A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

 
Conto
 
A vida pacata de S. Luzia - I
Por: Antonio Jorge Moura

Baú estava bebendo todas. Passou o dia de venda em venda engolindo doses cavalares de aguardente "pingado" com vinho.
A moral dele na casa do pai estava lá embaixo, no chão. A sua alegria era rir abrindo os dentes podres após rimar ousadamente os amigos e interlocutores, sempre com tiradas indecorosas e de bom humor. Se a pessoa dizia alguma frase com a palavra pronunciada com U no final, era rima na hora: "meu p... em seu c.... E daí por diante. A alegria da molecada eram suas rimas picantes.
Depois de encher a cara bateu a fome no estomago de Baú. Ele foi devagarzinho até a casa da família e chamou a mãe, com discrição para não provocar o pai. E pediu almoço. A mãe aproveitou que o pai estava deitado na cama do casal, mandou o filho entrar e sentar-se à mesa. Voltou da cozinha com o prato cheio e uma panela com pirão fumegante ainda com a colher de pau mergulhada no pirão quentinho. O deixou sentado comendo o pirão com ensopado de carne de boi a arroz. Foi para dentro, enquanto o marido se dirigia à mesa para sentar-se e aproveitar para fazer uma boquinha.
Olhou para o filho, balançou a cabeça envergonhado com o vício que ele adquirira de beber até cair e soltou um impropério para desabafar a raiva que sentia:
- Come esmolé!
A resposta de Baú foi imediata.
- Quem lhe comeu foi Pelé!
Já enraivado, o pai não tituberou. Pegou a colher de pau que estava na panela de pirão e meteu na cara de Baú. O sangue jorrou na hora. O nariz torto, quebrado pela porrada, ficou para sempre no rosto e se tornou marca registrada de Baú. E assim ele seguiu a vida: um dia bêbado, o outro também, sempre aplicando rimas jocosas ou simplesmente indecorosas em interlocutores ou pessoas que ouvia falar por perto.
A banca de Zeca do Peixe estava sortida, cheia de mercadorias. Tinha peixe fresco pescado por Demi na Enseada dos Tainheiros, temperos comprados diariamente na Feira do Cortume, garrafinhas contendo azeite de dendê, coco seco, enfim, tudo para comprar e já sair para preparar uma moqueca. Tinha meses sem tomar um pifão. Tipo cabo verde, de cabelos penteados e sempre cortados na Barbearia de Mari, cuidava com esmero da mulher e das filhas.
Um dia Zeca do Peixe entrou no Armazem de Laert. Deu um tapa com a mão calosa aberta no balcão de madeira. E se dirigiu ao filho do proprietário:
- Tonho, bota aí um Superquentão!
O jovem filho do dono da casa comercial foi até a prateleira de copos, pegou um deles, seguiu para a prateleira de garrafas de aguardente já abertas e segurou a garrafa do aguardente pedido, se dirigiu ao balcão com os dois objetos nas mãos, colocou o copo sobre o balcão e derramou um pouco do líquido ardente dentro do copo.
- Querosene - ordenou Zeca do Peixe.
Se dirigindo ao tonel de gás, Tonho foi pensando: "vai começar uma nova bebedeira". Voltou com o querosene em uma vasilha.
- Pingue aí no copo - voltou a ordenar o vendedor de peixes. E foi relacionando os demais componentes da estranha alquimia: óleo de risino, óleo de cozinhar, álcool, canela em pó, água de flor e, por fim, uma pingada de Cinzano. Pediu o lápis com ponta feita que o filho de Laert trazia preso no lado da orelha e mexeu a mistura. Depois a solveu de vez, sem sentir o sabor. Engoliu. A estranha mistura desceu esôfago abaixo, bateu no estomago e fez um reboliço na barriga de Zeca do Peixe. Os olhos do vendedor de peixe foram ficando vermelhos e as faces se alteraram, ficaram embrutecidas. Soltou um peido alto, fedido e já saiu cambaleante porta afora, deixando abandonada a banca sortida tal como estava, cheia de peixes e temperos.
A bebedeira durou um mês, sempre renovada com novas doses alquímicas. Zeca passava o dia cambaleante pelo bairro, como se tivesse incorporado uma entidade espiritual, dormia sobre as madeiras do depósito de materiais para construção que Laert possuía em frente ao armazém. Se alimentava das moquecas e ensopados que a mulher pacientemente levava a ele. Um dia dormiu além do normal, passou três dias estirado sobre as madeiras e quando se levantou retomou a normalidade de comprar os peixes de Demi para revender a granel e todos os dias se dirigia à Feira do Cortume comprar os temperos das moquecas das famílias de Santa Luzia. Como se nada de anormal tivesse acontecido.
As chuvas de março chegaram fortes. A correnteza no rego da Horta de Zé Grosso ficou muito forte. Na verdade era um riacho de nascente no Rancho Fundo, nas encostas da Ladeira de São Caetano. E chegou ao pontilhão da linha do trem arrastando areia, troncos de bananeira, penicos enferrujados e galhos de árvores. Entupiu o pontilhão, a água procurou saída pelos lados invadindo as casas e o material arrastado pela correnteza cobriu a linha férrea, interrompendo o tráfego de trens que saiam e voltavam da Estação da Calçada.
O problema maior foi no morro do Aranha Céu, nas baixadas do Rancho Fundo e nas Bananeiras, junto ao Campo das Pedreiras. A terra encharcou, ameaçou correr e desabar sobre as casas colocando em risco as vidas de adultos, idosos e crianças. No nível da linha do trem as famílias lutavam contra a enchente: tiravam água de dentro de casa, arrastavam lama, colocavam móveis menores em cima dos maiores, recolhiam sapatos que boiavam e ameaçavam ser arrastados pela correnteza. Nesse clima, com a chuva caindo forte, alguém andava nas ruas ensopado pela água dando o alerta de casa em casa, recorrendo à solidariedade humana:
- A terra vai cair do Arranha Céu em cima das casas da Baixa do Cacau. Vamos lá ajudar a tirar as coisas e as pessoas de dentro e alojar na sede do Fluminense.
Espontaneamente chegavam reforços para carregar móveis, geladeira, fogão, colchões de dormir, trouxas de roupa e gente. A divisão das moradias improvisadas no salão da sede do Fluminense ia acontecendo à medida que chegavam as famílias ameaçadas e suas tralhas. Seria a moradia delas até que as chuvas permitissem e suas casas voltassem a ser seguras. Ninguém se arriscava. Num desabamento nas Bananeiras várias casas desabaram e inúmeras pessoas morreram soterradas. Até o tráfego de trens foi interrompido pela terra que cobriu a linha férrea.
As brincadeiras das crianças eram infantis e inocentes. A cada período a molecada se dedicava a um tipo de diversão. Tempo de empinar arraia era sinalizado pelo céu multicolorido, pelas rabadas de cordão de linhagem, pelos fios estendidos para serem temperados com cola e vidro moído, pelo papel de arraia colado na parede da porta de casa para indicar venda das bichinhas e pelas cabeleira das varas de flexa usadas na confecção das arraiais. No Arranha Céu ou na Beira Mar a turma se reunia. Cortar uma arraia era a glória.
No tempo de jogar bola de gude tinha os pontos de encontro: na frente da venda de Seo Waldemar, no Largo da Beira Mar, na Entrada da Baixa do Cacau e na porta dos banheiros de João e de Seo Antonio. Bastava desenhar um triangulo e uma linha no chão de terra para a partida começar. A turma já saía de casa com um saco de bolinhas de gude na mão. Nesses mesmos pontos começava o tempo das rodas de Furapé. Não havia TV nas casas nem em Salvador. À noite, o ponto de encontro era a linha do trem. Uma turma sentava em um trilho, a outra de outro lado e o papo corria solto.
Tonho de Laert ia andando do armazém do pai, onde havia trabalhado desde as 14 hs, e retornava para casa, no final da tarde. Foi quando avistou Sargento discutindo com Demerval, como estivessem nos entreveros iniciais para virar porrada a vera. Se aproximou dos dois e Sargento pediu para ele segurar um pedaço de madeira comprida que segurava em uma das mãos.
- Tonho, segure aqui para mim que eu vou quebrar esse cara na mão.
Estendeu a mão com uma das pontas da vara em direção ao filho de Laert e disse:
- Tome!
Quando ele segurou a ponta Sargento puxou a vara e Tonho ficou com a mão atolada de merda, de bosta. Ele tenha caído na brincadeira "pau de bosta". Sargento e Demerval caíram na gargalhada, no que foram seguidos por outras crianças. E Tonho correu para o rego onde foi lavar a mão para não chegar em casa fedendo a escrementos humanos.
Em suma, não havia brincadeiras com arma de fogo e de violência. Brincadeira era brincadeira. Outro ponto de encontro da criançada era o Campo das Pedreiras. Lá no alto ficava o bairro da Capelinha de São Caetano. Se via até o muro do Colégio Estadual Pinto de Carvalho, que depois foi transferido para São Caetano. Das Pedreiras foram retiradas as pedras usadas para a construção do Porto de Salvador, que eram levadas para o Comércio em carrinhos montados na linha do trem.
Mas as Pedreiras valem um artigo à parte. Até o próximo episódio.

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: PBDb (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.