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Crônica
 
Não é o tempo, é a qualidade deste tempo! E agora?
Por: Milena Aragão

Quantas vezes já ouvimos esta frase? Eu, muitas! Desde nova, confesso. Mas este é o tipo de frase que não pode passar naturalizada, ou seja, não podemos ouvi-la, achá-la bonita, concordar com ela e dar adeus. Este é um tipo de frase que precisa de reflexão constante! O que ela quer dizer de fato? O que seria “qualidade do tempo”?
Voltei a pensar sobre esta frase numa conversa que tive com uma amiga: o filho dela, de 11 anos, foi aceito num projeto social que tem o futebol como caminho para afastar os jovens de “más influências”, como disse o treinador. O menino estava muito feliz com a possibilidade de aprender a jogar futebol e fazer novas amizades, contudo, em apenas 05 aulas, pediu para sair do projeto. “Por que”? Indaguei. Ela contou-me que ele estava sofrendo bullying por ter sobrepeso, ouvindo expressões hostis, como: “você é gordo, não faz nada direito”, “por que você está aqui se não consegue nada?”, “eu não quero você, você deveria sair ao invés de tomar lugar de alguém que sabe jogar”, “lá vem esse mala de novo, ele nem consegue correr direito!”.
O que fez o professor? Nada! Ao contrário, incentivou-a a retirar o menino do projeto alegando que as crianças eram pobres, sem acompanhamento de pai e mãe, mal educadas e que eram assim mesmo, além disso reforçou que, por ele não ter muita habilidade com a bola, a tendência seria aumentar os xingamentos.
Retomo uma fala inicial: trata-se de um projeto social que visa “afastar crianças de más influencias” (palavras do professor), não tendo, portanto, como objetivo primordial ser uma escola de futebol, um treinamento com vistas a formar jogadores.
Ora, penso que o objetivo de um projeto social não está em formar capoeiristas, judocas, desenhistas, jogadores de futebol ou qualquer outra atividade que o espaço ofereça, mas mediante tais oficinas, isto é, utilizando-se de tais atividades, trabalhar valores humanos como: solidariedade, amizade, comunicação não-violenta, otimismo, sinceridade, liderança, humildade, lealdade, ética, responsabilidade, amabilidade, generosidade, cooperação, auto-estima, tolerância, respeito, enfim, uma série valores que colaboram na construção de um sujeito ético, cidadão. Valores que permeiam as atividades que eles aprendem nas oficinas do projeto. Desta forma, o foco não está no futebol, mas no relacionamento, nos valores. Os jovens devem ser capazes de sair de um projeto social com habilidades e uma nova visão de mundo, mais amadurecidos emocionalmente.
O responsável pelo projeto, na intenção de afastar os jovens das “más influências”, ocupando-lhes o tempo ocioso, esqueceu de refletir sobre a qualidade deste tempo. Basta colocar os jovens em um campo de futebol e ensinar-lhes as regras do jogo sem ter atenção para as regras de outro jogo, ainda mais importante, e que acompanhará estes jovens para além do projeto: a vida? Até que ponto ele, naturalizando a violência psicológica, está colaborando para que as tais “más influencias” cresçam dentro do próprio projeto, além de agir, inclusive, como cúmplice?
Penso que o professor deveria investir tempo de aula para ajudar os jovens a desenvolver a empatia, ao invés de naturalizar a violência. Se eles são criados em ambiente agressores e aprenderam a se relacionar com o outro a partir de tais códigos; o papel de um projeto social – mas também que qualquer instituição que acolha o público infanto-juvenil, como a escola, por exemplo – é de ensinar outras formas de se relacionar, para que eles ampliem sua visão de mundo.
Sabem como percebi isto? Com os próprios jovens! Quando eu atuava em um projeto social, o grupo comentou: “poxa professora, é tão bom vir aqui, porque a gente aprende que tem como falar com os outros sem precisar gritar ou xingar! A gente vê que não precisa ser igual aos nossos pais, ou colegas da escola, que tem outro jeito! Aqui a gente se sente respeitado e aprende a respeitar!”.
Tenho convicção de que o professor deste projeto tem as melhores intenções, mas esta necessita vir acompanhada da reflexão sobre o nosso ser e agir. É necessário que ele questione sobre seu papel, sobre o público alvo, no caso, as crianças e adolescentes sob sua responsabilidade; bem como o contexto social e emocional deste grupo, para planejar sua atividade com foco na potencialidade para além das habilidades.
Não basta dedicar um tempo à criança e ao jovem sem antes refletir sobre o que faremos neste tempo! Não é somente o tempo, mas também a qualidade do tempo que dispensamos a eles que efetivamente fará a diferença!
Está no exemplo que damos, no carinho, nos limites em momentos oportunos, na relação respeitosa e afetuosa, ajudando a criança e ao jovem a entender e lidar com seus sentimentos.
E você, na sua casa, como ocorre? Você não tem muito tempo para ficar com seu filho? Tudo bem, mas o que faz no tempo que tem? Brinca? Fazem roda de leitura juntos? Praticam atividades? Escutam – com o coração, ou seja, sem tom de crítica - o que seu filho tem a dizer? (Isso é muito importante!). O foco de interesse é a vida do seu filho ou a obediência dele? (Isso faz muita diferença!)
Qualidade é um conceito subjetivo, relacionado com as percepções, necessidades e resultados em cada sujeito. Qual o resultado do tempo que você fica com a criança e o jovem? Se os sentimentos de alegria, respeito, amor e auto-estima estiverem presentes, então penso que este tempo esteja sendo utilizado com qualidade! Caso contrário, é necessário pensar sobre o seu papel na vida dele.


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