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Mário Francisco de Morais
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A BEATICE E AS CONFISSÕES DE DONA SANTINHA
Por: Mário Francisco de Morais


A BEATICE E AS CONFISSÕES DE DONA SANTINHA


Fogos de artifício pipocavam por todos os lados. As beatas e beatos retiravam as roupas guardadas nas arcas com cheiro de naftalina para evitar que as traças procriassem nas roupas guardadas para ocasiões festivas. Anos e anos se o corpo não modificasse com o tempo, coisa que era raro. De um lindo corpo bem torneado pelas mãos do Criador, se transformava num belo trambolho cheio de banhas por todo o corpo. Como a crise às vezes também chegavam juntas, alguns paletós estavam com as mangas no meio do braço e as calças de Casimira ( tecido usado na confecção de ternos) no meio da canela. Os vestidos que não cabiam mais no corpo transformado, eram obrigados irem às costureiras e aos alfaiates para se dar um jeito, mesmo com algum remendo disfarçado. De qualquer maneira todos queriam ir à estação ferroviária esperar o padre que iria substituir outro que havia falecido. Passaram-se três meses que não se celebrava uma missa e os fiéis já estavam cansados dos cultos do senhor José Patrício, mais conhecido como Seu Patrício. A voz fanhosa, poucos entendiam as frase mal pronunciadas que falava e a igreja estava cada vez se esvaziando cedendo lugar para as igrejas evangélicas que começavam se proliferar pelos bairros afastados no meio daquela gente humilde.
O trem chegava em torno de dezessete horas e estava programado uma missa às dezenove horas para homenagear o padre Belchior falecido na capital para onde fora levado com problemas de coração e não mais retornou à cidade. Na missa da manhã seguinte seria campal na pequena praça da cidade preparada com antecedência para receber o busto de Padre Belchior, que a Prefeitura encomendara, e novas homenagens seria prestadas ao padre, que fora ainda muito novo para a cidade, por lá ficara mais de dez anos e adquirira grande amizade.
Às dezesseis horas o pátio da estação já estava lotado de gente de todos os recantos do município. Crianças agarradas às suas mães, mocinhas na flor da mocidade desabrochando beleza e encanto. Coroas encalhadas de véu, mostrando a castidade e se orgulhavam de dizer que aquele corpo somente a terra um dia haveria de tocar. Todas portando terços já movimentavam os lábios, que somente a terra haveria de beijar um dia, rezavam as orações que aprendera desde criança, dos pais conservadores. O zum, zum, zum ia longe e todos se perguntavam como seria o novo padre. Novo, velho, simpático como Padre Belchior. Até as crianças esperavam que o novo padre não fosse ranzinza como era em certas horas Padre Belchior, quando alguma criança levada dava uma carreirinha pela igreja na hora da missa ou dos batizados.
Deu cinco horas e como de costume o trem não chegara. Os foguetes continuavam a pipocar por toda a cidade e mais gente retardatária chegavam da zona rural. Felizmente para alegria dos fiéis o trem não atrasou muito como era de costume, e as cinco e meia apitou na curva soltando fumaça da caldeira à lenha. O corre, corre foi geral. Todos queria se aglomerar no lugar por onde o vagão de passageiro costumava parar. Foi preciso o chefe da estação pedir pessoas para ajudar controlar a turba desenfreada, sujeito a um acidente quando a composição parasse. A comissão de frente da recepção fez um cordão de isolamento entre a plataforma e o lugar onde o vagão de passageiros deveria parar e na altura dos acontecimentos, sua eminentíssima autoridade eclesiástica desceria. Quando o trem parou todos queriam ser o primeiro a entrar no trem para receber o padre.
Como a plataforma era pequena para caber o grande número de fiéis, formou-se outro aglomerado embaixo por onde o padre deveria passar. O estoque de foguetes da cidade esgotou recepcionando a autoridade chegante. A procissão seguiu rumo à igreja debaixo de vivas e fogos de artifício. Na igreja outro número não menos que da recepção aguardava o padre. A pequena igreja não cabia tanta gente junta. O padre na altura dos acontecimentos era o representante máximo de Jesus Cristo e tudo que fosse possível era feito para recepcioná-lo. Dona Santinha, a beata de que falaremos mais à frente estava presente coberta de véu preto e o terço na mão debulhando as orações e os cânticos entoados em louvor à Deus e à Nossa Senhora da Conceição padroeira da cidade. Celebrou-se a missa debaixo de muita comoção e fervor e o padre despediu dos fieis recolhendo-se à Casa Paroquial onde as autoridades locais o aguardavam para o jantar. Novamente depois de cumprimentar os presentes, o padre tomou um rápido banho e sentou-se à mesa para a ceia. Por volta de uma hora da manhã os convidados começaram se retirar e o padre se recolheu para o seu merecido repouso. Oito horas da manhã deveria estar de pé para celebrar a missa e às dez horas inaugurar o busto do padre Belchior na única pracinha da cidade. Na missa da manhã foi toda dedicada em homenagens ao padre falecido e dona Santinha não pode conter as lágrimas de emoção quando era lembrado os feitos do padre de quem era devota. Para ela Padre Belchior era um santo. Um santo que merecia um altar dentro da igreja e ser reverenciado como outro santo qualquer. Pela manhã o pedestal onde deveria ser colocado o busto estava pronto, mas faltava rebocar. O chefe de serviço da Prefeitura na idade de se aposentar, pelos bons serviços prestados à comunidade, era ao mesmo tempo pedreiro, bombeiro, eletricista, mestre de obra, levantou muito cedo e convocou seus auxiliares para dar conta do serviço. O povo já se aglomerava na praça aguardando a presença das autoridades convidadas para o evento e chegada do padre, que após a missa foi fazer um pequeno lanche, que ninguém era de ferro para agüentar o tranco de dois dias de estafantes atividades. Nove horas, e o busto ainda não havia sido colocado no devido lugar.
O mestre de obra se sentia orgulhoso de prestar grande serviço à comunidade e ser o autor daquela grande obra plantada na praça, queria ser o mais solícito possível e não deixar nada escapar às ordens de seu chefe, o Prefeito municipal que mandara erigir o pedestal. Tudo pronto, já sentindo realizado mandou um de seus subordinados à Prefeitura com o seguinte recado
__Antônio, vá à Prefeitura e pergunte ao Prefeito se é para chumbar o busto ou se é para parafusar.
O subordinado ainda mais solícito, montou em sua bicicleta e desceu a rua em balada velocidade e chegou à Prefeitura onde o Prefeito despachava com seus auxiliares dando as últimas instruções para nada acontecer de errado nas solenidades.
Ia me esquecendo: O expediente era apenas interno para os funcionários que iam participar das solenidades. Um dado muito importante também: O funcionário que foi levar o recado era gago. Chegando à Prefeitura foi introduzido no gabinete esbaforido e disse ao Prefeito.
__ Sen... sen.. senhor Prefeito seuuu Lulu( Lulu era seu apelido do mestre de obra, e na verdade chamava-se Luiz Caetano) mannnn dou perguuuuntar se é pra chumbar o burro ou parafusar o burro.
O Prefeito talvez sem imaginar na resposta disse:
__ Fale com ele que não quero burro, vaca, cavalo, solto nas ruas e mande recolher tudo, que não quero animal solto nas ruas, ainda mais hoje.
Um dos auxiliares interveio e disse
__ Essa conversa tá meio esquisita! Acho que você deve mandar lá saber de que se trata!
Como bom mineiro disse o Prefeito:
__Uai, e é mesmo! Eu mesmo vou lá.
Entrou no opala e foi verificar de que se tratava. Chegando ao local perguntou:
__ Que conversa é essa de chumbar burro e parafusar burro Lulu?
O mestre de obra que já nervoso retirou o boné da cabeça e num gesto como de Seu Madruga, personagem do seriado Chaves, jogou no chão e praguejou:
__ Isso é uma desgraça. Essas pestes não sabem nem dar um recado, a gente apertado com o serviço para entregar, e eles só sabem atrapalhar. Eu disse chumbar o busto ou parafusar.
O Prefeito não tinha como não dar uma risada e voltou a falar:
__Faça o que for melhor, que o padre está quase chegando.
O busto do padre foi colocado sem cimento e sem parafuso e após as solenidades o mestre de obra ia ver o que era melhor fazer. O padre chegou e deu-se início as solenidades.
Discursos pra lá, discursos pra cá, todos foram para suas casas, mas dona Santinha foi ao busto e fez nome do pai e também se retirou contrita de seus atos religiosos.
Na parte da tarde, sem o corre, corre da manhã, o busto foi parafusado, ficando brechas de maneira que alguém pudesse enfiar uma folha de papel. No dia seguinte a estátua do padre amanheceu coberta de flores e velas como se fosse um túmulo, que seus fiéis não chegaram a ver, pois o padre fora enterrada na capital e o busto era a única maneira de reverenciar o padre e dona Santinha era vista pelos guardas da praça acendendo uma vela para o padre.

Dona Santinha fora criado no meio do recato do pais muito religiosos, que não perdiam uma missa do padre, o que fora homenageado. Na pensão onde ajudava, fora criada desde pequena entre o entra e sai dos homens vindo de todas partes desse Brasil. Quando começou crescer os seios, veio logo a primeira menstruação que era tabu falar o nome naquela época e Santinha começou dar os primeiros sinais de mulher fogosa, mas era reprimida pelos pais. Na pensão era proibido falar com hóspedes e entrar no quarto para arrumar, sem a presença da mãe ou de outra empregada. Na hora de servir á mesa, sempre sobrava uma brecha para Santinha dar uma piscadela para um hospede que a encantasse. Para salvá-la das tentações dos hóspedes, os pais resolveram casá-la ainda muito nova com apenas quinze anos. No dia da Lua de Mel, a cidade inteira ficou sabendo dos gritos e as manifestações histereomânicas de dona Santinha. Dona Santinha era insaciável na cama e não dava trégua o marido, que não agüentava mais aquele estado de coisas. Logo veio o primeiro, o segundo, o terceiro filho e assim por diante, mas dona Santinha não baixava o fogo e, até nos últimos dias de gravidez, que as mulheres tinha abstinência total de sexo, ela dava sossego ao marido. O coitado vendo que era de pouca lenha para a caldeira de dona Santinha, resolveu aprender dirigir e, logo arranjou um emprego de caminhoneiro. Ficava dias fora e quando aproximava os dias de ir para casa já imaginava. Só que dona Santinha mudou de comportamento. Quando o marido chegava e deitava, ela se portava como uma pedra e quando ele a procurava, dizia estar cansada. Como o coitado também estava na lona, não se importava e, até dava graças á Deus. Dona Santinha jamais deixou de ir á igreja e confessar aos pés do padre e, impreterivelmente nas missas estava na fila na hora da comunhão recebendo o corpo de Cristo representado na hóstia consagrada pelo padre. Quando o padre faleceu, dona Santinha ficou com a consciência tão pesada e arrependida e começou a deixar os bilhetes debaixo da estátua pedindo perdão ao padre.
Os anos se passaram, vieram outros Prefeitos e a praça foi novamente remodelada e o busto do padre Belchior foi removida para ouro local. A velha geração devota do padre Belchior havia morrido ou estavam com idades avançadas. Dona Santinha já estava também de idade avançada e ninguém se lembrava quem fora dona Santinha no passado, mas para sua infelicidade ela deixara seu passado registrado debaixo da estátua do padre. Quando o busto foi removido encontraram vários bilhetes e alguém teve a curiosidade de ler um, e como achou interessante leu os outros. O funcionário jamais imaginou quem seria dona Santinha e os bilhetes foram caindo de mão em mão. Quando os filhos e netos de dona Santinha souberam dos fatos, tiveram que tomar providências urgentes e abafar o caso, mas a cidade inteira sabia das confissões de dona Santinha. Um jornalista bisbilhoteiro quis fazer uma reportagem e foi entrevistar dona Santinha que não se fez de rogada e cedeu a entrevista sem antes cobrar uma boa quantia por alguns bilhetes que a família conseguiu pegar de volta.

__ Meu Santo Padre, venho lhe pedir perdão pelo que menti para o senhor, eu jamais fui a pessoa que todos imaginaram, traí meu marido todo esse tempo. Queria pedir perdão pelos meus atos, interceda por mim junto ao senhor para me perdoar, mas eu não suportava viver em estado de jejum durante a ausência de meu marido.
Mais embaixo dona Santinha enumerava os nomes dos homens com quem ela manteve caso.
¬¬__Padre, hoje saí com um rapaz muito bonito e o danado me fez muito feliz, pena que é muito novo, senão me desquitava de meu marido e me casaria com ele. Peço que interceda a Nossa Senhora que é mulher como nós e conhece nossas necessidades para me perdoar.
Em outro bilhete ela confessava:
__Padre Seu Tomás saltou o muro de minha casa e me convidou para uma safadeza. Tive quase gritando por socorro, mas o homem era tão musculoso que não resisti aos encantos e o escondi na privada ao lado da casa até os meninos dormir.
O homem era um jumento e passei uns três dias tomando banho de broto de goiabeira.
Ao todo foram seis bilhetes
__ Padre, me perdoa,. Estou tentado não pecar mais, mas não agüento ficar sem homem padre. Me sobe um fogo por dentro e perco a paciência com meus filho por qualquer coisa. Não consigo concentrar em nada. Sonho a noite inteira fazendo sexo e quando acordo estou naquele desespero. Chego até sonhar alto e minhas filhas me fazem perguntas que não sei responder diante do embaraço que chego colocar para elas quando estou sonhando
Depois de pedir autorização aos filhos, o repórter foi entrevistar dona Santinha.
__ Dona Santinha, a senhora confessa que os bilhetes deixados debaixo do busto do padre era de autoria da senhora?
__ Claro meu filho, eles não estavam assinados? Que prova maior você quer?
__A senhora era mesmo uma mulher fogosa que não podia passar sem homem?
__Meu rapaz, tudo que você leu é verdade, não tenho vergonha de confessar tudo, Padre Belchior lá no céu intercedeu por mim e Deus já me perdoou. Tudo que fiz foi por força da natureza. Meu marido só andava viajando e quando chegava dizia estar cansado . Eu não agüentava aquele estado de coisas. Não me arrependo de nada. A mulher e o homem não podem viver um sem o outro, para isso Deus criou a mulher para ser a companheira de Adão.
__ A senhora nunca sentiu vergonha diante de seus filhos e netos quando encontraram os bilhetes?
__ Se eles me amam, porque vou sentir vergonha deles se eles estão sujeitos ao que passei?
A história de dona Santinha foi publicado num jornal meses mais tarde com o título: As Confissões de Dona Santinha, mas dona Santinha não pode ver a reportagem, pois logo faleceu.
























A MUDANÇA

Nosso Golzinho não era lá muito confortável e bonito, como não são outros da mesma marca, mas era o que tínhamos e não devíamos nenhuma prestação. Cabia muito bem nossa reduzida família de três pessoas, mesmo com muita bagagem. Meu marido como motorista, não ocupava grandes espaços por que é de boa estatura, nem muito magro nem gordo, dava para abraça-lo e juntar minhas mãos. Eu, entre um regime e outro sempre fiquei ente os 56 aos 65, quilos, somente trocava os números, uns meses ficava com cinco na frente outros com o seis. Nossa filha é um palito comprido e somente tem tamanho e não passa dos quinze quilos. Está quase me alcançando, que não passo de um metro e cinqüenta e seis centímetros. Portanto nosso gol bolinha era o ideal para uma pequena família e ainda sobrava espaço para mais dois convidados ou mais, conforme a necessidade.
O ser humano nunca está satisfeito com o que tem e meu marido está entre um desses seres humanos. Seu sonho era adquirir uma caminhoneta cabine dupla, e essa oportunidade surgiu com uma Ranger carroceria estendida, com muito espaço. Nada falei, mas sabia que com a falta de estacionamento no centro da cidade aquele mostrengo, embora muito bonita, não ia encontrar lugar fácil para estacionar, principalmente entre os horários de oito ao meio dia e das 13,00 às 16,00 horas.
Ele entusiasmou mesmo foi com as linhas aerodinâmicas e a cor do veículo, mas esqueceu-se que a Ranger é importada e peças de reposição são muito mais caras que o gol e um pneu da mesma é o triplo do nosso ex- golzinho. Mas isso também para meu marido não foi problema, pois jamais foi ao serviço no veículo. Preferia pegar ônibus ou carona com um colega de serviço que morava no mesmo prédio__ Indo de carro estava arriscando arranhá-lo, gastava combustível e sujeito não encontrar estacionamento. Tinha mais ciúme do carro que da própria esposa : claro, eu. Não confiava deixá-lo à mercê de flanelinhas, que além de não ter os devidos cuidados ainda tinha que pagar gorjetas. Ia me esquecendo; A dita cuja, era à gasolina e à gás, que não se sabia qual dos dois ficava mais barato, com a corrida, um atrás do outro para ver quem ficava mais caro, principalmente o gás que estava sujeito uma alta assustadora com as Chavescadas do senhor Evo Morales, o cocaleiro da Bolívia, dono do gás e que o nosso ilustríssimo comandante Zero brasileiro, teve que curvar, e nas suas falas diárias, bajulador incontestável do barbudo cubano e dos Venezbolivano e não queria ferir os companheiros, ou camaradas. Aliás, camaradas está fora de moda, que os camaradas já se foram há muito tempo com a queda do muro de Berlim e da toda poderosa URSS.( União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, hoje somente Rússia)
Diante disso tudo meu marido estava feliz com a troca do gol por uma Ranger cabine dupla, mesmo voltando a pagar prestações, que na troca o gol não dava para cobrir o preço da caminhoneta, e todas essas vantagens e desvantagens. Antes da troca ia para o serviço de carro, mas como disse; com a troca a caminhoneta ficava em casa e as chaves à minha disposição.
Sempre que havia necessidade, pedia meu cunhado para ir comigo escondido, em algum lugar, e com isso fui acostumando a burlar a confiança do dono do carro, ou seja: Meu marido.
Um dia um amigo de faculdade pediu para levar uma cama em outro apartamento que havia mudado. Nada demais servir um colega e amigo, tendo um carrão daquele parado à espera de feriados prolongados ou férias e, ainda condições para viajar.
Pedi meu cunhado, que queria exibir sua nova carteira de habilitação, para irmos rápido servir o amigo antes que meu marido chegasse. Saímos exatamente no horário de maior sufoco no trânsito, às seis horas. Nosso primeiro obstáculo foi lugar para estacionar aquela jamanta. Na porta do prédio havia uma enorme placa daquelas cruzadas em dois sentidos” PROIBIDO PARAR E ESTACIONAR” Do outro as placas diziam: PROIBIDO ESTACIONAR. PARADA DE ÔNIBUS. Não havia outra maneira senão desrespeitar a lei. Estacionamos em frente ao prédio com a expressa proibição, com risco do veículo ser preso e rebocado e meu cunhado sua carteira apreendida. Subimos apressados para apanhar a cama e retornar antes de meu marido, chegar, em torno de vinte horas, quando muito atrasava.
Chegamos, e já encontramos a porta do apartamento aberta. Quando vimos não uma cama, mas uma mudança inteira que nem um caminhão grande conseguia levar toda, e na caminhoneta era necessário não uma viagem ,mas várias. Fiquei transtornada quando vi aqueles moveis espalhados pela sala, para uma simples caminhoneta. __ E agora o que vamos fazer? Eram perguntas que nem eu mesma tinha resposta. __Levava a mudança ou falava com ele que estávamos com pressa! Meu cunhado olhava pra mim e piscava, mas eu não dava atenção. Não ficou satisfeito e começou me cotovelar. Diante daquele impasse resolvemos enfrentar o problema e tentar colocar o que coubesse. Começamos por mão à obra e colocar as coisas no elevador social. Nem sabíamos que havia elevador de serviço. Quando chegamos embaixo com aquela parafernália toda, o porteiro reclamou que não podíamos transportar nada pelo elevador social. Só uma coisa ele não sabia. O elevador de serviço não funcionava. Mesmo contra vontade do porteiro continuamos a traquibernagem e colocamos o que podia. Aliás, o que cabia. Por último ficou o colchão de casal, peça fundamental em qualquer mudança. Pegamos aquele monstrengo e colocamos em cima de tudo, que tomou uma parte da cabine. O mais importante não fizemos, diante da azáfama. Não amarramos o colchão e fomos embora. Quando arrancamos, tivemos que parar no sinal a poucos passos de onde estávamos estacionados. Quando vi o guarda vindo em nossa direção. Amarelei toda. Digo: não amarelei. Enverdeci. Amarelei, enverdeci, embranqueci. Não sei bem o que aconteceu comigo. Ele viu que estávamos estacionados em local proibido, mas arrancamos exatamente quando ele vinha se aproximando, mas tivemos que parar no sinal. Disse pra mim mesmo:__É agora meu Deus! Para minha tranqüilidade ele passou sem dar bolas pra nós. Eu que sentia uma enorme barra de ferro sobre minha cabeça, senti aliviada e flutuando como pena no ar. Quando o sinal abriu gritei para meu cunhado:__ Vamos, vamos depressa senão ainda vai dar zebra. Nesse corre-corre olhei no relógio e faltavam quinze minutos para as 20,00 horas. __Meu Deus, meu marido está chegando. Exclamei. Não fechei a boca o celular toca.. __ Alô bem, onde você está que cheguei não te encontrei e nem o carro. Você sabe que não gosto que sai com esse carro. Pensando numa boa desculpa respondi:
__ Bem estou aqui no bairro mesmo com Paulinho e Pituca. (Paulinho era o nome de meu cunhado e Pituca, apelido de nossa filha, que ele mesmo havia colocado ) Estamos aqui fazendo um lanche que estávamos com fome e não sabia a hora que você ia chegar.__ Está bom, mas não demore. E desligou. Continuamos nossa marcha. Quando entramos no viaduto que dava acesso à Avenida Assis Chateau Briant alguém disse:__ Parece que não estou vendo o colchão. Olhei para trás vi que ele estava enganado. O colchão continuava lá, ou minhas vistas haviam me enganado. Quando saímos do viaduto o dono da mudança atravessou à nossa frente de moto dando sinal para parar. O maldito colchão havia caído no meio do viaduto. Voltamos correndo temendo que o mesmo provocasse um acidente. Correndo com o coração querendo saltar pela boca, o celular toca novamente. __Alô bem, que diabo de lanche demorado é esse? Vocês mandaram preparar um boi na brasa ou um elefante ensopado.
Se fosse em outras circunstâncias daria uma boa risada, mas meu caso não era para riso e sim para choro. Tive que inventar nova desculpa.__ Bem já estou indo, estou aqui embaixo conversando com a vizinha; já que subo.
Pegamos o colchão e voltamos com ele na mesma marcha pelo acostamento. Quando encontrávamos uma ou mais pessoas vindo em nossa direção, tínhamos que sair fora arriscando ser atropelado pelos veículos que transitavam. Colocamos o colchão em cima da caminhonete e logo à frente era o prédio Descarregamos os móveis na calçada mesmo, pedi desculpa ao colega por não poder esperar e voltamos pela marginal, àquela hora bem vazia. Quando nos aproximava do nosso bairro meu cunhado disse para meu desespero. __Só espero que essa gasolina não acabe aqui, o carro já deu sinal.
__ Não me diga uma coisa dessas Paulinho, eu não tenho um tostão no bolso. Se você não tiver, estamos frito.
__ Pois pode considerar fritos que eu também não tenho um centavo furado.
Eu que nunca fui de rezar, àquela altura passei a invocar meu Jesus, meu Deus e acho se conhecesse Alá ou Jeová invocaria a Eles também.
Quando descíamos a ladeira para chegar em casa, o celular novamente tocou. Não dei papo e disse:__ Já estou subindo. Desliguei o telefone.
Ao fazer a curva para entrar no portão o carro apagou. __ Pronto a gasolina acabou na hora Agá. Disse meu cunhado.
Os deuses gregos do Olimpo, Zeus. Hera, Afrodite, Atena, Posseidon. Alá ou Jeová haviam me protegido diante daquela tamanha sorte, se é que tudo aquilo pudesse chamar de sorte.
Empurramos o carro e colocamos na garagem.
Olhei para a lataria do mesmo e mais uma vez gritei de espanto:
__ Vale meu Deus, se Otávio ver esse carro todo arranhado ele me mata. Paulinho, amanhã pegue esse carro e deixe na oficina para tirar esses arranhões antes que ele veja.
Subi as escadas correndo e entrei esbaforida.
__ Mas que lanche e papo demorado hein! Já estava preocupado supondo que vocês haviam batido o carro. Entramos desconfiados e meu cunhado nem subiu as escadas, de lá mesmo se mandou. Eu e minha filha entramos sem muita conversa e fomos direto para o quarto.
__ O que se passa com vocês, aconteceu alguma coisa?
__ Nada amor, não aconteceu nada, é que estamos cansadas.
__ Cansadas de comer e conversar fiado durante mais de duas horas? Vejo mesmo que comeram um boi na brasa inteiro.
__ Amor desculpe, vou tomar um banho.
Após o banho entrei para o quarto e fui dormir.
Jamais passei tanto sufoco em minha vida e vou pensar duas vezes quando tiver que fazer um favor a uma pessoa usando coisas alheias.


































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