A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

Agenor Figueira Rodrigues Filho
Publicações
Perfil
Comente este texto
 
Conto
 
REVELAÇÃO
Por: Agenor Figueira Rodrigues Filho


Agenor fora incorporado ao Exército em principio de janeiro. Quando acabou o duro período de adaptação ele foi designado para trabalhar na tesouraria do batalhão, mas faltava-lhe um requisito importante: tinha que saber escrever a máquina. Precisava encontrar um curso de datilografia que ficasse entre o quartel e o Colégio Piedade, onde ele estudava. Ele encontrou um bem perto, era uma entidade da Igreja Católica, denominada Ciclo Operário que mantinha um curso de datilografia bem localizado, bom e barato.
Agenor estava com boa aparência física, era alto, bastante queimado pelo sol e com uma postura de atleta. Quando entrou na sala de aula, onde só tinha moças, todas pararam os exercícios e ficaram olhando-o; ele cumprimentou a todas. A professora convidou-o a sentar, mas Agenor ajeitou a cadeira dela e fez um gesto cordial com a mão para que ela se sentasse primeiro. Ele sentia que era bem recebido, como um general fazendo visita de inspeção.
Agenor foi com a intenção de fazer a matrícula e começar no dia seguinte, mas as alunas e professora o convenceram de começar naquele dia. De repente, ele percebeu que uma bela moça, Maria de Lourdes, aluna do curso, o olhava com os olhos faiscando o rosto iluminado. Ele sentiu-se encantado por ela. Quando terminou a aula e saiu na intenção de lhe falar, ao chegar na rua, viu que ela tinha namorado, estavam os dois abraçados. Agenor disse para si mesmo: nunca tive uma alegria tão grande e tão rápida...
Estava tão desapontado que não percebeu que uma colega do curso estava tão perto dele quase se encostou a ela. Ele pediu desculpas por não tê-la visto e ela e se apresentou como Cléia que gostaria de conversar com o novo colega. Por falta de assunto perguntou sobre coisas do Exército. Enquanto conversavam, ele observava que e a moça não era bonita e muito menos era feia. Mas tinha muita ternura na maneira de olhar e falar que a tornavam encantadora.
Cléia lembrou que Agenor tinha que ir para o colégio e propôs que eles fossem andando, fez questão de passar bem próximo de Lourdes e a olhou com ar de desdém e Lourdes amarrou a cara.
No dia seguinte, Agenor estava em frente o curso aguardando chegar à hora de começar a aula, chegou a Marly, que era mais conhecida como Lili, que começou a conversar com ele. De repente chegou Lourdes que interrompeu bruscamente a conversa dos dois e passou a se dirigir só ao Agenor, desprezando a presença da Lili. Naquela época estava em moda fazer coleção de caixa de fósforos de propaganda. E o assunto de Lourdes era caixa de fósforos de propaganda. Como Agenor colecionava, Lili ficou de fora. Ela perguntou a Lourdes se é para tratar os outros assim que ela é Filha de Maria. Lourdes, em silêncio demorado, olhou-a de cima para baixo e debaixo para cima e, sem fazer comentários, retornou ao assunto com Agenor. Em seguida chegou o namorado de Lourdes, interrompeu a conversa dela com Agenor puxando-a pelo braço e afastando-a. Lili riu na cara Lourdes e retornou à conversa interrompida. No final da aula Agenor saiu em companhia de Cléia e o namorado de Lourdes a esperava no portão, abraçaram-se, beijaram-se e afastaram-se uns cinco metros do portão. Agenor e Cléia afastaram-se mais ou menos a mesma distância em sentido oposto. Cléia cruzou os braços e os apoiou no peito de Agenor que puxou-a pela cintura para si, os lábios foram se aproximando e quando Cléia já de olhos fechados aguardava o beijo, Lourdes largou o seu namorado e foi falar com Agenor sobre a coleção de caixa de fósforos de propaganda. Jorge se retirou revoltado e Cléia chamou Lourdes de inconveniente.
Ela quis saber por que inconveniente:
− Porque você devia cuidar do seu namorado que já foi embora e não do meu.
− Estão todos malucos, exclamou Lourdes.
− Menos você, concluiu Cléia.
Passado alguns dias Cléia propôs a Agenor em vez dela acompanhá-lo até a esquina,ele a acompanharia até à casa dela. Ela fez questão de ir bem agarradinha com Agenor, quando estava se aproximando de Lourdes e o namorado, ela foi desviando na direção de Lourdes e levando o Agenor e esbarrou com o ombro na Lourdes que perguntou se ela estava cega, Cléia respondeu que estava cega de ódio dela.
Continuaram andando, agarradinhos, bem juntos. De repente, ela falou que estava aguardando a recriminação. Agenor respondeu que estava tão surpreso que ainda não tinha entrado no mérito da questão. Mas certamente que ela teria razão para fazer o que fez. Mas ele não conseguia atinar que razão seria essa. Ela respondeu que a razão é evidente, ele que não queria dizer qual era.
Andaram mais um pouco e ela propôs que eles andassem com o passo certo conforme se faz no quartel. Acertaram os passos e foram andando em uma cadência de namorados. Depois mais algumas passadas, ela que disse que é uma chata, que ele passava o dia no quartel acertando o passo e que em uma hora daquela ela vem com essa chatice. Agenor respondeu que não há comparação em acertar o passo com homens e com ela que é o seu amor. Cléia, respondeu que o amor dele é Lourdes, por isso ela a odeia, que foi a razão que deu o tranco nela, concluindo que é vergonhoso uma moça que é Filha de Maria que tem namorado firme, ficar babando por outro rapaz. O pior de tudo é que você também baba por ela, Agenor quis negar, mas ela não permitiu. Sentaram-se em um muro baixinho em frente a casa dela e ficaram bem juntos em silêncio, de repente começaram a se acariciarem se beijarem.
Cléia levantou-se e disse para Agenor que esse foi último encontro deles, estava convencida que Agenor era da Lourdes, por isso o ódio que Cléia tinha dela. Mas afirmou que Agenor iria sofrer com Lourdes porque se trata de uma pessoa possessiva e ciumenta. Informou que ela iria para S.Paulo fazer companhia ao pai que estava precisando dela. Diante da perplexidade de Agenor, Cléia disse: não fale nada, você sabe que eu falei a verdade.
Sempre que Jorge chegava Agenor e Lourdes estavam conversando. O rapaz não escondia o seu desagrado, mas... para Agenor o problema era deles. O namorado estava realmente saturado, sentia-se humilhado com aquela situação. Nos dias seguintes, os que Cléia deu uma trombada na Lourdes, Agenor viu o casal na porta do curso e Lourdes falou: Agenor, eu vi vocês dois abraçadinhos, ela não perde tempo. Jorge se indignou e perguntou a Lourdes o que ela tem a ver com a vida do Agenor e Cléia. Começaram uma discussão acalorada e Agenor foi passando, deixando o casal brigando.
Depois de alguns dias, Lourdes disse:
– O meu namorado desmanchou comigo por sua causa.
– O que eu fiz para que isto acontecesse?
– Não fez nada, foi o rapaz que achou que eu gosto de você.
– É verdade?
– Você não deveria fazer essa pergunta, principalmente porque você sabe a resposta.
Mudaram o assunto e foram para o pátio da igreja, onde ficaram abraçadinhos, em silêncio em um canto em que quase ninguém os via. Era mês de maio quando começou a ladainha, eles entraram na igreja para rezar e agradecer a Nossa Senhora o fato de terem vencido tantas dificuldades e pedir proteção porque eles intuíam que haveria mais dificuldades. As cerimônias religiosas terminaram tarde, Agenor acompanhou Lourdes até a casa dela e dali resolveu ir a pé para casa, aproximadamente dez quilômetros, mas estava tão feliz que resolveu tomar umas cervejas e depois seguiu lentamente saboreando o seu amor com Lourdes. Quando chegou em casa foi ao quarto de sua mãe e beijou-a, ela perguntou:
− Por que você está cheirando a bebida alcoólica à uma hora dessa?
− Por que eu e Lourdes começamos a namorar.
− E o namorado dela?
− O namorado dela agora sou eu.
− Eu quero saber do ex-namorado.
− Eu quero que ele se dane.
− Em vez de beber, você deveria ter rezado para evitar vingança.
− Eu rezei. Assisti até uma ladainha.
− Bastava ter rezado não tinha nada que beber.
No dia seguinte, quando Agenor já estava pronto para sair, ele despediu-se da mãe com um beijo. Ela disse:
− Você ainda está cheirando a bebida alcoólica. Isso poderá te prejudicar no quartel.
− Mãe, a senhora sentiu o cheiro da bebida porque eu a beijei, no quartel eu não vou beijar ninguém.
Agenor combinou com Lourdes que sempre que estivesse de serviço, em noite de luar, quando fosse nove horas da noite, ele iria para o pátio do quartel contemplar a lua por cinco minutos e que ela faria o mesmo da casa dela. Era na década de cinquenta, uma comunicação via satélite sem imagem e sem som, mas que comunicava muito afeto. Os soldados que tiravam serviço na guarda com o cabo Agenor eram quase sempre os mesmos, eles se escondiam para ver o cabo contemplando a lua e ficavam intrigados. Achavam que o cabo estava ficando maluco.
Uma noite de tempestade com nuvens negras, o cabo Agenor saiu um tanto dissimulado para tentar ver a Lua. Os soldados deram um pequeno tempo e foram espionar. Quando Agenor tentava ver alguma luminosidade através da escuridão caiu um poderoso raio com grande estrondo que apagou a iluminação e em seguida uma forte pancada de chuva. Os soldados correram para dentro do corpo da guarda e Agenor que estava mais distante voltou com dificuldades. Quando ele estava entrando no alojamento a luz acendeu, os soldados espiões estavam tirando as capas molhadas. Ele perguntou por que eles estavam com as capas molhadas e eles perguntaram ao cabo porque a capa dele também estava molhada. O cabo respondeu que estava fazendo a previsão do tempo e que constatou que além da chuva e trovoados o local também estava sujeito a babaquices de soldados curiosos. Eles responderam que também fizeram a previsão do tempo constataram que além de chuvas e trovoadas, o local também estava sujeito a maluquice de um cabo apaixonado. Agenor ficou surpreso e perguntou que conversa é essa de cabo apaixonado? Como vocês sabem disso? Um soldado respondeu: se sabemos é porque você contou para alguém e alguém contou para nós e assim todos ficamos sabendo. Agenor disse que não queria falar mais do assunto e que estava na hora da rendição dos postos. Mandou que cada um pegasse a sua arma e formasse em coluna por um. Saíram marchando debaixo da chuva fina e de vez em quando acendia um relâmpago e roncava um trovão.
Enquanto Agenor procurava a comunicação afetiva via satélite, Lourdes estava debaixo de chuva, no portão de sua casa tentando completar a comunicação, o raio que botou o cabo e os seus soldados para correr, também fez Lourdes correr para dentro da casa escura. Na sala ela trombou com sua mãe. Ela perguntou o que Lourdes fazia no portão numa noite de chuva. Lourdes respondeu:
− A senhora está espionando?
− Não. Mas não estou te entendo. Mas quem entende uma adolescente apaixonada?
− Eu não sou adolescente, eu sou mulher, afirmou Lourdes.
− Você já é mulher! Exclamou a mãe.
− Estou dizendo que já sou adulta. Não é nada disso que a senhora está pensando.
− Ainda bem...
Vinham ocorrendo conflitos entre os soldados da guarda e os desordeiros do bairro. Aguardava-se mais um confronto para a próxima madrugada. Ao fazer a checagem dos sistemas de alarme constatou-se que o sistema entre o portão das armas e o corpo da guarda não estava funcionado. O sargento mandou que o cabo Agenor colocasse sua cama na portaria bem junto ao portão social e recomendou que ele instruísse as sentinelas para que qualquer emergência batesse com a coronha do mosquetão na chapa do portão.
Na madrugada chuvosa, a sentinela bateu com a coronha na chapa do portão, Agenor pulou e viu duas mulheres atrás da sentinela que as protegia com a baioneta de dois elementos, outros quatros acompanhavam de perto, mas sem atacar, de repente um conseguiu segurar a arma, Agenor disparou um tiro contra o desordeiro e não acertou, mas o agressor largou arma e pulou para trás, Agenor se aproximou, com os passos largos e rápidos ia disparar a segunda vez, quando a imagem de Lourdes, como um relâmpago, passou na sua frente. Imediatamente, uma luz forte sobre os seus olhos. Era o jipe do Exército, dele desceram um capitão e um sargento, ambos empunhando pistolas. E os soldados da guarda portando mosquetões vieram em apoio aos companheiros. Os inimigos fugiram como por encanto.
No dia seguinte Agenor, se sentido herói, contou para Lourdes o episódio da madrugada. Em principio ela ficou sensibilizada de ser lembrada em um momento grave, mas depois começou a ficar preocupada com as duas moças. Ela achava que as vagabundas voltariam para recompensar os dois heróis a moda delas. Agenor a recriminou, dizendo que ela estava pecando em condenar pessoas que nem conhece e que não há possibilidade delas nos encontrarem. Em primeiro lugar, naquela área havia vários quartéis, o serviço de guarda era feito por escala, elas não saberiam quando voltarei à guarda. Lourdes disse que elas sabem o portão que os soldados saem, se elas aparecerem, você vai com o sorriso de uma orelha a outra e braços abertos. Vamos encerrar está conversa para evitar o aborrecimento. Eu não as reconheceria porque o momento foi tenso e elas não me reconheceriam porque a rua é mal iluminada, a madrugada estava fria e chuvosa. Quando o tempo está chuvoso nós levantamos a gola da capa e a colocamos por debaixo do capacete, dos nossos rostos aparecm só um pedaço. Lourdes exclamou: Isso que você está falando até parece letra de tango: prostitutas, meia-luz e soldados encapuzados.
Agenor irritado disse que Lourdes não estava falando como uma cristã, um cristão nunca pode condenar outro e muito menos pessoas que ele nunca viu. E pediu para encerrar esse assunto porque ele agiu com correção e não poderemos nos desgastar por causa de hipóteses sem fundamentos e ciumentas. Nunca mais se falou nesse assunto porque Agenor já estava perdendo a paciência e também havia outra situação que preocupava muito: o Brasil estava à beira de uma guerra civil. A Marinha, a Aeronáutica e parte do Exército não queriam que o presidente eleito Juscelino tomasse posse e a maior parte do Exército era favorável à posse. Um dia um importante líder militar golpista declarou em discurso que os eleitos não tomariam posse. Esse pronunciamento deflagrou greve dos ferroviários e rodoviários e muitos carros de som se espalharam pela cidade protestando contra o pronunciamento do militare.
Devido à greve dos meios de transportes os alunos do Colégio Piedade resolveram suspender as aulas por que teriam de ir para casa a pé. Quando Agenor atravessou a passarela encontrou a Lili e ficou admirado dela ainda está na rua àquela hora, pois estava longe de casa. Ela disse que não tinha condução para ir para casa e morava longe e passava por lugares perigosos. Agenor se ofereceu para acompanhá-la até em casa.
Ela pegou a mão de Agenor e a colocou no seu ombro colocou sua mão esquerda na cintura dele. Quando chegaram no ponto do ônibus estava Lourdes com seus pais, sua irmã e um casal que ele não conhecia. Agenor viu a surpresa e a revolta no rosto de Lourdes, mas seguiu, lado a lado, uma longa distância em silêncio. Chegaram em frente à casa dela, Lili exclamou o que eu fiz! Agenor que ainda não sabia que era armação dela respondeu, Você não fez sozinha, eu também fiz.
No dia seguinte, quando Agenor estava fazendo os seus exercícios de datilografia, Lourdes entrou na sala anunciando que fora pedida em casamento. Todos ficaram surpresos. Ela disse que estava muito feliz porque seus pais faziam muito gosto e, enfim, embora Agenor não acreditasse muito naquela história e nenhuma das colegas acreditou na versão pois todos já sabiam o que ocorrera na noite anterior.
Dias depois ele entrou de serviço na guarda e a crise política militar chegou ao auge com a demissão do Ministro da Guerra que defendia a posse dos eleitos. De repente, quando Agenor conduzia os soldados para a rendição dos postos, um estranho paisano, trajando vestimentas que pareciam árabes, entrou na frente dos soldados que marchavam e disse:
− Vocês estão perdidos! O sangue de vocês vai rolar pela sarjeta e cair no ralo. O Exército está revoltado com a demissão do seu ministro. Vocês vão morrer por culpa dos políticos e generais...
Já eram vinte e duas horas e a partir daí os oficiais começaram a chegar no quartel. Na manhã do dia seguinte, a cidade tremeu com muitos tiros de canhão Os boatos começaram a circular no quartel, diziam que começou o combate entre a Marinha e o Exército. Mais tarde ficou esclarecido que não houve combate, apenas a Marinha tentou sair para o mar aberto, as fortalezas do Exército dispararam os canhões na direção do mar dando vinte e cinco tiros de advertência. A Marinha constatou que seria impossível, enfrentar as fortalezas porque elas atiravam do continente para o mar, e os navios atirariam do mar para o continente e os prováveis erros nos tiros atingiriam a população civil.
Agenor passou estes dias todos roendo o seu remorso e o seu ciúme. Como era ocasião de provas nos colégios os soldados estudantes tiveram licença para ir ao colégio fazer as provas e retornar para o quartel. O comando informou que todos deveriam ir para casa vestir o traje civil e quando retornassem da provas retornariam ao quartel fardados. E esclareceu ainda que havia muita conspiração e que os soldados poderiam ser seqüestrados e incorporados à forças inimigas
Ele foi direto para o curso de datilografia e quando começou a subir as escadas Lourdes vinha descendo. Ela estava muito bonita, com um vestido azul, se abraçaram, voltaram de mãos dadas e ela disse que tinha rezado muito por ele. Acompanhou-a até a rua e Lourdes o apresentou a sua mãe, Dona Aurora, que disse:
− Só faltava conhecê-lo pessoalmente pois a Lourdes fala tanto de você que eu já o conheço. Lourdes a recriminou pelo comentário. Ele disse a Lourdes para não se aborrecer porque a mãe dele também só faltava conhecê-la pessoalmente porque ele também falava muito nela em casa. D. Aurora concluiu pelo fato de Agenor esta à paisana seria sinal que a situação já estaria resolvida. Agenor disse que não. Eles estavam à paisana porque o alto comando ainda não tinha o controle pleno da situação e que ainda havia conspirações e os soldados que estavam na rua poderiam ser seqüestrados e incorporados à tropa inimiga. A seguir ela disse a Agenor que ela sabia, pela Lourdes, que ele estava conspirando contra o governo. Como que fica a sua situação agora?
Lourdes reclamou do fato dela revelar que Agenor era conspirador. Agenor pediu a Lourdes para ficar calma porque a preocupação da mãe dela é uma prova de amizade. Ele informou que pretendeu conspirar mas os oficiais não o aceitaram no grupo.
Dona Aurora voltou a perguntar: Você acha que ainda há perigo de combate?
− Numa situação dessa correm tantos boatos que o combate é de mentiras e desmentidos. O alto comando, que diz que tem o controle da situação, mas não está tão seguro quanto diz. Se estivesse seguro, não tomaria as precauções que está tomando, como, por exemplo, não nos deixar andar fardados na rua.
− Você tem medo?
− Por enquanto não. A guerra civil ainda é uma hipótese possível, porém improvável; quando ela se tornar provável talvez eu sinta medo.
− Pelo o que aconteceu até agora e você não teve medo, eu acho que não terá medo nunca.
Agenor foi para casa e dormiu, a família não sabia que ele tinha que retornar ao quartel, mas o pai dele, que trabalhava à noite no táxi, quando percebeu de madrugada movimento de tropas da Vila Militar para o centro resolveu ir para casa mais cedo e acordou Agenor que levantou assustado. Naquela hora só havia uma condução, o trem de Inhaúma. Quando Agenor estava pronto para sair a mãe, em lágrimas, pediu-lhe para não ir para o quartel e ele respondeu que ir é ruim e não ir seria pior.
Esse trem passava de hora em hora e Agenor estava ansioso para chegar ao quartel. Quando passou pela estação de Inhaúma havia um trem parado e todo escuro. Parecia que não ia seguir viagem, mas o funcionário da estação informou que dentro de um minuto ele partiria. Agenor embarcou e antes de sentar a composição já estava em movimento, ele era o único passageiro do trem apagado, a única luz acessa era a do farol máquina.
Quando ele desceu na estação encontrou com uma patrulha do seu batalhão, os patrulheiros ficaram admirados dele já está chegando àquela hora. Ele explicou que descuidou e dormiu. Todos concordaram que a rotina do quartel estava muito cansativa. Quando ele chegou no alojamento, antes dele deitar, tocou alvorada.
Ele pensava que tinha reconciliado com Lourdes, mas um dia, ela conversando com um grupo com Agenor presente, se referiu ao suposto namorado, causando constrangimento em todos, menos a ela que não se deu conta do que falara. Embora soubesse que a versão não era verdadeira, ele considerou grave a afronta, se irritou com isso e afastou-se do convívio da comunidade por uns cinco anos. Lourdes nunca entendeu o afastamento do namorado.
Quando retornou, informaram a Agenor que, agora sim, a Lourdes estava noiva e com o casamento marcado para poucos dias. Informaram que haveria eleições para direção de nossa comunidade dentro um mês.
Na semana das eleições, ele foi na comunidade e o informaram de que Maria de Lourdes rompera o noivado na semana do casamento porque o noivo lhe confessara que tinha dois filhos, que casaria com ela mas continuaria dando assistência à mulher e aos filhos. Ela mandou que ele fosse dar assistência à mulher e aos filhos, mas casar com ela, não.
Viu-a pela última vez no dia das eleições da comunidade. Estava magra, envelhecida e arrasada. Ele tentou dirigir-se a ela mas sentiu uma emoção muito forte e não conseguiu se aproximar. Lourdes percebeu que ele ia se dirigir a ela e se afastou. Ela comentou com amigos comuns que não tinha condições emocionais para falar com Agenor. Pouco tempo depois ela e a família foram para o Paraná e lá se casou, mas não foi feliz. Agenor casou e foi feliz. Lembrou-se da profecia de Cléia que disse que o seu amor com Lourdes o faria sofrer muito, mas que ele casaria com outra e seria feliz. A profecia de Cléia consumou-se.
Ele nunca mais a viu e nem a esqueceu, ficou com um sentimento de culpa pelo que fez e uma mágoa pela atitude precipitada e inflexível que ela tomou.
Passaram-se muitos anos, vinte ou trinta, e a mágoa e o sentimento de culpa não passaram. Uma noite, que Agenor estava em uma crise depressiva saiu de sua cama foi para a sala, abriu as janelas para respirar melhor, deitou-se no sofá. Sentiu a presença de Lourdes na sala. Sem vê-la e sem ouvi-la recebeu a seguinte mensagem:
− Eu sabia que nos encontraríamos.
− Agenor respondeu que também sabia que nós nos encontraríamos. Ele não chegou a falar nas desavenças que os separaram, ela se antecipou e disse:
− Não fale disso, o que houve entre nós foi muito bonito, foi muito puro, foi uma fantasia, foi uma magia. Não me fale de outra coisa a não ser sobre o que houve de belo entre nós dois.
A imagem dissipou-se e o sonho acabou e a partir daí Agenor passou a ver aquele período como um dos mais belos da sua vida.
Agenor consultou um Guru a respeito, ele disse que Maria de Lourdes estava doente e próximo de fazer a passagem e quando fizesse, ela lhe avisaria. Algum tempo depois ele sentiu as mãos de Maria de Lourdes acariciando a sua face e transmitiu-lhe como que fosse via telepática à palavra: Adeus.
Trinta anos depois, Agenor recebeu, através de uma entidade, uma mensagem de Lourdes que mandava que ele cuidasse de sua saúde, Ele um fez “check-up” médico e foi diagnosticado que ele tinha câncer de pele no couro cabeludo, excesso de sangue e tiróide. Os diagnósticos foram precoces e com facilidade essas doenças, ainda incipientes foram erradicadas.

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: eTAZ (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.