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Artigo
 
DIZER-LHE ADEUS, POR QUE?
Por: Olmair Perez Rillo


DIZER ADEUS, POR QUÊ?

(Com a devida licença de Raul Seixas (1945/1989) - a quem reverencio - do qual tomei emprestada a letra de sua genial canção O Trem Das 7)

Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon.

E lá vinha o trem serpenteando pela cidade a dentro como se fosse um dragão soltando fogo pelas ventas, como costumava dizer dona Gabriela, a viúva que vendia canudinho de coco - pra ninguém botar defeito - e amendoim torradinho para sustentar os quatro bacuris que Juliano, seu marido, lhe deixara como herança. Ela não se cansava de contar que ele era danado de bão, mas de vez em quando abusava da branquinha e foi num dia de bebedeira que caiu do cavalo quebrou a espinhela e foi acordar nos braços do Criador.
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem

Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem.

Como se ninguém soubesse, os “arto falantes falavam”, insistentemente, que a Maria fumaça estava chegando. E ela vinha apitando como se estivesse perguntando:

Quem vai chorar quem vai sorrir? Quem vai ficar quem vai partir?
Pois o trem está chegando, ta chegando na estação. É o trem das sete horas, é o último do sertão...

Na plataforma, as costumeiras cenas das torturantes despedidas misturavam-se com a alegria daqueles que esperavam algum ente querido. Um senhor de cabelos grisalhos, acariciando a face de uma jovem, que parecia ser sua neta, comentou baixinho: é sempre assim nestas horas. Se desse pra juntar todos os corações em um só coração, com certeza o baruião que ele faria dava até pra encobrir o som da locomotiva que chegava barulhenta como sempre. A garota sorriu, mesmo tendo nos cantos dos olhinhos miúdos, duas lágrimas que pareciam disputar qual delas cairia primeiro.

Ói olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar.

De repente, a fumaça invadiu o ambiente, impedindo que a pouca luz do dia encoberto por nuvens escuras nele penetrasse. Os olhos ficaram ardendo por alguns instantes e, não se sabe quem, soltou um palavrão, como se o xingamento pudesse impedir o que acontecia todas as vezes que o trem ali chegava. A fumaça se dissipou, os passageiros que partiam - triste contraste - foram embarcando, alguns com os olhos marejados, outros sorridentes, cada um com seu motivo para sorrir ou chorar. Os que chegaram traziam no rosto expressões idênticas aos do que se foram. Cabisbaixos ou demonstrando a indescritível alegria de todo reencontro seguiram seus caminhos, enquanto o condutor avisava que o velho trem iria continuar seu percurso.

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões

Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons. Ói olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral.

Quietos, em um canto, estava um jovem casal. Pareciam namorados. Eles se beijaram, se abraçaram, mais uma vez tornaram a se beijar, a se abraçar e lá foi ela. Apoiada na janela colocou uma parte do corpo do lado de fora para que seus olhares e suas mãos se encontrassem, quem sabe, pela última vez.
Olhando aquela cena senti - como se eles fosse - o coração batendo acelerado dentro do peito. Percebi, também, que tentaram falar alguma coisa, mas a voz sufocada pela dor e a emoção daquela despedida fez com que seus lábios, tremendo de emoção, não encontrassem palavras apropriadas. E o silencio acabou falando mais alto.

Ah! Se pudéssemos parar o tempo ou mesmo voltar atrás, me vi dizendo baixinho. Com certeza não haveria pulsar descompassado de corações amargurados, a voz sairia clara, os olhos não mais derramariam lágrimas de saudade, não sentiríamos tristezas e nunca mais indagaríamos: ter que dizer adeus, por quê?

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