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Agenor Figueira Rodrigues Filho
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UM FROUXO METIDO A VALENTE
Por: Agenor Figueira Rodrigues Filho


Ao começar o baile infantil na associação, João, o chefe da segurança, entrou na secretaria com um garoto imobilizado pelo braço e esbofeteou-o. Rodrigo, vice-presidente da entidade, protestou contra a violência do segurança, mas este respondeu que Rodrigo não sabia com quem estava falando porque ele, um policial cana-dura, resolve tudo na porrada.
Rodrigo disse que o conhecia razoavelmente bem, pois tinha acabado de saber que ele era capaz de esbofetear uma criança indefesa. Soube que, na presença do público que dançava no salão social, esbofeteara também um pobre diabo que estava alcoolizado e que um traficante, que vendia drogas dentro do clube, fora preso e colocado sob sua guarda e ele o ameaçou de morte, deixando-o fugir antes da chegada da policia. João disse que Rodrigo não sabia com quem estava se metendo e que ele poderia se dar muito mal. Rodrigo comentou que estava tremendo de medo e lembrou que a diretoria prometeu à segurança uma bonificação de 20% do valor do contrato, se ela ele agisse com segurança e eficiência, isto é, se merecesse nota 10, mas informou que isto não teria mais.
À noite, o baile dos adultos estava muito tenso. Havia três grupos de desordeiros, que se autodenominavam “turmas”. Uma turma era liderada pelo Bangu, sargento do Corpo de Bombeiros, outra pelo Nélio, policial civil, e uma terceira pelo Nonô, policial militar. Estas gangues eram inimigas mas assumiam o compromisso, por meio de seus líderes, de não perturbar a ordem no clube. Realmente, cumpriam o prometido, depois do baile brigavam na rua. Uma das funções da segurança era evitar, discretamente, que os grupos se aproximassem e isto era bem feito. O Departamento Feminino também tinha sua função: visitar as mesas de todos os freqüentadores para saber se estavam sendo bem servidos e as mesas das gangues recebiam atenção especial, sobretudo os seus líderes. Apesar do ambiente tenso, tudo corria em paz.
Havia seis alas, mas, pelo porte delas, só a Cidade Jardim, vermelha e branca, e Se Morrer Não Faz Mal, verde e preto, teriam condições de ganhar o concurso, ambas eram muito bonitas, mas a Cidade Jardim, que fora criada dentro do clube, vinha ganhando todas as competições, já era tetracampeã e, além de rival, tinha toda a simpatia dos jurados. A ala Se Morrer Não Faz Mal, criada em outro clube, já estava revoltada e pretendia fazer um enérgico protesto se ocorresse nova imparcialidade.
O baile transcorria animado. Rodrigo saiu da secretaria e veio para o lado de fora para apreciar melhor de cima do jirau e viu embaixo o João, o “policial cana-dura”. Ao lado do João foi se formando um rebuliço, que era o princípio de uma briga. Ele foi saindo como se nada estivesse acontecendo, o atrito entre as pessoas foi aumentando, João apressou os passos para afastar-se o mais depressa possível. Os soldados da Polícia intervieram, dominando a situação, imobilizando o causador do problema e conduzindo-o para fora do clube. Quando João viu que a situação estava dominada, juntou-se aos policiais e estes, antes de soltarem o arruaceiro, deram-lhe um chute e um pescoção, o outro policial imediatamente sacou um revólver. O elemento excluído do baile correu. Sacou uma arma da cintura e, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, o policial atirou. Aparentemente, os tiros não o atingiram porque ele correu longa distância em velocidade. A seguir, os policiais, ladeados por João, retornaram ao salão social. Todos estavam satisfeitos com o que fizeram e até o João, que não fizera nada, estava com pose de valente.
João procurou Rodrigo e perguntou:
– Viu, seu Rodrigo, a ocorrência que houve agora? E o senhor ainda acha que não merecemos nota dez?
– Não sei por que mudaria a minha opinião. Eu vi a polícia dominar um princípio de conflito, botar o desordeiro para fora e você acompanhou de longe, respondeu Rodrigo
– O senhor não gosta mesmo de mim, comentou João.
– Não se trata de não gostar de você, trata-se de não gostar do seu trabalho e da sua equipe, acrescentou Rodrigo.
– O que o senhor tem contra o nosso trabalho? Indagou, João
– É visível que vocês trabalham com medo. Todas as equipes de segurança que trabalharam aqui ficaram como vocês, distribuídos estrategicamente em 12 postos. Sempre que ocorria uma alteração o titular do posto tomava a primeira providência para debelar o tumulto. E os que estavam mais próximos apressavam-se em auxiliar, ponderou Rodrigo.
Continuando, Rodrigo disse:
– João, você e seus companheiros trabalham diferente. Quando ocorre um tumulto, em um local, o titular do posto vai de posto em posto pedir o auxilio aos colegas e, enquanto isto, o tumulto cresce. Tumulto é como incêndio: tem que ser debelado nos primeiros minutos.
– Seu Rodrigo, nós vamos adotar o sistema de trabalho das outras equipes. Eu queria que o senhor desconsiderasse essas pequenas falhas que ocorreram até agora e recuperasse a nossa nota dez a partir de agora, porque nós precisamos muito desse prêmio.
– João, eu vou lhe atender mas as falhas que ocorreram até agora não foram pequenas, disse Rodrigo
No clube, todo mundo sabia que o chefe de uma das gangues, o Bangu, passava por uma fase muito difícil. A mulher que ele amava e maltratava trocara-o por outro. Ele vivia amargurado e, por isto, vinha se embriagando mais do que de costume. De repente, a paixão do Bangu entrou no clube, acompanhada de seu novo parceiro. Ele virou fera e queria agredir os dois, mas os membros de sua gangue o impediram. Entretanto, foi preciso muita gente para segurá-lo, o que causou grande rebuliço. João, que tinha percebido que Rodrigo estava atento aos acontecimentos, resolveu mostrar serviço e dirigiu-se ao Bangu com energia. Este respondeu com uma violenta bofetada. João disse:
– O que é isso Bangu? Nós somos colegas.
– Eu não sou colega de um puto igual a você, respondeu Bangu
Quando João ia saindo desapontado, Rodrigo perguntou:
– E agora, cana-dura, o que você me diz?
– Seu Rodrigo, não se meta nesse assunto porque não é da sua conta. Nós somos colegas e depois eu vou dar o troco a ele, afirmou João.
– Ele disse que não é seu colega e disse o porquê. E sempre que alguém leva uma porrada na cara ou dá o troco na hora ou nunca mais, disse Rodrigo.
– O seu dever é procurar conciliar e não instigar mais desordem. O senhor quer que eu vá lá e saia na porrada com ele? perguntou João.
– Não, quanto a isso estou tranqüilo, eu sei que você só bate em crianças e bêbados, provocou Rodrigo
– Seu Rodrigo o senhor está doido para acabar com o nosso prêmio de incentivo. Espero que o senhor não use esse incidente como pretexto, porque isso é um assunto pessoal.
– Isso é o que você pensa. Todo o público já percebeu que você e sua equipe trabalham com medo. Se não bastasse isto, todos viram o chefe da segurança apanhar na cara e não reagir, completou Rodrigo.
Faltavam duas horas para encerrar o último baile do carnaval do ano. Isto preocupava muito a diretoria. As duas alas que disputavam o título de melhor do carnaval empatavam na opinião do público. A diretoria sabia que a Se Morrer Não Faz Mal (fantasia verde e preta) viera para ganhar e a Cidade Jardim (fantasia vermelha e branca) não admitia perder. Caberia ao grupo de jurados decidir. Enfim, a orquestra parou para ouvir os quesitos do júri e a proclamação do resultado final. Deu vermelha e branca, pentacampeã. A ala verde e preta começou a jogar cadeiras e garrafas nos jurados, os cinco soldados da Polícia Militar batendo vigorosamente com cassetete de madeira de lei, e a equipe de segurança fingiu que não viu nada. Os membros da Verde e Preto usando as cadeiras como escudo, começaram a acuar os policiais. O presidente, Rodrigo, o diretor social e um subdiretor, que assistiam aos acontecimentos do jirau, correram para ajudar os policiais acuados e viram toda equipe de segurança encostada no balcão do bar como não estivesse acontecendo nada. Ao grupo de diretores juntaram-se os irmãos Coutinho, Ivan, Jaime e Olavo e mais quatro policiais que estavam participando do baile. Entraram metendo porradas nos desordeiros e, a partir daí, a adesão aos que queriam manter a ordem foi numerosa e houve mais pancadaria, principalmente da Polícia Militar, que batia com cassetetes de madeira. No clube devia ter 5 mil pessoas. A metade fugiu para a rua, muitas mulheres ficaram desmaiadas pelo chão, sendo socorridas por um técnico em enfermagem de plantão e pelas moças do Departamento Feminino. Depois, elas foram atender os feridos no conflito.
Devagar, os membros da equipe de segurança começaram a entrar no cenário do conflito para fazer crer que participaram da luta, mas os diretores do clube estavam atentos à malandragem deles. Até que João, o chefe da segurança, insinuou que eles também participaram da luta. Rodrigo retrucou asperamente que, durante o conflito, toda a segurança permanecera encostada no balcão do bar até a situação ficar sob controle. João revoltou-se e disse que Rodrigo queria desmoralizar a segurança e, em apoio ao chefe, os membros da equipe fizeram ameaças ao Rodrigo, que respondeu dizendo que a hora de mostrar valentia já passara, pois, no momento mais grave, eles se omitiram e, durante todo o evento, era visível o medo da equipe que agora queria se tornar valente.
Diretores e serventes amontoaram as mesas e cadeiras quebradas e colocaram dentro de barricas os cacos de garrafas e copos. O público retirou-se e o bar, que deveria vender até às seis horas, encerrou suas atividades às quatro horas. Os serventes começaram a varrer e Rodrigo foi para a sala da diretoria. Quando entrou, encontrou o chefe da segurança, João, conversando com o presidente do clube, Mário. Rodrigo percebeu que sua presença interrompeu a conversa. Depois de um silêncio constrangedor o presidente disse ao Rodrigo que o João estava se queixando de que ele o perseguia. Continuando, o presidente disse que estava informando ao João que ele pegava no pé de todo mundo mas não perseguia ninguém. Interrompendo o presidente, João disse que Rodrigo não ia autorizar o pagamento do prêmio à segurança. Mário esclareceu que Rodrigo participava da decisão, mas não decidia sozinho. A seguir, começaram a chegar os diretores de finanças, social, comunicação e patrimônio. O presidente informou ao João que começaria a reunião de diretoria que decidiria a respeito da premiação ou não da segurança. Rodrigo ouviu tudo sem dizer nada e João retirou-se.
Os diretores foram unânimes em afirmar que a equipe de segurança não merecia o prêmio e o contrato que previa o prêmio, no caso de bom desempenho, deveria também prever multa, no caso de mau desempenho. Se a segurança tivesse agido rapidamente, a rebelião teria sido abafada, não haveria mesas, cadeiras e garrafas quebradas e o baile terminaria no horário. Os diretores fecharam a questão em torno da nota zero e prêmio zero. Encerrada a reunião de diretoria o presidente ficou com medo de dar a notícia à segurança, mandou o João entrar e comunicou que a diretoria decidira baixar o prêmio de 20% para 5%. João respondeu que isto era uma merda e que era melhor não dar nada. O presidente disse que 20% era para um trabalho nota dez e que 5% era muito para um trabalho nota zero. E mandou que ele se retirasse.
O presidente ficou remoendo sua raiva diante de tanta insolência até que ouviu acalorada discussão na sala de espera. Ele estava tão saturado que nem se abalou em ir ver o que estava acontecendo. Momentos depois entrou o sargento que comandou o destacamento que serviu o clube durante todos os dias de carnaval, pediu desculpas ao presidente pela acalorada discussão com o pessoal da segurança e disse que, felizmente, nenhum dos seguranças pertencia à Polícia, porque eles seriam a vergonha da corporação. O presidente disse que estava surpreso, pois constava que todos eram da Polícia. O sargento disse que, quando começou o conflito, ele contava com a equipe de seguranças e ela ficou encostada no bar tremendo de medo. Se não fosse a participação dos diretores e de seus amigos, a Polícia ficaria em dificuldades, porque eles eram apenas cinco contra 40 desordeiros. O sargento aproveitou a ocasião para oferecer seus serviços e de seus homens ao clube. O presidente aceitou e convidou-o para a próxima reunião de diretoria para acertar os detalhes
O sargento retirou-se e, a seguir, João entrou pedindo desculpas ao presidente, dizendo que eles pensaram melhor e resolveram aceitar os 5%. O presidente disse que era tarde demais, que ficariam com zero por cento e que já estavam dispensados de prestar serviços ao clube no futuro.

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