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Ivani de Araujo Medina
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Uma visão pessoal do atísmo
Por: Ivani de Araujo Medina


Este texto é dedicado a minha amiga virtual, Antonia, pela curiosa observação que me fez, ao sentir-se na dúvida se eu seria ateu ou não. Agradeço muito a ela pela oportunidade de comentar especificamente o assunto.

Há quem considere a não crença em deus ou deuses como algo infantil. Em especial a sua militância. A justificativa seria a de que o Homem sempre acreditou em divindades e também a filosofia se ocupa dessa especulação. Todavia, o Homem acreditou em muitas coisas que ficaram para trás e a filosofia também cometeu enganos no campo da ciência, onde, também, procuram justificar a crença em deus.

Assisti a um vídeo (não é o postado aqui) no qual um pastor protestante muito inteligente e bem expressado deu a seguinte explicação à pergunta do apresentador: “Qual a diferença entre o crente, o ateu e o agnóstico?” Respondeu o pastor que o ateu é o contrário do crente e o agnóstico é aquele que admite desconhecer a resposta certa na discussão se deus existe ou não. Portanto, seria a posição intelectualmente mais honesta.

Não por considerar essa posição a mais honesta, eu evito entrar nessa discussão. Porque, como respondeu posteriormente e bem, o entrevistado, isto não passa de uma disputa para ver quem é o mais inteligente. Um joguinho de vaidades pouco produtivo e é só para quem gosta. Eu não gosto.

Há também um tipo de generalização, com o qual eu não concordo, de que “quem crê em deus é ignorante”. Penso que o sucesso dessa crença diz muito por si mesmo e, por outro lado, justifica parcialmente tal pensamento equivocado, justamente por se valer tanto da ignorância em seu progresso. Entretanto, a minha experiência pessoal não confirma a asserção como absoluta. Conheço crentes com inteligência, conhecimentos e seriedade muito acima da média. A coisa não é tão simples como gostaríamos que fosse quando se refere ao ser humano. Na minha adolescência fui inclinado a especulações querendo entender melhor o universo. Porém as ciências exatas não estavam ao meu alcance e a falta de apoio relevante acabou-me voltando para as questões mais terrenas, nas quais deus aparecia como todas as respostas. Comecei a estudar a origem mundana do cristianismo por me ser mais “palpável” do que o cosmos. Atraía-me conhecer os motivos do surgimento da crença cristã pela sua estranheza para mim. Estudei num colégio protestante de origem norte-americana onde se esforçavam inutilmente para a minha conversão. Entretanto, nunca duvidei da sinceridade estampada nos olhos daqueles religiosos. Havia algo que estava tão distante quanto às estrelas da compreensão daquele menino que eu fui.

Ainda que existam outras concepções do divino, a nossa referência de deus é a bíblia. Não adianta apelar para os tempos que antecedem a nossa formação, ou para outras culturas para entender o crente, o ateu e o agnóstico. Ateu é aquele que não crê em deus ou em deuses (Houaiss). Não há desonestidade intelectual alguma nisso. Apenas uma questão de juízo. Agora, ateu como aquele que “nega a existência de deus ou deuses”, é uma pegadinha retorica daqueles que afirmam o contrário.

Atualmente lemos e ouvimos absurdos tais como “crença ateísta”, “religião ateia”, “fé ateia”, “ateu fanático”, “fundamentalista ateu”, “a ciência é o deus do ateísmo” e outras bizarrices produzidas pela retórica religiosa extraídas do próprio contexto, talvez como uma resposta a grande evasão de crentes das igrejas, na tentativa de igualar valores desiguais para melhor combate-los. A ideia é rechaçar os ateus em bloco por intermédio de falácias. Quer-se fazer do ateísmo uma instituição. Não é, mas querem que pareça assim. O pior é que muitos ateus ingênuos mordem a isca.

O ateísmo sempre existiu. O que não existia era a possibilidade de os ateus se unirem em rede, trocarem ideias e criticarem a própria cultura. Como um movimento, o ateísmo surgiu na Europa e de lá se irradiou, como o cristianismo. Iniciou-se com poucas pessoas e aos poucos foi se multiplicando e continua assim. Contra argumenta-se que o ateísmo não é nada porque não defende ou propõe preceitos morais. Não mesmo. É apenas uma expressão de juízo que não beneficia a cultura vigente, o que resulta no temor da sua propagação e na demonização dos seus adeptos.

Sou ateu porque não acredito no deus de Israel, o deus da bíblia. Para mim é o deus do comportamento. Então eu admitiria outra possibilidade fora esta? Não tenho motivos para isso. Quando se defende deus, defende-se a bíblia, na verdade. Pois é lá que ele existe realmente. Não temos conhecimento da sua existência em outro lugar, senão lá ou na mente dos crentes e nada há de intelectualmente desonesto nesta afirmação.

Então, porque seria imaturo não acreditar nesse deus? Vejamos então em duas apreciações resumidas a passagem que escolhi como ilustração para expor a minha não crença: “Gn 32, 24 Jacó porém ficou só; e lutou com ele um varão, até que a alva subia [amanhecia]. 25 E vendo [deus] que não prevalecia contra ele, tocou a juntura da sua coxa, e se deslocou a juntura da coxa de Jacó, lutando com ele. 26 E disse: Deixa-me ir, porque já porque já a alva subiu. Porém ele [Jacó] disse: Não te deixarei ir, se me não abençoares. 27 E disse-lhe: Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó. 28 Então disse [deus]: Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel: pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevalecestes. 29 E Jacó lhe perguntou, e disse: Dá-me, peço-te, a saber o teu nome? E abençoou-o ali. 30 E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: tendo visto a Deus face a face, a minha alma foi salva. 31 E saiu-lhe o sol, quando passou a Peniel; e manquejava da sua coxa.” Israel significa “aquele que lutou com deus” e não com um anjo, como diz a tradução. O texto é claro e altamente embaraçoso.

Como? O onipotente, onisciente e onipresente deus, com “dê” maiúsculo, criador do universo e de todas as coisas desceu a Terra para passar por vexame desses? “Ah, mas a bíblia não deve ser entendida ao pé da letra, é metafórica”. Mas o que suas metáforas significam precisa ser explicado e as dificuldades começam aí, pois esse deus é inconsistente demais como personagem literal para ser crível. Precisa ser superado pela interpretação do texto.

Claro que o deus de Israel está de carona no sucesso da disciplina propagada pela bíblia. Ele é apenas um símbolo que ficou como resíduo de uma história mal contada. Sabemos que os antigos povos mesopotâmicos eram politeístas e inicialmente os hebreus não escapavam a regra. Daí “façamos o homem a nossa imagem”.

"A literatura da Mesopotâmia, assim como a sua religião e o seus direito, contaminaram também todo o mundo ocidental. Temas que figuram nos capítulos iniciais do Gênesis – a Criação, o Paraíso, o Dilúvio, a rivalidade de Caim e Abel, e a Torre de Babel – todos têm antecedentes literários na Mesopotâmia. No livro dos Salmos, muitos dentre eles lembram hinos do culto mesopotâmico, e o Livro das Lamentações copia um dos motes literários mais cultivados pelos escritores mesopotâmicos – na Suméria era comum se comporem lamentações formais sobre a destruição de uma cidade. Nas coleções sumerianas de brocardos, máximas e adágios, há também antecedentes estilísticos para o Livro dos Provérbios. Mesmo ao Cântico dos Cânticos, de Salomão, o livro diferente de qualquer outros do Velho Testamento pode ser atribuído um precedente da Mesopotâmia, com os cantos de amor do culto sumeriano". (KRAMER, 1969, p. 169)

Mas o sentido figurado dessas histórias estranhas pode ter muitas interpretações que variam de acordo com a intenção de quem as faz. Por exemplo: quando entramos numa experiência difícil e a superamos, saímos dela outra pessoa, como Jacó saiu Israel. A luta mais dura que se pode travar é consigo mesmo. Frente a frente com o maior adversário que nos conhece melhor do que ninguém transformações são inevitáveis. Não podemos enganá-lo e não há alternativa senão superá-lo, de fato, nessa luta. É o que garante os gnósticos, aqueles que alegam ter visto a si mesmos como são de verdade.

Quantos já passaram por essa experiência desde que o mundo é mundo? Não faço ideia, mas uma noçãozinha disso muitos de nós já teve. Esse conceito nada tem a ver com época. É intrínseco da condição humana e vem da Mesopotâmia. As histórias da bíblia vêm de lá. Assim pode ser interpretada toda a bíblia e esse diálogo profundo faz dela “a palavra de deus”. Os gnósticos diziam que o encontro com deus, é o encontro consigo e que não é nada fácil. As ortodoxias vencedoras (judaica, cristã e islâmica) são literalistas e sempre zelaram por fazer desaparecer ou neutralizar de alguma forma os que tentam levantar esse véu.

“Há muitas coisas verdadeiras das quais não há utilidade para a multidão vulgar conhecer; e por outro lado, certas coisas que, embora sejam falsas, há conveniência em que as pessoas acreditem”. (Santo Agostinho, Cidade de Deus)

A ideia de que o homem precisa ser enganado para reagir positivamente prevalece. A questão é: positivamente para quem? Voltando a questão inicial: seria imaturo não acreditar em deus? Não. Ficar boiando na superfície do texto bíblico sem arriscar um mergulho, sim. No entanto, é o que mais acontece por pura vilania daqueles que se insinuam condutores do rebanho humano, o que não é novidade alguma desde a Antiguidade. Não há interesse verdadeiro em se promover a emancipação humana. Perpetuar a escravidão mental baseada numa crença idiota é lucro na certa. Seja econômico-financeiro, político, prestígio social, cultural ou lá o que for. Mas na verdade é tudo junto, pois muitos se aproveitam.

O ateu não pode ser bem visto nessas condições, evidentemente. Muitos crentes, antes insatisfeitos com suas vidas, buscaram abrigo na disciplina da bíblia e agora se sentem satisfeitos assim. Sentem-se mal diante da existência daquele que, supostamente, vai lembra-lo dos tempos difíceis sem deus. Como se o ateu, mesmo que não tenha passado por caminhos semelhantes ao dele, representasse a própria dissolução humana por estar sem deus, como ele esteve um dia. Na cabeça desse crente é a divindade que promove sua conquista e não o seu esforço inconsciente. Para ele a razão não faz efeito, é uma agressão.

O ateísmo militante faz parte de um processo de transformação da nossa cultura estagnada nos interesses da ortodoxia. Ortodoxia significa conformidade absoluta com certo padrão, norma ou dogma. Interpretação de uma doutrina ou sistema teológico implantado como único e verdadeiro. Deus é o seu principal tabu.

https://www.youtube.com/watch?v=6a190tb9DNE


Referências
KRAMER, Samuel Noah, Mesopotâmia – O berço da Civilização. Rio de Janeiro, José Olímpio Editora, 1969.

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