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Artigo
 
O filho do ferroviário - Parte VI
Por: Antonio Jorge Moura

Santa Luzia cresceu muito em tamanho e em número de moradores desde a chegada de Laert, o filho do ferroviário de Alagoinhas, e de Dona Regina. A idéia do depósito de material de construção no Jardim Cruzeiro para ser administrado pelo cunhado Aurelino não deu certo. O cunhado e a irmã Noêmia se mudaram e Laert providenciou uma casa para a mãe, Anita, e a irmã Ismênia.

Já longe da polêmica da confusão que fizeram entre seu espírito empreendedor e as ações do Partido Comunista (PCB) na promoção da Invasão dos Alagados, ele tratou se montar seu próprio depósito de material de construção num terreno na Entrada da Baixa do Cacau. E seguiu a orientação de Seo Albertino, o português que o auxiliara a se estabelecer a primeira vez em Santa Luzia, começando a aplicar os lucros na construção de casas de alvenaria e telha para aluguel.

Construiu logo duas casinhas na parte do fundo do terreno que adquirira para o depósito. Uma delas alugada pelos associados para sede do Fluminense Esporte Clube, time de futebol que disputava o campeonato do Campo das Pedreiras. Aliás, é bom que se diga que foi das pedreiras de Santa Luzia, situadas entre o nível da passagem do trem e o Alto da Capelinha de São Caetano, que foram retiradas as pedras que ajudaram a construir o Porto de Salvador.

Além do Fluminense, Santa Luzia tinha um campeonato movimentado no Campo das Pedreiras. Além do Fluminense, tinha o Botafogo dos Fiaes, o São Paulo do Rancho Fundo, o América do Arranha Céu e outros times do Largo do Tanque, Brejal, Uruguai. Lá jogaram craques como o ex-ponta-esquerda Amarelinho, o meio de campo Josias e Siri, o atacante Deraldinho, o cabeça-de-área Vieira, e muitos outros mais. Ns tardes de sexta-feira, o baba começava às 14hs e só terminava às 19hs com o jogo dos veteranos. Em noite de lua, o baba corria solto com bola branca

Existiam pessoas com dificuldades de sobrevivência, mal-educadas, grosseiras, mas não existia marginal. Ladrão virou novidade quando apareceu um que, para confundir a Guarda Noturna e poder agir, apitava como se fosse um deles. Foi organizada uma guarda pelos moradores que acabou afugentando o incauto. O único barulho que interrompia o sono nas noites de Santa Luzia era o da passagem dos trens.

Um Posto Policial passou a funcionar a poucos metros da Entrada do Cacau numa casa alugada por Laert, o filho do ferroviário de Alagoinhas. Só se registravam prisões por arruaça. Zé Cassarala, Totinho, Zeca do Peixe, Tira Gosto e outros que, quando tomavam umas e outras, aprontavam confusão, eram hóspedes carimbados do xadrez do posto. Eram soltos assim que a bebedeira passasse. E voltavam na bebedeira seguinte.

Todo mundo se conhecia e todo mundo era conhecido. Ninguém aprontava nada fora do tom que a façanha não chegasse ao conhecimento dos pais. Toda criança, desde que já andasse e soubesse atravessar as pontes improvisadas nos pontilhões, vivia solta mas sob vigilância de todos. Junto da casa de Laert tinha uma avenida de casas, de rua larga, onde foram morar até estudantes bolivianos, que saíram de Cochabamba para tentar uma faculdade de medicina no Brasil.

Laert, o filho do ferroviário, de tantas habilidades que possuía, tinha que ter um defeito: era um fumante inveterado numa época em que fumar era sinônimo de macheza. Mulher não fumava nem a pau! Ele acendia um cigarro na baga do anterior e assim passava o dia e a noite. Só parava de fumar quando dormia. E olhe lá, porque mesmo assim queimou colchões quando deitou com o cigarro entre os dedos. Não deu outra e terminou a vida encarnada com os pulmões doentes.

Mas deixou o que Vera, a mais velha, chama de patrimônio da família. Ela formou-se pela Escola Bahiana de Medicina e hoje é professora de Medicina Alternativa da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA. Raimundo morreu atropelado por um bonde, na Calçada, voltando da escola. Laert Júnior, ex-seminarista, também é médico obstetra e ginecologista, “aparou” a maioria dos sobrinhos e sobrinhas. Seguindo a saga de Mãe Carminha, a parteira dos filhos e filhas de Dona Regina.

Mariluce é jornalista e mora em São Paulo. Antonio Jorge também é jornalista. Regina Lúcia é formada em Química pela UFBA e trabalha na Xérox, em Camaçari. Maria Suzana é formada em Arquitetura e é professora da Faculdade de Administração da UFBA. Claudia Maria é formada em Direito pela UFBA e é procuradora do Estado da Bahia. E Solange é formada em Belas Artes pela UFBA e é professora de artes. Paulo, com a formação que teve do Exército, tornou-se segurança da Petrobrás. José Roberto, o caçula, também seguiu o exemplo e é segurança particular.

Oito filhos formados a nível universitário e só uma em faculdade particular. Uma família totalmente miscigenada, totalmente brasileira e intelectualmente preparada. Essa é a herança deixada por Laert, o filho do ferroviário de Alagoinhas, que cursou até o terceiro ano do Curso Primário, e Dona Regina, a filha de uma beneficiária da Lei do Ventre Livre e vendedora de tabuleiro, que foi balconista de farmácia e costureira e só estudou até a quinta série do antigo Primário. Esse é o retrato do Brasil que dá certo!

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