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Conto
 
ARREPENDIMENTO TARDIO
Por: Suely Braga


ARREPENDIMENTO TARDIO
O trem apitou. Ele olhou através da janela e avistou a estação. O trem parou resfolegando como uma besta cansada. Ele precipitou-se para fora do carro, saltou para a plataforma. Respirou o ar que cheirava a folha seca. Pegou a mala, embarcou no táxi e pediu ao motorista que o levasse a um hotel modesto. Enquanto o automóvel rodava pelas ruas estreitas, calçada de paralelepípedos subia e descia ladeiras, ele olhava o casario iluminado. Observou que a cidade não mudou muito e permanecia ainda com o aspecto de cidade interiorana. Ao passar pela praça ficou admirado com as árvores enfeitadas com luzes coloridas pisca-piscando e o majestoso pinheiro ao centro, luzindo com estrelas faiscantes. Anjos pedurados nas árvores e um Papai Noel gorducho de tamanho natural.
Chegou ao hotel, desceu e entrou na porta de vidro.
Na recepção um rapaz alto, magro, vestindo um uniforme azul escuro, esboçou um largo sorriso e perguntou:
“O que deseja senhor?” “Um apartamento de solteiro. Ele.apresenttou-lhe uma ficha e pediu documentos.
Entregou-lhe a chave e pegou a mala. Subiram a escada de madeira e seguiram um longo corredor, parando em frente ao número 28. Ele abriu a porta e entrou. O apartamento era pequeno e simples. O mobiliário consistia na cama, um armário de duas portas e um criado mudo. Pendurado um ventilador de teto. Tudo muito limpo. Despiu-se. Tirou da mala a camisa branca, a calça e o paletó bege e uma gravata vermelha. Entrou no banheiro, abriu o chuveiro, deseixou-se relaxar na ducha fria. Com a toalha enrolada na cintura escanhou a barba na frente do espelho redondo. Sorriu para si. O rosto enrugado, olheiras que embaçavam os olhos negros. Penteou os bastos cabelos grisalhos. Pensou com tristeza como o tempo deixa marcas irrecuperáveis nas pessoas. Aquele homem garboso e conquistador já não existia mais. Pensou em Cristina tão meiga, tão carinhosa, tão apaixonda. Como fora imbecil em trocar o amor de Cristina, da filha de seis anos, uma linda menina, abandonar o emprego de escriturário no maior cartório da cidade e acompanhar
aquele circo, movido pela paixão da bela trapezista! Como pode embarcar naquela fatídica aventura?Depois de longos anos perambulando de cidade em cidade aconteceu a tragédia, a morte de Naná, a trapezista. Abandonou o circo e sua vida transformou-se numa peregrinação em busca de emprego. Nunca teve coragem de voltar a procurar Cristina. Quinze anos se passaram sem notícias. Agora com um bom emprego fixo na cidade de Florianópolis resoveu aparecer.
Vestiu-se, pefumou-se, penteou os cabelos e desceu apressado as escadas.
Comçou a andar, atravessar as ruas pouco movimentadas. A noite maravilhosa, o céu estrelado e o clarão da lua cheia. Procurou acalmar-se. Continuou a andar pela estreita alameda. Quando viu estava parado diante do portão de ferro 215. Espiou por entre as grades
e avistou no fundo do jardim a vivenda colonial com a grande área coberta de flores pintada de cor amarelo claro com janelas marrons..Teve um contentamento indescritível, uma saudade por verificar que a casa permanecia a mesma, resistindo ao tempo.Parou diante do portão indeciso, angustiado.A casa estava toda iluminda.Fazia calor.O janelão ao lado estava aberto com as corinas recuadas.Os acordes de Noite Feliz se faziam ouvir ao som de um violino e um piano.Ele entrou em direção à janela.Escondeu-se atrás de uma trepadeira e aproveitando as sombras da árvores espiou para dentro.
Na varanda várias pessoas reunidas. A mesa grande preparada para a ceia natalina. No balcão ao lado champanhas, taças de cristais à espera dos brindes. O pinheirinho enfeitado, as crianças pulavam e dançavam ao redor do Papai Noel que distribuia brinquedos.
Uma elegante senhora de uma beleza madura ao lado um homem alto, grisalho colocava o braço carinhosamente sobre os ombros da dama,conversando animados com os convidados. Reconheceu Cristina. Parecia que para ela o tempo não lhe deixara marcas, tal era o viço que aparentava.Um casal jovens abraçados,alheio aos visitantes, trocavam carinhos.Os traços da jovem não deixavam dúvidas de que era sua filha Rosane, que a abanodonara aos seis anos.Não conteve a emoção e grossas lágrimas rolaram no rosto moreno.Suas mãos começaram a tremer, as pernas tremiam,todo o corpo tremia como se estivesse sendo açoitado por um vento forte. Houve um rápido momento em que deixou de sentir o corpo e ali ficou como se estivesse suspenso no ar, como se o chão lhe fugisse dos pés.O coração oprimido no peito parecia ter parado de bater.Um torpor apoderou-se dele.Queria sair dali, correr para longe daquela casa, mas suas pernas não obedeciam.Sentou-se na relva do jardim e com o rosto entre as mãos chorou copiosamente.
Não, não podia entrar naquela casa, estragar a festa, chocar a mulher que sempre amara a filha que não conhecia. Não tinha direito de pertubar a harmonia daquela família, que não lhe pertencia mais. Era um intruso, um ser abominável. Tudo acabado sem esperança.
Levantou-se cambaleante, afroxou o nó da gravata, tirou o paletó e saiu pelo portão sem olhar para trás. Alcançou a rua com passos trôpegos. Perambulou sem destino, sem rumo pelas ruas e alemedas da cidade como um autômato, um sonâmbulo. Já sem forças para andar sentou-se num banco da praça com o corpo dolorido, a cabeça rodando. Esperou até o dia amanhcer.

SUELY BRAGA
OSÓRIO, 19/01/2014.


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