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Mário Francisco de Morais
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A PORTA BATEU NA SORTE
Por: Mário Francisco de Morais

A PORTA BATEU NA SORTE



Dezessete e trinta horas. Como de costume, Jerônimo apanhou o blusão de couro, despediu da esposa e dos filhos, abraçando a caçulinha com três anos, desceu a rua para pegar o ônibus na próxima esquina. Ás dezoito horas recebia o veículo do colega, no serviço de taxista, um bico que vinha fazendo muitos anos. Não tinha carteira assinada, nem outras vantagens que um trabalhador adquire ao entrar para uma empresa. Não que não quisesse arranjar outro emprego, mas aquele não tinha compromissos, parava a hora que quisesse, e não tinha patrão para dar ordens, ganhava por comissão de cinqüenta por cento, e conseguia faturar mais que se trabalhasse em outro serviço. Gostava de ser independente. Tinha esperança de um dia adquirir seu próprio táxi. Morava com a esposa e os seis filhos, dos oito que possuía, num barracão de cinco cômodos que mal dava para se mexer dentro. Mesmo assim era uma família feliz. Todo fim de semana reunia com os irmãos, cunhados, genros, para uma roda de samba, onde rolava o churrasco de asa de frango e lingüiça, ingredientes mais baratos que a carne, e claro, não poderia faltar a caipirinha e a cerveja.
Como todo ser humano, sonhava em ter seu apartamento, mesmo que fosse financiado pelo BNH, e já havia feito a inscrição.
Todas as manhãs quando chegava, entregava a feira da noite para esposa, guardava um pouco para a condução, troco, e a fezinha no bicho ou na loteca.
Participava há muitos anos com os colegas de ponto, no bolão semanal, além do jogo do bicho. O cambista passava no ponto quase todos os dias e oferecia um bilhete e, ou pelo menos uma tira pra Gerônimo, mas recusava, ou por falta de dinheiro ou mesmo por descrença na loteria dos mineiros. Os vendedores são insistentes e os cambistas não fogem à regra. Um dia o cambista insistiu tanto, e Gerônimo para se ver livre dele comprou uma tira da Loteria Mineira . Não pagou e colocou a tira no bolso, com desprezo.. Os dias passaram e o cambista sumiu. Num final de semana apareceu querendo vender outro bilhete, desta vez um bilhete inteiro, pois a tira que Gerônimo comprara fora sorteada no segundo prêmio. Não era muita coisa, mas dava para desapertar um pouco das dívidas e arriscar outra vez com um bilhete inteiro. O cambista chegou, e logo foi entregando Gerônimo um bilhete inteiro, que estranhou.
__ Pra quem é isso? Não vou comprar!__ Questionou o cambista:
__ Deixa de ser miserável homem de Deus, nem ganhando você arrisca!
__E quem disse que ganhei?
__Eu; aquela tira deu no segundo prêmio. Deu quinhentos mil cruzeiros, você não ganha isso nem em três meses.
Gerônimo retrucou:___ Nem sei aonde pus aquele bilhete. Tomara que a mulher não tenha lavado a calça com ele no bolso!
O resto da noite Gerônimo trabalhou pensando no bilhete. Pela manhã quando chegou em casa a primeira coisa que fez foi procurar o bilhete.
__Mulher você lavou minha calça de brim.
__ E não era pra lavar? Não estava suja?
__ Era, mas você olhou nos bolsos?
--Eu não. O que tinha neles assim de importante?
__Um bilhete premiado no valor de quinhentos mil cruzeiros
A mulher que não tinha papas na língua pôs a mão na cabeça e exclamou.
__ Puta que pariu, lá se foi o dinheiro do aluguel e das compras do mês. Lavei aquela merda e o bilhete foi pras cucuias . Vai ser azarado assim nos infernos !
Gerônimo na sua paciência entrou para o quarto e foi dormir.
A esposa não tinha papas na língua mas era uma mulher trabalhadeira, fazia sua parte em casa cuidando das crianças, costurando, lavando roupas e, obrigatoriamente sonhava para no outro dia fazer o jogo. Os sonhos vinham logo que deitavam provocados pelo estômago cheio, que só jantavam após a novela das oito. Comprou um livro de sonhos para interpretar os sonhos e o significado dos bichos que vinham logo abaixo da página. Durante muito tempo jogou baseado nos sonhos e no significado do livro, mas jamais acertou um só jogo. Abandonou o livro que ficou entregue aos rabiscos das crianças e suas páginas soltas vagavam pela casa. Um dia varrendo a casa, uma folha voou à sua frente e teve curiosidade de ler o que estava escrito. “Sonhar com cachorro mordendo” Desavença no lar, dívidas que vão chegar, e outras interpretações mais.Avião razante por cima da casa. Bicho! Borboleta. Não acreditou muito na interpretação, mas jogou na borboleta e no cachorro. Deu cabra e macaco. Foi mais um motivo para abandonar o livro.
De vez em quando estavam ganhando no passo, mas jamais cobria o que gastavam.
Numa manhã, como de costume, a esposa levantou cedo, preparou as crianças para irem à escola, e estranhou o marido não haver chegado. Ficou sozinha com a caçula que ainda dormia, e começou ficar impaciente. Ia ao portão cada vez que ouvia o ônibus descer a rua, à dois quarteirões, voltava para dentro, e não sabia o que fazer..
Por volta das dez horas apareceu o marido pálido e nervoso. Quis de imediato a mulher saber o que havia ocorrido.
__ Por que chegou esta hora, o que houve?
__ Não te conto.
__ O que aconteceu?__ Conte logo!
__ Fui assaltado, me tomaram o carro e levaram todo o dinheiro. Por obra de Deus não me mataram. Deixaram-me numa cidade do interior. Há dias atrás mataram um colega por causa de mixaria. Tá fazendo medo trabalhar à noite, agora não sei o que vou fazer.
__ Calma, vamos agradecer à Deus ter saído com vida, tudo vai dar certo.
Tentou tranqüilizar a esposa.
Dias depois o veículo foi encontrado numa estrada de terra, depenado.
Jerônimo preferiu fazer outros bicos durante o dia, que arriscar a vida, mas continuou a fazer seus jogos no bicho e na esportiva.
Todos os dias, tinha que descolar um cruzeiro para o passo, ter dois sonhos; o sonho do palpite pra jogar, e o sonho de ganhar
Era torcedor fanático do Clube Atlético Mineiro, enquanto a esposa e os filhos torciam para o Cruzeiro, os maiores rivais das Alterosas. Dia de jogo, era uma guerra.
Num domingo de campeonato brasileiro jogariam os dois rivais das Gerais, e como de costume fizeram sua fé na esportiva. O Cruzeiro estava melhor colocado, portanto o favorito. Na hora de preencher os cartões foi aquela discussão. Como não tinham dinheiro para preencher outros cartões, jogaram somente um, prevalecendo a vontade da maioria com os argumentos que o Cruzeiro ganharia a partida.
No dia do jogo foram todos para junto do rádio porque o evento não fora televisionado para a capital.
Nas partidas de sábado haviam acertado todos os jogos, e nas do Domingo, também haviam acertados quase todas, faltando apenas duas finais entre Atlético e Cruzeiro, Vasco e Coríntinhans.
A cada partida nos estados, iam conferindo e dando pulos de alegria quando acertavam. Faltava apenas quinze minutos para terminar os dois últimos jogos. O Cruzeiro ganhava de dois a zero, Vasco e Coríntinhans estavam empatados, dependendo apenas do time paulista desempatar para eles ganharem no bolão, pois ainda tinham chances, o jogo estava sendo realizado no Morumbi e o Timão era o favorito.
Muito nervosos com os resultados, o Corintinhans desempata a partida, fazendo-os pular e gritar de alegria, aumentando as esperanças de mudarem de vida dentro de poucos minutos, pois a previsão dos comentaristas e de Osvaldo de Souza, era de poucos ganhadores, e um dos maiores bolões até então.
Para desespero de nossos amigos o juiz marca um pênalti contra o Cruzeiro faltando dois minutos para terminar o jogo, fazendo o placar diminuir, mas mesmo assim as esperanças continuavam. Terminou o tempo normal, e mais três minutos de prorrogação. Todos suavam frio e nervosos. Pela primeira vez Jerônimo torcia contra seu time do coração. Sempre dava um jeito de assistir um clássico do Galo, e quando não ia ao jogo, plantava o ouvido no rádio e acendia uma vela para seu santo padroeiro, São Cristóvão, que não gostava de futebol, mas era obrigado a ajudar seu fiel devoto. Faltava apenas meio minuto para terminar o jogo e todos festejavam a vitória do Cruzeiro de dois a um, considerando ganhadores, festejando a felicidade de ter seu apartamento e seu carro para o trabalho, sem precisar arriscar a vida à noite, fazendo mil planos, se abraçando e confraternizando.__ Diz o ditado que desgraça pouca é bobagem. A bola cai nos pés de Dadá Maravilha, goleador do Galo que fazia a alegria da torcida e, dribla um, dribla dois, dribla três, e no quarto chuta a bola no ângulo sem defesa para o goleiro cruzeirense empatando o jogo.
__ Desgraçado, tinha que ser esse crioulo para tirar nossa felicidade. Praguejou a mulher revoltada.
__ Oh! Meu Dadá logo você me fazer uma desgraça desta. __ Disse Jerônimo. desesperado.
Desligaram o rádio desapontados, cada um para sua casa. Com empate, o galo perdia mais um ponto, mas não modificava a posição do Cruzeiro com a vitória do Coríntinhans sobre o Vasco.
O tempo passou, mas ninguém podia tocar no nome de Dadá em casa, nem a pequena Diana, nome dado em homenagem à princesa Dyana, quando se casou com o príncipe Charles, que carinhosamente a chamavam de Dá, ou Dada, mas recusava o apelido.
A vida continuou na mesma labuta, com os filhos adultos, quase todos casados, tendo mais dois após o episódio de anos atrás. Cruzeiro e Atlético continuavam os mesmos rivais, mas o Galo sem seu goleador, Dadá Maravilha, que havia pendurado as chuteiras, sempre lembrando dele com desprezo. e melancolia. A pequena Dyana casara-se e mãe de dois filhos. Haviam adquirido um apartamento pelo BNH, pagando com muita dificuldade, e raro era o mês que pagavam uma prestação, mais de três anos estavam em débito com o órgão que ameaçava tomar o imóvel. Jamais abandonaram o vício de jogar, na esperança de dias melhores. Jerônimo continuava fanático torcedor do Atlético e a esposa do Cruzeiro, com mais os dois filhos que não conheciam a história do jogo de anos atrás. Apesar das dificuldades, e vicissitudes, continuavam uma família unida.
Num final de semana, como sempre faziam, reuniram para comemorar o aniversário do neto, filho caçula de Dyana, e no final da festa, resolveram fazer um bolão para jogar na Sena , que estava acumulada três semanas com prêmio a mais de doze milhões.
Participaram, filhos, cunhados, genros, sobrinhos, e toda a família presente. Jerônimo como chefe, recolheu o dinheiro e ficou encarregado de fazer o jogo.
Na segunda e na terça, não fez o jogo por que havia gasto o dinheiro na compra do leite e pão, e outras necessidades. Na quarta, não conseguiu dinheiro emprestado para fazer o jogo. Vendo chegar o último dia das apostas, fez a mulher tomar emprestado com a vizinha, colegas de costuras. Na quinta para sexta-feira, último dia, sonhou com seus dois filhos brigando e, por mais que tentasse apartá-los não conseguia, voltando a brigarem novamente. __ Vai dar galo e cachorro. __Pensou consigo Gerônimo. Mais que depressa, foi à banca, preencheu outro cartão, trocando os números do cartão feito em conjunto, para treze e cinco, galo e cachorro respectivamente.
Na Segunda- feira, dia do sorteio, a esposa ligou a televisão preto e branco e foi assistir .Por sua vez, filhas e noras como donas de casa, fizeram o mesmo. Cada bola sorteada a expectativa aumentava. Faltando três números para terminar, começaram ficar nervosas.
Sorteado os três últimos números não acreditavam. Era muita felicidade, não sabiam se riam ou choravam de alegria. A esposa correu ao orelhão e ligou para as filhas para se certificar da verdade. Os telefones tocavam, mas ninguém atendia, todas já haviam saído para se encontrarem e comemorar juntos. Jerônimo estava no serviço e nada sabia do que estava acontecendo. Telefonaram para ele, que havia saído para fazer entrega. Quando retornou deram-lhe o recado da notícia auspiciosa. Levou a mão na carteira e foi conferir o cartão, qual não foi sua tristeza.__ E agora como iria enfrentar a todos?
Foi para casa imaginando uma desculpa e uma maneira de consolar a família. Desceu do ônibus, e da portaria do prédio ouvia a algazarra no apartamento.
__É seu Jerônimo, agora o senhor vai deixar a gente e morar numa mansão e não vai mais ligar pros amigos.__ Brincou o porteiro
__ Porque seu Carlos? quis saber
__O senhor não ganhou na Sena? No seu AP tá maior festa.__ O senhor ganhou e tá montado na grana.
Com ar de tristeza Gerônimo respondeu:
__Tô não amigo, continuo o mesmo pobretão de sempre.
O porteiro sem entender as explicações, e o motivo de tanta tristeza, fez ar de muxoxo e entrou. Jerônimo subiu as escadas em passos lentos querendo que o tempo não chegasse. Abriu a porta, e quando entrou, foi aquela festa, todos querendo abraça-lo.
__ O que é isso? Que festa é essa? __ Ganhamos meu bem __disse a esposa.
__ Estamos ricos papai__ completou a filha, e todos presentes.
. Para tristeza de todos respondeu:
__Não ganhamos nada, eu modifiquei o jogo, taí,
Jogando o cartão em cima da mesa entrou para o quarto. A esposa teve uma crise de choro, acompanhada das filhas e desabafou:
__ Desgraçado, você é pobre até de espírito, nasceu mesmo foi para viver na miséria.
A gritaria e alegria se transformou em silêncio e acusações, e começaram a sair sem se despedirem. Nesse meio tempo Jerônimo voltou-se e disse interrompendo todos:
__ Esperem, ninguém vai sair daqui sem primeiro me ouvir. Ainda não era o nosso dia de ficar rico, e talvez não chegue nunca. Na pobreza construímos uma família à trancos e à barrancos, mas sobrevivemos unidos e vocês sempre foram felizes. Vejam que a discórdia começou antes mesmo do dinheiro chegar em nossas mãos. Se ganhássemos, começaríamos mudar nossos hábitos, nossos amigos, vocês iam querer de tudo que não tiveram e sonharam, cada um queria ter seu carro, íamos ficar sobressaltados com medo de ladrão.
__ Eu preferia assim, que ficar nessa miséria.__ Interrompeu a filha mais velha__ O senhor sempre teve queda para pobreza, já viu que sempre foi esse Galo que nos atrapalhou? Lembra-se que com essa são duas vezes, a primeira nos tirou no último minuto, e agora o senhor pelo fanatismo troca pelo treze os números de ganhar.
__ Nada disso, não chegou nossa vez, e quem quiser me aceitar assim bem, se não, não precisam mais vir aqui__ E você mulher, se quiser me aceitar como sou, continuo, se não quiser, hoje mesmo saio de casa,__ criei vocês com amor carinho e tolerância, não pude dar tudo, mas criei vocês dentro do padrão da maioria dos brasileiros.
__Sogrão, não precisa de drama, somos os mesmos pobres de sempre e vamos continuar a mesma família, nós te amamos do mesmo jeito.
Abraçou-o seguido da esposa, filha caçula. O silêncio foi total quando de repente desataram em risadas e ensaiaram em coro:
__ Jerônimo é um bom companheiro.. Jerônimo é um bom pobretão, Jerônimo é um bom pai, Jerônimo é um bom sogrão e um bom vovozão.. ão.. ão...Jerônimo é um bom amigão..
Correram todos a abraçá-lo e continuaram a mesma família pobre, com suas diferenças e vontade de ficar rico, como todo ser humano, mas felizes.

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