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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Coronavirus
 
O vazio destroçante das palavras
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



Para quem dizia que os excessos verborrágicos do atual Presidente da República, durante a campanha eleitoral que o elegeu, eram apenas jogo de cena para inflamar e conquistar apoio, agora... A vida comungada socialmente requer discernimento quanto aos protocolos, às regras, as etiquetas; especialmente, quando se está investido de autoridade e poder.
O voo alçado de pessoa física a pessoa jurídica institucional não é pouca coisa e não permite desconstruir o rito por mera vontade arbitrária. Nas entrelinhas do símbolo representativo há muito em jogo. Credibilidade. Respeitabilidade. Acessibilidade. Governabilidade. Enfim... Esse pode ser um campo minado se não souber por onde pisa. E não é com a descompostura, a deselegância, a vulgaridade desmedida que se afirma ou reafirma uma posição.
Enquanto tudo se faz constrangimento e vergonha, o pior está lançado ao esquecimento. Cada dia mais me convenço de que o COVID-19 é só um alerta do que ainda está por vir; a primeira, de tantas outras “Caixas de Pandora”1. Do mesmo modo que ele emergiu entre nós, quem garante a impossibilidade de outras mazelas cumprirem o mesmo caminho? Cada dia mais o mundo vive as incertezas do imponderável.
A fúria resistente, que impede a humanidade de ser mais atenta e responsável consigo mesma, vem abrindo espaços e possibilidades desastrosas com velocidade. As condições de sobrevivência humana estão em franco processo de deterioração, porque o essencial foi sendo negligenciado em nome da produção, do consumo e da acumulação de riquezas.
O que se discute nesse momento, ao redor do mundo, em torno do controle pandêmico do COVID-19, se aplica a outras tantas epidemias que circulam concomitantemente nesse momento e esbarram nos mesmos obstáculos. Aglomerações. Insalubridade urbana. Ausência de saneamento básico e água consumível. Proliferação de vetores. Insuficiência médico-hospitalar e logística. Desigualdade social... No entanto, o silêncio proposital parece escondê-los como uma cortina, um véu de densa fumaça inebriante que entorpece e paralisa qualquer tentativa de ação.
Eu fico pensando, então, será essa a sina a partir de agora, aguardar uma “vacina” toda vez que uma catástrofe sanitária nos atingir? Pelo menos em relação ao Sarampo, a Tuberculose e a Febre Amarela podemos dizer que os resultados não são bem os esperados. Afinal, embora existam vacinas para essas doenças há um boicote social em torno da prevenção, impedindo o avanço da imunização e permitindo que muitos venham a falecer por isso.
Além do mais, se para doenças a Ciência empenha esforços diversos para mitigar os sofrimentos, para a Economia o mesmo não se aplica. Cada tsunami dessa envergadura, que solapa o terreno, retira da população um punhado considerável da sua esperança e dignidade. De modo que outras fronteiras do cotidiano já sofrido são afetadas quase que decisivamente. Sem contar o peso moral, emocional e afetivo que uma catástrofe nessas dimensões pode atingir o ser humano em seu cerne mais profundo.
Pois é, vejam que nem mesmo assim houve consenso para se fazer brilhar o bom senso e o espírito coletivo e humanitário. Ninguém ali, naquele local de trabalho, parou de hipertrofiar o ego, de extravasar o denso palavrório chulo, de celebrar o caótico infortúnio. Nem se lembraram das razões que os levaram até lá. Nem se lembraram de que ainda eram humanos. Nem se lembraram...
Mas deveriam. Como escreveu José Saramago em seu livro As intermitências da Morte (2005), “é assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra”. Viver é só uma abstração diante do fato de que não somos apenas estamos. Tudo é efêmero o suficiente para esvair como areia entre os dedos. Cada momento precisa, portanto, ser valorado, dignificado, honrado, para que não deixe um rastro triste, melancólico e sombrio, como se tivesse sido... em vão.

1 https://www.hipercultura.com/caixa-de-pandora/

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