da morte do pai ferroviário e, com isso, enfrentar o desafio de antecipar o fim da infância para trabalhar aos 10 anos de idade com intuito de sustentar a mãe viúva e as irmãs Dagmar, Ismênia e a caçula delas, Noêmia.
Sabia ler, fazer contas de somar, subtrair, multiplicar e dividir. Nascera em 1917 e estava, portanto, pronto para enfrentar a vida daquele começo do século XX.
Depois da experiência no armazém de Água Fria, pequeno município da região de Alagoinhas, pegou um trem para Salvador, começou a trabalhar na loja de ferragens do velho Oitaven e não demorou ter o reconhecimento dos demais comerciantes de Calçada como bom trabalhador, apesar da pouca idade.
Foi convidado pelo dono da padaria vizinha à loja de ferragens e começou a fazer entrega de pão com Ceará. Cabia a ele carregar na cabeça o balaio de pães, que era enorme para o tamanho dele. Cabiam 50 varas de meio-quilo, todas em pé, no entorno do cesto, e 200 pães pequenos distribuídos organizadamente na parte central.
Tinha pão cacetinho, de milho, de leite e doce. Ceará andava na frente e Laert atrás com o cestona na cabeça. Embora com poucos anos, era forte o suficiente e suportava o peso. Para ajudar no equilíbrio do volume enquanto andava, lhe colocaram uma rodilha de pano na cabeça que servia também para atenuar o peso.
Os dois partiam por volta das 9hs do Largo da Calçada. Pegavam o caminho para Feira do Cortume, passavam pela porta da Penitenciária do Estado e, na Baixa do Fiscal, tomavam o Caminho do Mato para a Fábrica dos Fiaes até chegar ao início de Santa Luzia.
Santa Luzia era o primeiro subúrbio ferroviário de Salvador por onde passavam trens de passageiros e de carga após partirem da Estação da Calçada. Defronte do portão da fábrica tinha a Ladeira de Pedra que desembocava no Largo do Tanque, passando pela Entrada da Brejal, pelo Cine São Caetano, a Avenida Conceição e pelas ladeiras do Peru e do Pará.
Do lado esquerdo da linha férrea por onde passava o trem, era o trem, a maré cheia de manguezais, uma extensão da Enseada dos Tainheiros onde havia a ilha de Santa Luzia e a ilha Maria Preta. Quando a maré esvaziava, aquele braço de mar se transformava em um vasto banco de mariscos (crustáceos) que as pessoas de Santa Luzia, Largo do Tanque, São Caetano, Fazenda Grande e Lobato catavam para comer, alimentar a família e até vender.
Tinha uma longa fileira de casas do Fiaes até o Largo da Vista Maré. O mar batia no quintal e os caranguejos e guaiamuns entravam dentro de casa. Dali até o próximo subúrbio, Lobato, onde Oscar Nogueira descobriu petróleo no Brasil pela primeira vez, o mar quando enchia e a maré ficava alta as águas chegavam até a linha da ferrovia.
Por isso a Leste havia construído uma série de pontilhões, por onde a água do mar passava e por onde também as águas dos riachos que desciam do alto da Ladeira de São Caetano desembocavam suas águas no mar.
Do lado direito havia outra fileira de casas nas quais se destacavam a farmácia de Seo Dias, a padaria de Seo Vavá (a população dizia que o pão tinha bromato para inchar), a ladeira de Sanchez, o Largo da Rocinha, a casa de Seo Damásio, a avenida de casas de aluguel de Seo Damásio, a fonte para abastecimento de água, a entrada da Horta de Zé Grosso, a casa da costureira Dona Elsa, a barraca para venda de carvão, a entrada da Baixa do Cacau e Rancho Fundo, a delegacia e o Campo das Pedreiras, de onde podia se ver no alto da Capelinha de São Caetano o muro do Colégio Estadual Pinto de Carvalho.
Laert caminhava com o balaio de pães na cabeça na companhia de Vavá até a localidade de Bananeiras, após o Campo das Pedreiras. Lá fazia a entrega dos últimos pães e retornavam à padaria da Calçada. Quando chegava de volta e Ceará prestava conta do dinheiro recolhido, só tinham tempo para tomar banho. e comer o almoço/jantar que estava em uma marmita esperando por eles. Se estivesse frio, entrava assim mesmo. Tinham que dormir o mais rápido possível porque às 2 hs da manhã seriam acordados para participar da preparação da fornada de pães que iriam entregar pela manhã em Santa Luzia e no Lobato. E não tinha direito a queixa de que o trabalho era duro.

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