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Artigo
 
O filho do ferroviário - Parte IV
Por: Antonio Jorge Moura

Na década de 40 do século passado o Partido Comunista Brasileiro (PCB), de orientação soviética, ainda no embalo da Revolução Bolchevista de 1917, incrementou as ações populares em Salvador.

Ainda é bastante lembrada a ocupação das terras urbanas denominada Invasão do Corta Braço, bairro da Liberdade, que deu origem ao atual bairro do Pero Vaz. Muitos que lá moram não têm a menor idéia de que o Pero Vaz nasceu de uma orientação política do PCB, aquela de seguir aqui os passos de Lênin e instalar no Brasil uma república comunista à semelhança da antiga e extinta União Soviética.

Laert casou-se com Regina na Igreja do Rosário, que fica em frente à Praia da Penha, no Bogarim, Ribeira. A família dela tinha raízes na Peníssula de Itapagipe, onde ainda morava Luiz, o irmão mais velho, quando ela casou-se com o novo comerciante do subúrbio ferroviário.

Antes de mudar-se para a Ladeira do Sarapião, Largo do Tanque, uma vertente na Ladeira do Peru, Maria da Luz, a mãe de Regina, morou na Ribeira. Tinha sido “feita” na religião afrodescendente e consagrada a Xangô.

Aliás, Maria tinha apenas 5 anos de idade quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que acabou o regime de trabalho escravocrata no Brasil. Ela tinha sido beneficiada pela Lei do Ventre Livre e não nasceu escrava, mas não teve grandes oportunidades de trabalho na vida.

Foi criada por uma negra africana de nome Alabê, que morava nos Dendezeiros, perto da Colina do Bonfim, onde hoje está quartel da PM. E na juventude teve que ganhar a vida como biscateira, nome que se dava a quem sobrevivia como vendedora ambulante. E foi comerciante de cocadas e acarajé de taboleiro na porta da Fábrica dos Fiaes, em Santa Luzia, onde acabou indo morar com a filha Regina e o genro Laert.

O jovem comerciante Laert nunca imaginou que a sua amizade com os mestres de saveiro do Recôncavo que aportavam na Enseada dos Tainheiros, depois da Ilha de Santa Luzia – onde hoje está a igreja inaugurada pelo Papa João Paulo II em sua primeira visita à Bahia, nos anos 80 do século passado – iria colocá-lo, por engano, no rastro da Revolução Bolchevista. O que ele continuava a fazer era comprar as pencas de banana que eles faziam atravessar a Baía de Todos os Santos. E a vender com os pães e bolachas que vinham da Calçada. Nos finais de semana o movimento de compra e venda era dobrado.

É que o pão entregue na sexta-feira estavam duros sábado e domingo. Só serviam para torrar, fazer torrada ou ser pilado para virar farinha de rosca usada na confecção do saboroso vatapá. Então, a grande venda era de bolachas. Chegava a haver fila de compradores e compradoras na porta do armazém.

Foi num dia de domingo de a fila para compra de bolacha que um mestre de saveiro avisou: estava havendo uma invasão de famílias para construir casa nos manguezais dos Tainheiros. A invasão já estava chegando ao bairro do Uruguai e se chamava Alagados. As famílias estavam usando madeira para construir as casas, que chamavam de palafitas, e pediam para comprar madeira nos saveiros. Só que eles não vendiam caibros, varas e tábuas a granel. Vendiam o saveiro carregado, com toda carga. E precisavam de um comerciante de confiança para entregar a carga e em dois dias voltar ao Recôncavo com o dinheiro no bolso.

Na segunda-feira Laert começou um novo negócio: os barcos, as canoas e os batelões encostavam no saveiro e, lá em cima da cabine da embarcação, ele vendia as madeiras que eram embarcadas nas canoas e seguiam para a construção das casas de Alagados. Depois de dois meses fazendo negócio de venda de madeira, atracavam por dia, em média, 10 saveiros. E se chegassem 20 carregados de madeira, ele vendia todos.

Centenas de embarcações pequenas encostavam nos saveiros para comprar madeira. E Alagados, como num passe de mágica, já ocupava os manguezais dos bairros do Uruguai, Massaranduba, Jardim Cruzeiro e começava a entrar na Ribeira. Um dia, contudo, o esquema de suprimento de madeiras para o surgimento da invasão de Alagados entrou em colapso.

Acusado injustamente de ser militante do Partido Comunista Brasileiro com a informação de que o PCB estava por detrás da invasão de Alagados, assim como estivera no Corta Braço, Laert acabou preso pela polícia política do governo. E a invasão de Alagados diminuiu de ritmo.

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