A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

 
Artigo
 
Jornalistas em extinção
Por: Antonio Jorge Moura

Na entrada do prédio-sede do Banco Econômico, numa das esquinas da rua Portugal, no Comércio, encontrei o jornalista Oldack Miranda. Ele havia sido preso pela ditadura de 1964 na mesma ofensiva de repressão em que foram presos outros integrantes de Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil, entre eles a jornalista Mariluce Moura, o marido dela, Gildo Macedo Lacerda (morto sob tortura), o jornalista Oto Filgueiras e a professora e jornalista Nadia Miranda. Oldack tinha retornado à labuta diária no Econômico e me disse:

- Estou saindo do banco e indo para o Jornal da Bahia, fundado por João Falcão, que vai lançar a edição de segunda-feira. Quer ir para lá para ver se tem vaga?

Não pensei duas vezes. Subi no elevador do prédio até o departamento onde estagiava na área de Economia e pedi demissão. Saí de lá direto para a redação da Barroquinha, onde haviam trabalhado Glauber Rocha, Paulo Gil Soares e outros integrantes da Geração Mapa que agitou política e culturalmente o Colégio Central nos anos 60 do século passado.

Na redação do Jornal da Bahia fui apresentado à jornalista Vera Martins, da equipe que se preparava para lançar a edição de segunda-feira. O JBA circulava de terça-feira a domingo e a redação folgava na segunda. Quem me recebeu para conversar sobre trabalho foi Cunha, chefe de reportagem, que me passou para Frederico Simões, pauteiro, o Fred Cachorro Manso de grata memória.

Fred ouviu meu relato sobre a experiência que tive como estagiário na Tribuna da Bahia numa época em que não se exigia diploma universitário para jornalista, e me contou as aventuras de Mariluce Moura, minha irmã, que havia chegado uma manhã à redação quando estourou a bomba: o guerrilheiro Carlos Lamarca foi morto no distrito de Buriti, município de Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, num confronto com o Exército e a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Ela foi designada por Fred para ir com malas e bagagens fazer a cobertura da morte de Lamarca ainda naquela manhã. Sem direito a chiadeira! Mariluce foi lá e trouxe a história, além de algumas relíquias, como os cartuchos de balas deflagradas no confronto, um pedaço do fumo de corda usado pelo guerrilheiro e o embornal que Lamarca tinha nos ombros quando caiu morto na caatinga

Depois de uma conversa longa e animada, Fred sentenciou: “você fica aqui, mas vai trabalhar na redação do jornal diário. Nada de edição de segunda-feira”. Assim nasceu um jornalista. Dividi essa nova vida em duas vertentes: uma profissional e a outra boêmia. Para essa, fiz amizades com jornalistas e boêmios, como Utamar Sebastião e Rêmulo Pastore.

Quando recebi meu primeiro salário pedi autorização a meu pai e minha mãe para deixar a nossa casa no subúrbio de Santa Luzia, perto do Lobato, e ir morar no Centro Histórico de Salvador. Porque ficaria perto do jornal e da Faculdade de Economia da UFBA, para a qual passado em 1973. Aluguei um quarto de uma pensão da rua do Bangalã, perto do Quartel-General da VI Região Militar, no Carmo, onde morava Utamar.

Meu café da manhã era numa pastelaria em frente ao jornal, na Barroquinha, e o jantar no trailler de Zé do Muro, que havia se mudado do alto da Ladeira da Montanha para a porta da Igreja da Barroquinha. Nós jantávamos de pé com o prato em cima de um balcão improvisado na lateral do trailler. Recentemente encontrei Paulo Moura, filho de Zé do Muro, ex-oficial do Exército, advogado e médium espírita, autor de vários livros psicografados. Quando pequeno, era ele quem lavava os pratos usados pela freguesia do trailler de Zé do Muro.

Minha carreira jornalística inicial foi meteórica, incentivada por Fred e inflada pela sorte, que colocou na minha frente denúncia do despejo de mercúrio na Enseada dos Tainheiros. Em 1977 já estava trabalhando na sucursal baiana do Jornal do Brasil, sob comando dos jornalistas Victor Hugo Soares e Florisvaldo Matos, além de ter tido passagens de free-lancer na Veja, da Editora Abril, sob comando do jornalista Carlos Libório.

Minha estréia na vida boêmia a colocou em choque com a militância política. É que fui para uma Micareta de Feira de Santana na companhia de Utamar Sebastião e de Pastore. Utamar era Editor de Municípios e nos levou à sede do Jornal da Bahia em Feira, terra da Família Falcão, dona do jornal. A sede ficava em plena área da folia e la dentro, na sala da diretoria, descobrimos um litro do uísque Passport prontinho para ser consumido. Foi nossa festa e nossa derrota.

Quando retornamos da Micareta fui chamado à diretoria por Gustavo Tapioca, jornalista casado com a filha de João Falcão. Ele não se conformava com o fato de eu ser um militante de esquerda atuante e ter me juntado a dois farristas. E pior: durante a nossa farra na sede do jornal em Feira tínhamos quebrado uma imagem sacra da Família Falcão, de valor inestimável. A melhor saída era tomar a regulagem e calar-me.

Depois de Utamar e Rêmulo, conheci boêmios eméritos da Bahia, como o jornalista Jheova de Carvalho e Franco, do bar Raso da Catharina, localizado no Campo Grande. Acompanhei, como cliente, o crescimento empresarial de Clarindo Silva, da Cantina da Lua, e a continuidade do Restaurante Moreira, na rua do Cabeça.

Hoje já não existe mais jornalista que seja misto de profissional, boêmio e militante político. Gente como eu, Tasso Franco, Renato Ferreira, Luiz Faustino, Marcelo Simões (hoje, também, publicitário), Lúcia Ferreira e poucos outros somos os últimos dos moicanos. Espécie em extinção.

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: ASZO (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.