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Crônica
 
Aromas
Por: Paulo Elias



Foi assim,de repente que tudo começou.Saia do colégio a tarde quando sentiu aquele cheiro.Farejou o ar como um cão perdigueiro tentando identificar o odor ; parecia fruta,mas não se lembrava qual.Forçou a memória um pouco e lembrou que era amendoim.Sim era isso mesmo!Amendoim cru, recém colhido.Lembrou que quando garoto,ajudava o avô no pequeno sítio da família e pegou nojo de tanto amendoim que via plantado,estocado no celeiro ou espalhado pelos armários da cozinha.Sim!Era esse cheiro mesmo que sentia no ar agora.Em seguida ouviu a freada do carro.Parado tentando identificar o cheiro,parou na beiradinha da estrada e por questão de dois segundos não atravessou a rua e foi atropelado por aquele carro desgovernado.Mas o homem que passara por ele não teve a mesma sorte.Jazia completamente inerte no asfalto enquanto já se aproximavam os curiosos.
Gino não associou imediatamente o cheiro estranho com o acidente.Correu para casa assustado e aliviado por não ter sido ele quem estrebuchava ali no solo.Isso foi na segunda feira,na quarta quando o episódio já estava esquecido,fazia frio e ameaçava chuva quando foi chegando ao colégio e sentiu novamente aquele odor.Estancou o passo como se tivesse visto uma cobra e a moça que vinha logo atrás,passou por ele resmungando um com licença mau humorada.Deu três passos e foi atingida por um raio fulminante que iluminou tudo a volta como um sol de verão.Gino não pode conter um grito vendo aquele corpo carbonizado ali a sua frente.Saiu correndo sem rumo e só parou quando não tinha mais fôlego para correr.Encostou-se no muro e percebeu ali que tinha um dom!Podia farejar a morte.Aquele cheiro estranho de amendoim, era a tal que se aproximava dele tentando levá-lo.Mas de alguma forma,ele sentia o odor e podia escapar sempre.Sorriu exultante.Agora tinha um trunfo.Bastava manter o nariz em alerta que viveria para sempre.A chuva já caia levemente quando começou a caminhar pra casa.Ia seguro de si como se fosse um super herói cheio de poderes.Entrou no prédio onde morava e aguardava o elevador quando sentiu novamente o aroma.Olhou rapidamente a sua volta tentando reconhecer algum perigo mas não viu nada.O porteiro cochilava em sua cabine e tudo parecia normal.Ressabiado, resolveu subir os quatro andares pela escada, e já estava na metade quando ouviu o estrondo! Desceu rapidamente até o saguão de onde saíra e viu aquela tragédia.O elevador despencara do último andar e se espatifara no térreo.Havia alguém dentro e os moradores tentavam ajudar de alguma forma.Um sorriso irônico surgiu nos lábios do rapaz que virou as costas e começou a subir lentamente as escadas.Chegou ao seu apartamento assoviando despreocupado.Ouviu sua avó resmungar algo mas não deu atenção e foi direto pro quarto.Abriu a janela e murmurou baixinho: “Ta vendo sua tonta,escapei de você três vezes,e agora tu não me assusta mais!”
A avó berrava do outro quarto: “Vai se agasalhar menino,ta muito frio.”
“Não me enche,sua velha caduca.Agora eu faço o que quero.” Gino não suportava a avó.Estava sempre lhe dizendo o que comer, o que vestir, implicava com seus amigos e por isso a tratava tão mal.Fazia tudo que a velha não gostava só para irritá-la.Mas agora seria diferente.Ele tinha um dom,um poder, e de alguma forma iria tirar proveito.Logo poderia ir embora daquele apartamento fedorento.No outro dia já atrasado,levantou-se rapidamente tomou café e saiu apressado, ignorando o o pedido da avó para agasalhar-se. Ia até a banquinha de feira que tinha no mercado municipal.Trabalhava vendendo frutas à dois anos e não tinha nada que detestasse mais.Mas este seria seu último dia.Já tinha planos de entregar tudo ao português que era dono e procurar algo mais apropriado para fazer.Afinal tinha o dom de escapar da morte quando quisesse.Ficou imaginando o que poderia fazer.Talvez trabalhar de segurança...Tinha que ser algo perigoso para aproveitar seu poder.Ia sonhando baixinho, e ao aproximar-se do portão de entrada do mercado respirou fundo inalando o ar a sua volta a ver se havia cheiro de amendoim.Não havia cheiro algum e entrou confiante no pátio passando por um saco de lixo rasgado,provavelmente pelos cães vadios da noite.Cascas de frutas deixavam o chão escorregadio e Gino só percebeu o perigo quando seu corpo descreveu um semi circulo no ar desabando com a cabeça no meio fio.Sua última visão,além dos curiosos que se aproximavam,foi aquela velhinha com o semblante preocupado que se agachou sobre ele murmurando baixinho:”Há meu netinho,eu te disse para por um agasalho.Veja só,pegou um resfriado!”

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