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Conto
 
A Vida pacata de Santa Luzia - II
Por: Antonio Jorge Moura

Antes do Campo das Pedreiras Green jogava virô, cabeçeô, fazia pontinho e treinava "embauixadas" com irmãos, amigos e primos no pátio de casa. Jogar futebol no campo representou ampliação de perspectivas de adolescente cujo universo não ia além dos muros da casa paterna. Aprendeu logo na chegada que, se levasse a bola, já teria vaga garantida no baba. Era um privilégio do dono da bola. Se fosse disputar espaço teria que se destacar pela qualidade do futebol.
Estava detrás da trave assistindo um baba no campo quando assistiu ao lançamento da bola de couro para Sabino, um guarda ferroviário que trabalhava na Estação da Calçada, negão de quase dois metros, boêmio que freqüentava a Boate Cloc - Avenida de Contorno, defronte da atual Marina, numa casa de esquina de frente para Ladeira dos Aflitos -, tipo centroavante raçudo. A bola foi lançada pelo meio, Sabino pegou velocidade atrás da redonda e quando a alcançou fez carga para emendar a pelota de batepronto.
Thou era zagueiro tipo clássico, de toque de bola. Correu na diagonal para cortar a bola lançada para Sabino. Quando os dois chegaram juntos na bola Thou esticou a perna direita para imprensar a pelota que Sabino, na carreira, já estava chutando. O estrondo foi ouvido na trave do outro lado do campo. A bola saiu "penicando" e escorreu pela linha de fundo. Sabino rolou pela terra e levantou sacudindo o corpo. Tgou ficou estirado. Minutos depois assistentes e jogadores já estavam em torno dele, que se queixou: "Não estou sentindo minhas pernas".
A turma fez a tradicional flexão das pernas esperando que ele reagisse e nada. Então, o colocaram no ombro e levaram carregado aos Fiaes para transportá-lo de carro até o Pronto Socorro, no bairro do Canela. Passaram antes na Farmácia de Seo Dias que confirmou a necessidade de levá-lo para atendimento medico. Foi fatal: Thou tivera fratura da coluna e com o "socorro" que recebeu houve estrangulamento da medula. Quando voltou para casa estava numa cadeira de rodas. E assim ficou até os últimos dias de vida, sem deixar de assistir aos babas e os jogos nas Pedreiras. E estava presente em todas as festas de largo do ciclo popular de Salvador, empurrado em sua cadeira pelos amigos da Baixa do Cacau, em Santa Luzia.
Seo Dias era farmacêutico e dono da única farmácia do bairro, que "receitava" os doentes e fazia as vezes de médico na falta de consulta ou de um profissional da medicina. Somente quando os filhos de Seo Laert, o dono da sorveteria, ingressaram na Faculdade de Medicina, os moradores de Santa Luzia passaram a se socorrer com Vera e Laertinho. O medicamento era aviado por eles, Seo Dias ficava mais tranqüilo.
Quando um jogador se ralava nas pedras do campo das Pedreiras lavava o ferimento com água ou pedia a Seo Dias para fazer o curativo. O farmacêutico também aplicava injeções depois de ferver previamente a seringa, num tempo em que não havia ainda o fantasma do vírus HIV. Defronte da farmácia, todos os domingos, Dona Mussinha armava o tabuleiro para vender Bolinho de Estudante, Doce de Tamarindo e Cocada Puxa. Essas eram as sobremesas dominicais das famílias residentes em Santa Luzia.
No bairro só passavam os trens, do subúrbio, de carga e de passageiros para o interior da Bahia e para outros estados. Tudo que existe dos dois lados da Avenida Suburbana entre a Baixa do Fiscal e o Lobato era maré. Onde hoje está a igreja inaugurada pelo Papa João Paulo II em sua primeira visita à Bahia, um pedaço de terra incorporado ao bairro do Uruguai, era a Ilha de Santa Luzia, cheia de mangueiras de deliciosas mangas, ponto de partida obrigatório para quem saía de Santa Luzia pilotando uma canoa a remo em direção à Ribeira.
Após o armistício que encerrou a II Guerra Mundial algumas sucatas de navio foram encalhadas na maré do lado de Santa Luzia. E se tornaram viveiros de peixe, onde a gurizada pescava e levava alguma moqueca para casa. Eram carapicus, carapebas, baiacus e peixe espada. Quem tinha gererê e paciência pescava muitos siris, inclusive uma espécie chamada "siri buceta".
Entre a ilha e o Lobato formava-se um imenso banco de mariscos onde se catava sururu, maria preta, lambreta e outras espécies. O banco de mariscos foi envenenado pelo mercúrio lançado no mar pela Companhia Química do Recôncavo (CQR) e teve que ser coberto por cascalho retirado por uma draga do fundo do mar da Enseada dos Tainheiros e o espaço virou o superpopuloso bairro Joanes.
Ponto de ônibus só existia no abrigo do Largo do Tanque. Na verdade se chamavam marinete e tinham as lotações, de preço especial e que só admitiam passageiro sentado. Quem tomava conta e organizava a fila interminável de passageiros para entrar na condução era a Guarda Civil fardada. E o guarda mais conhecido e costumeiro era chamado pelo apelido de Bola Sete - uma referência às cores das bolas do jogo de bilhar -, de tão negão que parecia azul. Quando a fila crescia muito e havia invasão no ônibus, os passageiros gritavam:"olha a fila, Bola Sete". O negão não gostava do apelido, ficava retado!
De vez em quando se abriam as celas do Hospital Psiquátrico Juliano Moreira e o bairro se enchia de malucos locais, a maioria malucos beleza. Aparecia Tira-Gosto, Maria Pára o Bonde e Malaquias. Tira-Gosto se orgulhava de ser aposentado da Previdência, dizia que obtivera a aposentadoria porque era maluco. Se vangloriava também de poder fazer arruaça e não ser preso pela confusão porque tinha "carteira de maluco". Dona Maria quando se colocava na frente do bonde o motorneiro tinha que parar para ela entrar. Dizia-se que ela era maluca para parar o bonde mas não era maluca de ficar na frente do trem.
No Cinema São Caetano as sessões dominicais de dois filmes começava as 14 hs e terminava às 17:30hs. Mas a garotada e adolescentes começavam a se reunir nas escadarias da entrada do cine antes das duas bilheterias abrirem. A sessão externa era para trocar revistas de quadrinho. Zezinho, Bolinha e Luluizinha, Durango Kid, Pateta, Pato Donald, Mickey, Zorro e as revistas de terror eram as preferidas.
Quem localizava uma revista que ainda não tinha lido trocava por outra. Trocava no pau, não havia troco. Depois que os cinéfilos entravam, as luzes da sala de projeção eram apagadas, passava o jornal, se enxotava o abutre da Metro, o paquera sentava-se ao lado da paquerada e corria a mão pelo ombro dela. Se deixasse a mão-boba no ombro, começava o namoro. O filme era relatado depois com base nas ilustrações da propaganda.
Não havia água encanada da Embasa. As casas mais organizadas tinham fonte e motor para puxar o líquido até o tanque para abastecer a casa. Quando faltava água de gasto a bomba de sucção era ligada à energia elétrica. Mas a água para beber tinha que ser abastecida nas fontes limpas, sem poluição, como a Fonte de Dona Josefa. O líquido que enchiam as latas eram carregadas na cabeça e depositada em filtros ou fervidos antes de beber. Nas casas mais modestas não havia sequer banheiro e o banho era tomado no Banheiro de Seo Antonio ou no Banheiro de João. Sabonete era luxo. O banho era com "sabão azul", especial.
As manhãs de domingo eram dedicadas à missa na Igreja Católica. Participava-se da cerimônia religiosa na Escola Coração de Jesus, na Igreja dos Mares, na Lapinha ou na capela do Abrigo do Povo, no Liberdade. Depois da missa era o dia solto para empinar arraia ou, como se diz hoje, soltar pipa. Tinha arraia na Vista Maré, no Alto do Arranha Céu e na Baixa do Cacau. Quem tinha melhor tempero de cola e vidro moído cortava maior número de arraias. A brincadeira só terminava ao anoitecer, quando era hora de tomar banho, jantar e cair na cama. Porque segunda-feira é sempre dia de branco!
Antonio Jorge Moura

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 06/07/2009

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