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Sátira
 
Bolinha de gude
Por: Marlene A. Torrigo

Bolinha de gude
Por: Marlene A. Torrigo

Todas as religiões (e seitas) foram criadas pelo homem. (Napoleão Bonaparte)

Toda vez que eu vejo alguém lendo um livro busco, curiosa, acercar-me para descobrir título e autor. E quase sempre acerto, autoajuda! São livros comerciais, endereçados a um público padrão. Oratória para místicos.
Autoajuda, autoajuda, autoajuda! Em toda parte, autoajuda! Sim, eu também escrevo e leio autoajuda, afinal tudo é sinônimo de autoajuda, até textos bíblicos, como exemplos, os Salmos e os Provérbios – que, confesso, gosto muito de lê-los vez por outra.
O que deveras me intriga é constatar que tudo é direcionado a fazermos isso e aquilo; que devemos seguir em frente, jamais às paralelas; que façamos assim, jamais do nosso jeito.
No meu jeito por vezes meio rude de questionar certas coisas, questiono: Por que quase todos que escrevem e pregam autoajuda, posicionam-se fora de contexto, postando-se como donos da verdade absoluta da vida e da morte? Tudo é dando lição de vida e de moral para leitores ou ouvintes. Nunca a si. Colocam-se como protótipos de caráter íntegro, honesto, isentos de absorver filosofias alheias.
Nós podemos, nós faremos, nós iremos; pondero que assim que deva ser. Quem gosta de ler e apreciar boa leitura sente-se robotizado com tanta autoajuda. Já não somos donos dos nossos próprios passos, das nossas próprias ideias e ideais, das nossas próprias filosofias de vida. Estamos todos a absorver autoajuda de reles mortais.
A autoajuda tem até um propósito bom. O que estraga será darmos atenção demasiada àqueles que visam lucros comerciais, porque sabem que pessoas exacerbadamente místicas lhes enchem os bolsos.
Há coisa de vinte anos, eu busquei ajuda com uma psicóloga, que me fora indicada pela psicóloga de um dos meus filhos. Que bom! Eu iria desabafar com alguém que não sairia contando as minhas mazelas para o planeta todo e adjacências. A triagem transcorria bem. Admirei a inteligência da moça, mas, de repente, percebi que ela tentava me infligir as suas crendices no intuito de neutralizar, dessensibilizar meu jeito de ser. Disse-me ela: “Não estou tentando te induzir a nada, só estou sugerindo.” Ora, sugerir e induzir... Pra mim dá no mesmo. Uma vez que estou sugerindo a leitura de um livro para uma pessoa, estarei induzindo-a a lê-lo, certo?
A partir do desvio de conversa da mestranda eu sabia que ali não mais retornaria, mas mantive-me educada e atenta àquela ladainha. Induzir Marlene à uma seita? Errou feio! Ora, agarre-se a ao sobrenatural quem quiser. De minha parte prefiro manter os meus pés bem assentes no chão. O máximo possível, enquanto puder – embora, às vezes, até eu descubro-me acreditando no que não quero acreditar.
Fim de consulta, saí da sala com um livro de autoajuda em mãos. Senti-me ludibriada. Ainda mais por uma consulta pela qual paguei. Retornei à primeira psicóloga e falei que eu soubesse que sua amiga tentaria me levar na conversa... E dei-lhe o livro, já na quinta edição, com o qual a outra me presenteara, o qual só li a contra capa. Foi o suficiente para não ler mais nada.
Como profissional de enfermagem, sei que não devo de forma alguma induzir um paciente às minhas convicções. É regrinha básica. Prestar apoio psicológico sim, contudo, induzir a pessoa para fazer um despacho nebuloso numa encruzilhada, aí, ai!
A terra é uma bolinha de gude se comparada às superestrelas, e nós somos partículas ínfimas de poeira no Universo. Sabedora disso, que eu continue a me crer como me creio; ora crendo em nada, ora crendo em tudo. E quando eu digo que creio em tudo, isto quer dizer que creio até em Papai Noel dirigindo seu trenó puxado por renas, certo de novo?

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