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Agenor Figueira Rodrigues Filho
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HUMANISMO NO TRABALHO
Por: Agenor Figueira Rodrigues Filho


Eu trabalhava num conglomerado industrial que envolvia várias atividades têxteis como produção de tecidos de linho, algodão, rendas, bordados e fibras sintéticas. Era um total de nove unidades industriais e Ivan Coelho era o mega empresário. Um dia fui designado para assistir à palestra do professor Abreu, que falaria sobre a importância dos recursos humanos na empresa.
Porém, o professor começou falando da importância dele no complexo industrial em que trabalhava. Disse que o doutor Ivan Coelho, o dono do grupo, não decidia nada sem antes falar com ele. Entrando no assunto da palestra afirmou que o mais importante dentro de uma empresa eram os recursos humanos e que nenhuma companhia prosperava sem dar o devido apreço aos seus funcionários. O maquinário, a matéria-prima, o capital de giro eram muito importantes, mas nada disto fazia sentido se não tivesse a mão-de-obra bem selecionada, bem treinada e motivada. Os outros recursos não tinham sensibilidade nem coração nem alma. E o ser humano ficava magoado, ofendido e humilhado se fosse tratado com grosseria, desatenção e indiferença. Estes fatores poderiam tirar, de um empregado, a motivação e dedicação à empresa e, se isto acontecesse coletivamente, a companhia estaria fadada ao insucesso. Concluindo, disse que o ser humano precisa ser tratado com carinho e desvelo.
Voltei para minha empresa impressionado com o que ouvira. Fiz um exame de consciência e concluí que eu tratava bem meus subordinados, mas poderia tratar melhor, principalmente dando-lhes mais atenção. Perto da fábrica em que eu trabalhava, havia uma indústria do mesmo grupo – trabalhávamos com algodão e eles com fibra de linho. Um dos gerentes da fábrica era o doutor Otávio, exigente, autoritário e dado a assediar as mulheres. Pensei, se o professor, que é do grupo, souber disto vai pedir sua demissão.
Havia uma telefonista na fábrica de linho, a Nina, que trabalhava um turno em cada empresa. Ela era noiva, estava se preparando para casar, precisava melhorar a renda. Quando o doutor Otávio soube que ela trabalhava para a outra empresa fez-lhe uma proposta amorosa que ela recusou. Ele mandou que ela pedisse demissão do outro emprego. Ela pediu e comunicou ao Dr. Otávio que cumprira sua determinação. Ele insistiu no assédio, ela recusou. Ele a demitiu do segundo emprego. O gerente da nossa fábrica soube e readmitiu-a.
Meses depois o Dr. Otávio foi transferido para a fábrica em que eu trabalhava. Curioso para conhecer o monstrinho da fábrica de linho foi à sala dele para cumprimentá-lo. Eis a minha surpresa: lá estava o professor Abreu. Cumprimentei-o e pedi desculpas, pois pensava que aquela sala era do Dr. Otávio. Ele me respondeu que ele é o dr. Otávio e esclareceu que o nome dele é Otávio Abreu. Falei que gostei do curso que ele ministrou. Dr. Otávio disse que curso de Relações Humanas é uma utopia, uma aula dessas é igual a um discurso de político quando está em campanha: não é para valer, na verdade, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Perguntei se a Nina, a telefonista, não teve juízo. Ele respondeu que a Nina foi infiel à empresa, ela foi capaz de trabalhar para o concorrente. Perguntei:

− Que concorrente, se lá produz tecido de linho e aqui produz de algodão e as duas empresas são do mesmo dono?
Dr. Otávio disse que ele a demitiu e iria demiti-la outra vez, para ficar bem claro o poder que ele tem dentro da empresa. Aí, concluí que todo aquele ódio era por que ela não cedera às suas cantadas. Ele admitiu que sim e, rindo, concluiu que ninguém podia resistir ao charme do poderoso chefão.
Perguntei se era verdade que o Ivan Coelho ia comprar o Lanifício Esperança. Ele disse que não.
− O Ivan não me falou nada e ele não faz nada sem me consultar.
A seguir tocou o telefone, era a secretária do Ivan pedindo que ele procurasse o chefe de Pessoal. Ele comentou que aqui nessa fábrica iam fazer igual na outra: ninguém resolvia nada sem a assistência dele e concluiu que, naturalmente, o Coelho já queria mandá-lo fazer um estudo de viabilidade para a compra do Lanifício Esperança. Eu disse que, se fosse ele, não o mandaria procurar o chefe de Pessoal. Ele concordou e acrescentou que deveria ser um problema qualquer que o chefe não sabia resolver.
Uns 15 minutos depois corria pela fábrica a noticia de que o Dr. Otávio tinha sido demitido, por justa causa, por faltar com a compostura no relacionamento com subordinados e desonestidade com os bens da empresa. Os funcionários das duas fábricas comemoraram. Fui até a sala dele saber como ele resolvera o problema do chefe de Pessoal. Ele pediu que eu me retirasse da sala dele porque eu sabia muito bem o que havia acontecido. Perguntei se ele ia fazer o estudo de viabilidade para a compra do Lanifício. Ele insistiu que eu me retirasse e o deixasse só. Fiz a vontade dele e, um mês depois, eu soube que o Ivan Coelho comprara o Lanifício.

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