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Crônica
 
"Deixa esse menino lá em casa! Mudo ele em 1 semana!" Sobre educação, cultura e humildade.
Por: Milena Aragão

Um grupo de mães estavam reunidas numa praça cuidando de seus filhos, até que uma delas percebe uma criança do tipo “arteira”. Por um momento uma enxurrada de certezas permearam a conversa: “é sem limite, só pode! Falta de família! Falta de umas palmadas! É mimada!”. De pronto, uma senhora bradou: Deixa esse menino lá em casa! Mudo ele em 1 semana!”
Fiquei imaginando a partir de quais metodologias: seria com gritos, ameaças, humilhações, palmadas, castigos? Pelo tom de voz dela, creio que sim!
O ser humano às vezes faz dessas: veste sua melhor roupa de onipotência e , como superman, ruma até a vida do outro para arrumar a casa.Temos sempre os melhores produtos de limpeza para limpar e perfumar o lar alheio, já a nossa...bom, alguns produtos podem estar em falta, algumas poeiras não são reparadas, certas sujeiras vivem (in)felizes embaixo do tapete.
Confesso que antes de refletir sobre a expressão citada, eu até a proferia: “se deixasse comigo...” Com o tempo, a maturidade, a vivência, a empatia, fui percebendo que eu até poderia realizar algum bem, alguma mudança positiva na criança, mas este pequeno ser voltaria para casa, para o ambiente e para as pessoas que ajudaram a construir o comportamento considerado inadequado.
Chamo a atenção para a palavra “considerado”, demarcada em negrito, pois, se pararmos para pensar, o que é desobediência para mim pode não ser para você. Assim, a ideia de indisciplina depende do meu olhar, isto é, das minhas vivências e experiências, daquilo que aprendi no seio da minha família, escola e trânsitos sociais sobre o que era adequado ou não uma criança fazer.
Outro ponto a ser observado é a forma como nos dirigimos à criança, o olhar que temos para com ela. Lembro-me de quando uma criança ficou sob meus cuidados, foi desafiador, contudo, após bastante paciência, ela perguntou: “porque você não grita? Minha mãe grita!”. Ao passo que indaguei: “se eu gritar você vai deixar de fazer?”, ele disse que sempre parava depois do grito e que, caso eu não gritasse, parecia que “nem estava acontecendo nada”.
Conversamos sobre limites, gritos, palmadas, foi uma conversa para entender a forma como ele havia aprendido e apreendido o mundo (papo para outro texto!), mas, em resumo, ele afirmou estar habituado a obedecer após gritos e /ou punições físicas. Foi uma conversa enriquecedora, de modo que não houve a necessidade de qualquer elevação de voz da minha parte, pois estabelecemos combinados para que a nossa convivência pudesse ser agradável e respeitosa. Diálogo, escuta, empatia e combinados, desta forma nos acertamos!
Quando ele voltou para casa, confesso ter ficado com uma pontinha de esperança sobre a mudança que ele experimentou comigo, contudo, aos poucos, imerso na rotina já conhecida, aquela alegre criança, cujos olhinhos brilhavam de curiosidade e vida, voltara à rotina anteriormente vivenciada.
Nada mudou? Sim, mudou! A mudança não foi para adestrá-lo a um comportamento que faria seu entorno feliz, não foi para moldar uma criança obediente para o outro, mas foi profícua para seu íntimo, uma vez que ele vivenciou uma forma diferente de lidar com os desafios cotidianos, viu que não necessitava de gritos ou ameaças para compreender e seguir as regras sociais, percebeu que pôde ser ouvido e falar a forma como se sentia. Certamente esta experiência o marcou, assim como marcou a mim. Fato é que, quando nos encontrávamos, os combinados realizados estavam vivos em sua memória.
É preciso ter clareza que um sujeito não vive só, e se uma criança age de uma determinada maneira considerada por nós inadequada, ela provavelmente deve ter aprendido em seu contexto vivencial. Não mudamos o comportamento de uma criança sem mudarmos o contexto no qual ela vive, sem mudarmos nossa forma de agir frente a ela, sem olharmos para nós, adultos, e realizarmos a nossa reforma íntima.
“Deixe comigo por 1 semana”. Essa é a expressão de quem acredita que resolverá tudo, sem, de fato, resolver nada. Geralmente as pessoas que a proferem acreditam que construirão sujeitos obedientes mediante ameaças, gritos e castigos. “Deixe lá em casa...”, dizem as pessoas que não escutam a criança, que não vêem o contexto; que a culpam, que a chamam de mimada, que a estereotipam. “Eu resolvo rapidinho”, dizem àqueles que mais precisam da reforma íntima, que mais necessitam olhar para si e construir sob novas bases a relação com o mundo infantil, entendendo que, para adentrar no universo da criança, há que se ter conexão, paciência, empatia, escuta e uma boa dose de bom humor.

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