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João Victor Vasconcelos de Matos
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Crônica
 
Não saio!
Por: João Victor Vasconcelos de Matos

Chame o vereador, o prefeito, governador ou presidente! Chame até o papa se preciso for, mas daqui não saio. Ganhei por direito essa casa, logo ela é minha. Aliás, ganhei não porque nunca vi político eleito dar nada a ninguém. Eu construí! Já fui catador, faxineiro, garçom, gari e não me arrependo de nada. Nunca deixei faltar o pão e o leite dos meus filhos, até quando parecia impossível. Batalhei junto a minha esposa, com quem sou
casado a 20 anos, todos os dias da minha vida. Meu filho mais velho não está mais aqui, foi morto por policias que o confundiram com bandido, e argumentavam ser bandido bom aquele que morto está. Meu filho nunca foi bandido, doutor. Se bem que eu nem sei o que significa bandido, deve ser algum sinônimo de pobre. Digo isso porque já vi madame roubando joia, político roubando dinheiro, empresário escravizando funcionário e ninguém
ousou sequer suspeitar deles. Semana passada, tava assistindo o governador falar que ele tomará medidas para acabar com as enchentes que todo ano assolam a cidade.
Interessante é que todo ano ele dá o mesmo discurso, até agora não vi nenhuma melhoria. No dia seguinte, acordei sem nada. A água levou todo o pouco que eu tinha, mas não me levou a esperança. Levantei, agradeci ao Senhor por mais um dia e vim. Me encontrei com outros amigos do MST que também haviam ficado sem casa e encontramos esse terreno, abandonado por décadas, longe dos bairros da classe alta, e ficamos aqui. Montamos nosso barraco, construímos nossa vila. Todos aqui vivem em fraternidade, um ajuda o outro, trocamos favores, acho que por isso batizaram nossa comunidade de Canudos. Todos os homens ajudaram a construir todas as casas, as mulheres cuidavam das crianças. Não comercializamos nada aqui dentro, pelo contrário, juntos fazemos artesanato e vendemos aos turistas na orla. Todo dinheiro arrecado é revertido pra comunidade, comprando comida, roupa ou presentes para o Natal. Inclusive o mês natalino foi fantástico! Pessoas fizeram campanhas de doações e nos ajudaram.
Meus filhos receberam presentes, minha mulher ganhou panetone, eu ganhei champanhe. Tudo muito bem, ah como eu amo o espírito natalino, quem dera durasse o ano todo como cantam as músicas. Mas não dura. Hoje, vocês estão aqui. Quer dizer que a Justiça mandou expulsar a gente porque somos invasores? Que Justiça é essa? Esse terreno nunca foi utilizado por ninguém, será que vocês vão utilizá-lo somente porque nós chegamos? Desculpa doutor, mas não vamos sair. Pode vir o exército, mas eu prefiro morrer junto ao meu povo que ceder a essa pressão. Primeiro que não temos pra onde ir.
Vocês já nos tiraram tudo, agora querem tirar até um pedaço de chão? Sei que o senhor recebeu ordens e exatamente desse senhor que lhe deu ordens que eu estou falando.
Certamente o “doutor” está agora em sua mansão, na beira da piscina tomando aquele whisky importado. E eu estou aqui e daqui não vou sair. Se preciso for pode me matar, acabar com todos nós que depois vem um autor e faz um livro contando a nossa história.
Mas eu não saio!

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