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Crônica
 
MARSHAL
Por: Paulo Elias



Esta é a história de um homem, que teve em seus setenta anos de vida tudo que se pode ter para se dizer que viveu intensamente.
Seu nome era Marshal!
Viu-se órfão logo cedo, aos quatro anos, o colocaram em um orfanato m as logo depois foi adotado por uma rica família. Desfrutou dos prazeres infantis que a nobreza proporciona, porém foi um privilégio que durou pouco, apenas cinco anos, e foi abandonado na rua à própria sorte. Sobreviveu a essa mudança brusca em seu padrão de vida, e daí por diante foi uma sucessão de altos e baixos em sua carreira que aos vinte anos já conhecia de tudo um pouco. Das luxúrias que só o poder do dinheiro traz, as penúrias de dias vazios e famintos que a miséria representa. Casou-se cedo, e os filhos e esposa logo lhe preencheram o vazio da alma que os pais deixaram ao falecerem.
Se havia algo que o tirava do sério quando perguntado esse assunto era a religião. Aprendeu um pouco de todas, achava fascinante a história de Jesus, entretanto a dura realidade vivida em seu dia a dia o tornou um ateu convicto. Não conseguia conceber a existência de alguém tão poderoso quanto Deus, se existia crianças morrendo de fome em tantos lugares, injustiças de todos os tipos abundando o planeta como uma doença contagiosa. Era tão cético para a religião que direcionava suas preces para a natureza. Essa sim para ele era real e justa, benévola e fecunda. A mãe natureza, como a chamava, cuidava das criaturas, proporcionava calor e frio no tempo certo, zelava por este gigantesco eco sistema sem nada exigir em troca. Não pedia devoção nem adoração,como uma mãe de verdade cuidava e protegia seus filhos em silencio, resignada! Marshal a amava!
E foi com essa filosofia que envelheceu. Teus filhos já criados e independentes lhe tiraram o fardo da responsabilidade paterna, vivendo sua próprias vidas pessoais. Neste período começou a perceber o quanto sua saúde estava precária..Dores nas costas e no peito o levaram a um diagnóstico médico estarrecedor: Um câncer o destruía aos poucos por dentro restando-lhe poucos dias de vida. Ao contrario do que muitos pensavam, esta noticia não o deixou abalado. Sentia que tivera uma vida plena e sem arrependimentos. Amou e odiou, sorriu e chorou, avareza e generosidade foram dosadas em pitadas certas na sua vida; errou e acertou como qualquer humano e estava pronto para aceitar seu destino. Teus parentes e amigos imploraram para que aderisse a uma religião e aceitasse Deus no coração para uma transição tranqüila, porém ele tinha outros planos. Entregaria teu corpo à mãe natureza para que esta o incluísse no processo natural da criação. Morreria nas entranhas
da maior floresta do planeta para reverenciar aquela quem realmente dava e tirava vidas.
Partiu um dia ao acaso, sem despedir-se de ninguém, pois poderia ser convencido a não ir. Viajou vários dias até a floresta Amazônica e adentrou a mata sem nada levar consigo, a não ser a roupa que vestia. Perambulou por trilhas e rios até ter certeza de estava realmente perdido. Em sua primeira noite na mata sentiu uma ponta de arrependimento, mas superou logo e foi com muita fome, frio e terríveis dores no corpo, que perdeu os sentidos sob uma enorme árvore que cobria toda mata a sua volta com um manto negro!

Acordou, não sabia depois de quanto tempo, com barulho de chuva. Com os olhos entreabertos podia ver as gotas escorrendo por entre os galhos das plantas e alcançando o solo já encharcado. Estranhou não estar sentindo a água fria. Rolou para o lado e deu um salto horrorizado, levantando-se em seguida para ver que seu corpo continuava ali, entre os galhos e a lama. Folhas amarelada cobria-o como uma mortalha, e não pode conter um grito de espanto ao ver pequenas larvas entrando e saindo da boca semi aberta. Compreendeu que estava morto e já a beira do desespero ouviu alguém dizer:
"Não se preocupe. Aquilo que se alimentava de você agora é alimento de outros seres."
Virou-se rapidamente e ali sentado em um galho de árvore, estava uma criatura inusitada. Parecia o deus Pan, da mitologia que habitava as florestas. Pequenino, com orelhas pontudas o pequeno ser parecia divertir-se as suas custas. Com agilidade, pulou do galho em que estava e caminhou até o corpo estendido. Apontou para as larvas que saiam da boca:
"Eu falo disto, veja! O câncer que destruía você por dentro, agora é alimento para essas larvas. Estão te curando, percebe?"
"Ora, que ridículo!", respondeu Marshal. "Como podem curar alguém que está morto? Não vê que é um cadáver?"
"Oh, não, não! Você não está morto, apenas profundamente adormecido aos cuidados da selva!"
Agora tudo parecia fazer sentido para ele. A mãe natureza realmente tinha uma consciência e mandara ali o próprio deus Pan para confortá-lo neste momento difícil. Resolveu confirmar com o pequenino: "Você é Pan?"
A criatura deu uma sonora gargalhada e num rápido salto sentou-se de frente para o confuso homem olhando-o nos olhos. A única peça de roupa que usava, era uma minúscula tanga da cor da sua pele amarelada, dando a impressão de que estava nu.
"Essa é boa! Já me chamaram de tantos nomes estranhos mas nunca de deus Pan. Não meu amigo, eu não sou essa figura mitológica que está imaginando. Eu sou Deus!"
O homem teve vontade de rir, mas conteve-se.
"Bom. Se vai tentar me convencer a acreditar nisso, desista. Estou certo de que não existe Deus, ainda mais com essa aparência!"
O pequeno elfo parecia esperar por esta resposta. Pensou por um instante, depois disse:
"Meu caro Marshal. Se preferir posso me parecer com um oriental de barbas longas e voz de trovão, que é o que a maioria espera de um deus. As pessoas têm mania de acreditarem nas mais diversas criaturas; É o deus do sol, da lua, Maomé, Buda, Zeus...são tantos mas são apenas nomes diferentes que me dão. No fundo do coração, todos sabem que existe um único maestro para toda essa sinfonia de vida. Veja você por exemplo; acredita que é a natureza quem governa tudo, e como todos os outros também está certo! Eu sou o fogo, a água, a terra, o ar, a natureza... Você estava morrendo e resolveu entregar teu corpo à mãe natureza, ou seja, à mim, como um tributo. Eu o ouvi e vim pessoalmente te dar a vida de presente mais uma vez. Observe teu corpo carnal. Neste momento está se revigorando com a energia da terra, as larvas estão retirando o câncer que te devorava as entranhas e novas células estão brotando por toda a extensão do seu organismo. Daqui a pouco se erguerá dali um novo homem, totalmente curado! Isto não é o suficiente para que creias em mim?"
Uma profunda amargura se apossou do homem.
"Isto não é justo! Já que afirma que realmente és deus,me responda uma coisa;Acaso eu pedi para nascer,ou para reviver neste momento?Acaso eu pedi esta audiência com o ser todo poderoso,criador do céu e da terra enquanto milhões de miseráveis habitam este mundo sem ter o que comer?Porque perde seu tempo comigo se há tanto à se fazer pelos oprimidos?Pois é,meu Senhor!É isto que por toda minha vida me enfureceu. Acredito que se deus cria uma vida,torna-se responsável por ela,tem que protegê-la,educá-la,ouvir suas súplicas...Mas você,meu Deus,criou os humanos e os abandonou à própria sorte,como ratos de laboratório. Pois quero que saiba que se Deus existe nestas condições,eu prefiro jamais ter nascido e muito menos ter tido uma segunda chance nesta floresta."
Marshal estava realmente furioso. Não tinha certeza se era realmente Deus que estava a sua frente, mas uma criatura que brincava com sua vida e morte,certamente merecia ser alvo do seu desabafo.
O pequeno ser,parecia absorto em seus próprios pensamentos. Deixou passar alguns instantes até que o homem se acalmasse e disse:
"Eu compreendo sua angústia, Marshal! Afinal são tantas as coisas que dizem a meu respeito,tantas mentiras que se criam...mas estou aqui hoje para lhe trazer a paz. Ouça-me e pondere. Eu jamais os abandonei. Apenas dei a vocês o que um pai dá aos filhos depois de certa idade. O livre arbítrio. Você é pai e sabe do que estou falando,deve lembrar-se como os seus ficavam felizes quando permitia que saíssem para onde quisessem sem se importar com a hora. Eu também dei a vocês,liberdade para fazerem o que tinham vontade,mas jamais os abandonei. De tempos em tempos eu escolho a dedo o humano mais iluminado,com o dom da palavra para que leve minhas regras e meus ensinamentos até vocês. Foi assim durante séculos,com Buda,Moisés,Jesus...Tantos foram os meus arautos e no entanto tiveram suas palavras deturpadas,suas obras ignoradas ou mal compreendidas. Mas não desisti por isso. Continuei a falar aos humanos através da arte,da música,da literatura...Em algum
momento da sua vida,você deve ter apreciado uma obra de arte ou música que tocou seu coração,ou alguma poesia que fez brotar lágrimas de seus olhos!"
Era verdade! Marshal lembrava-se perfeitamente de uma obra poética que se chamava O MEMORANDO DE DEUS,que o fizera chorar de tão bela. O pequeno,parecendo ler seus pensamentos,continuou:
"Pois era eu conversando com você,meu caro!Eu tenho neste milênio,mandado inúmeros recados para a humanidade através dos meus escolhidos que são os poetas,artistas,escritores...cada um com seu jeito especial de se comunicar. Mas parece que não me ouvem mais,são filhos adultos que se esqueceram do pai!E você me diz que eu os abandonei?
O homem, não parecia convencido. Retrucou:
"Mas onde está a punição para os maus?Porque não vem pessoalmente com seu enorme poder e acabe de uma vez com toda miséria e injustiças que tanto nos oprime?"
Com um sorriso sarcástico, o duende respondeu:
"Sei, sei. Aí faço um trono no planeta e governo todas as nações com mão de ferro. Acredite, é o pior caminho! Prefiro continuar com meu método, e você, se concordar será o próximo escolhido por mim a levar mais um recado para a humanidade, aceita?"
"E que recado seria este?" Perguntou Marshal um pouco desconfiado.
O pequenino ser levantou-se ficando em pé,mas sem tocar o solo. Parecia flutuar a alguns centímetros e seu corpo começou a emitir um brilho que banhava tudo a sua volta. Começou a dizer:
"Diga a todas as pessoas que puder,que eu não os abandonei. Vocês são Eu,e Eu sou Deus,um ser de poder supremo mas que como todos,também precisa aprender sobre todas as coisas mundanas,tais como amar,odiar,rir,chorar,sentir fome,frio,sede,dor...enfim,todos os sentimentos humanos. E a única forma de aprender todas essas coisas,é enviar pequenas partes de Mim em forma humana,cada uma com uma característica peculiar,para que sintam e me ensinem. Portanto se querem me ver e sentir,olhem para si mesmo e vejam do que são capazes e verão Deus!
Flutuou até o corpo inerte no solo e o observou de perto.
"A natureza já fez sua parte,o encontro está encerrado. Espero que aproveite bem sua segunda chance, Marshal."
Dizendo isto, assoprou o rosto coberto de folhas e larvas e o homem começou a sentir algo o puxando de volta para a vida.
"Espere!Ainda tenho tanto que dizer..."
Mas sua voz foi sumindo junto com sua consciência. Sua última visão foi de um pequenino ser com orelhas pontudas, que brilhava intensamente como um sol e sorria para ele, enquanto desaparecia lentamente por entre os galhos das árvores. Soprava um vento forte e gelado agora e tudo ficou escuro a sua volta. Depois de alguns instantes a claridade foi retornando e num acesso de tosse, o homem pôs-se em pé. Tinha ainda, o corpo coberto de folhas e lama e um gosto horrível na boca. Sua mente confusa tentava ordenar os pensamentos. Um sonho!Lembrava-se de um sonho...mas tão real!Foi então que tudo voltou de repente. Todas as lembranças do sonho retornaram nítidas!
Marshal voltou para a civilização. Refez o mesmo caminho que fizera para chegar ali,sem nenhuma dificuldade. Sentia-se jovem e sadio novamente. Seus parentes e amigos falaram em milagre e fizeram muita festa.
O homem lembrou que precisava dar um recado de Deus a todos. Começou a contar que tinha estado com ele. Era pequeno e parecia com o deus Pan,da mitologia. Disse que todos nós somos Ele! Marshal repetia tudo que se lembrava em pormenores,com um brilho de alegria nos olhos.
Em poucos dias foi internado em uma clinica para doentes mentais. Em sua primeira noite, na pequena cela acolchoada destinada a ele,deparou-se com Pan sentado à um canto com uma expressão triste no rosto:
"Eu não disse, Marshal? Eles me abandonaram!"
Paulo Elias

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