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Crônica
 
Fases
Por: Afonso e Silva

A infância fora empurrada por uma caixa de engraxate às costas. Com menos de dez anos de idade ingressou no mundo do trabalho. Suas atribuições eram limpar salas, engraxar sapatos e entregar jornais. Percorria descalço as super quadras para atender os distintos habitantes de Brasília. Uma situação inusitada: engraxava sapatos, mas andava descalços; entregava jornais, mas não entendia as letras. Os trocados conseguidos auxiliavam no sustento da casa. Escola. Ah! Essa, por ora, nem pensar, pois sobrevivia do fruto de seu trabalho. Se fosse estudar não tinha como trabalhar. As alternativas eram excludentes, pois naquela idade o estudo noturno era prerrogativa dos mais velhos. Mesmo assim com todas as dificuldades, sorria como qualquer criança. Brincava sempre que sua caixinha de engraxate descansava. Sonhava em um dia poder dedicar aos estudos e trabalhar naquilo que lhe desse prazer, fazer coisas para realização do ser.
“Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Na juventude conseguiu alguns pequenos progressos. Já se considerava um quase-cidadão ao entrar na estatística do IBGE, como aprendiz, cumprindo uma jornada de 8 horas por dia em troca de abençoados 70% do salário mínimo. Sua carteira era assinada e contribuía para a Previdência Social. Deu os primeiros passos para concretização do sonho, aprendeu as primeiras letras, mas era muito pouco para realizar o sonho sonhado, mas não parou de sonhar, tinha esperança.
“O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Adolescente quase-adulto assume novas responsabilidades como almoxarife, escriturário, auxiliar de pessoal em escritórios de obras. Agora passou a se considerar um trabalhador. Começou a participar de lutas por melhores salários, porém todas as ofertas de emprego foram em construção civil. Tinha hora de começar a trabalhar. O trabalho adentrava à noite e não oferecia oportunidade de conciliação emprego-escola. Era um ou outro. Sem alternativa por ora, fica mais uma vez adiado o sonho, mas ele não morre. Com o falecimento de sua mãe muda-se para Minas Gerais e lá, com muito custo, consegue sair do ramo da construção. Novo caminho ilumina seu horizonte e começa a estudar a noite. Fez supletivo primeiro e segundo graus em um ano. No ano seguinte presta vestibular na PUC-Minas para curso noturno e passa. Mas para tristeza sua não consegue se manter em função da equação: salário de um lado, alimentação-transporte-moradia-Universidade, do outro. O contra-cheque era infinitamente menor. Várias tentativas de se conseguir bolsa de estudo ou crédito educativo são frustadas. Aí o jeito foi parar. Deixou a PUC, mas não desistiu do sonho. Decidido passou a ler dentro dos lotações durante suas viagens casa-trabalho até conseguir passar na Federal. Foram quatro anos e meio saindo às seis da manhã e chegando à meia-noite, de segunda à sexta-feira. Foi uma luta, mas conseguiu sua primeira vitória. Graduou-se. Imediatamente prestou concurso para ingressar no serviço público onde permanece até hoje. E o sonho? Persiste, pois ainda não foi realizado o sonho sonhado.
“Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Poe-se a luz a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Agora, cinqüenta e seis anos de idade e trinta e nove de contribuição à previdência é chegada a hora de despedir do trabalho formal. Despedir dos horários rigorosos de entrada, mas nem tanto na saída; dos deslocamentos casa-trabalho-trabalho-casa; das chefias; da rotina, da mesmice... É chegada a hora de despedir do trabalho, mas nunca dos colegas, muito menos dos amigos construídos ao longo do tempo, ao longo de uma vida... É chegada a hora de aposentar e iniciar a realização dos almejados sonhos, revelados ou não... É chegada começar a sonhar com novos sonhar.
“O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem acoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Sua prestação de contas como funcionário público, no geral, é positiva. Fez jus aos salários que o povo lhe pagou. Verdadeiro patrão de todos os funcionários públicos seja o Presidente da República, ministros, deputados, senadores, prefeitos, secretários, vereadores, policiais, juízes, ele e todos os demais barnabés. Trabalhar por obrigação ele reza todos os dias para não precisar mais. É modesto, vai viver os dias que lhe restam com o que a previdência lhe pagar até que lembrado por Ele. De agora em diante vai viver, simplesmente isso, viver. Com sua aposentadoria está abandonando o palco para que novos palhaços assumam o picadeiro e continuem a fazer esse fazer por fazer que aborrece e adoece o ser. Encontra-se pronto para iniciar uma nova vida. Realizar sonhos antigos e sonhar novos sonhos. Seu desejo é de ser mais pai, mais avô, mais esposo, viver a família. Ter tempo para brincar com crianças e cachorros; dançar; nadar; pescar; ouvir músicas; rir sem motivo; chorar de alegria; abraçar as pessoas; conversar com as plantas; apreciar as paisagens; admirar as aves; embasbacar com o amanhecer e com o por do sol; sentir o vento soprando os galhos das árvores; caminhar na chuva; gangorrar em balanços de pneus; contar histórias; levar os netinhos no parque e no zoológico; curtir a preguiça na rede; dormir depois do almoço; ir à praça tomar sorvete quando bem entender; freqüentar bibliotecas, museus, arquivos; ler e escrever sobre o que der na ‘teia’; freqüentar cinemas, teatros e bailes; jogar xadrex; viajar; visitar amigos; tomar café, coado no coador de pano apoiado no mancebo, com pão de queijo com os vizinhos; tratar das galinhas; colher ovos; comer pipocas; regar a horta; plantar verduras; andar descalço; tomar caldos no frio; comer frango com quiabo e angu cozidos no fogão à lenha; fazer pés-de-moleques e quitandas; cuidar da saúde, ir ao médico, fazer exames. Simplesmente viver a vida construída a partir das pedras encontradas nessa minha caminhada. Trabalhar numa atividade que eleve a alma até a derradeira aposentadoria.
“Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.”

E o sino canta em alegre responso:
Rico Afonso! Rico Afonso!
Desculpas ele pede ao grande poeta Alphonsus de Guimarães (1870-1921) por ter feito uso sem autorização de sua maravilhosa obra: A Catedral.

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