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Conto
 
Ene a o Tio
Por: Mark Brunkow

Ene a o tio

Não sou bonito, não sou alto, não sou magro, não tenho olhos azuis, não tenho cabelo liso, não tenho religião, não gosto do Lula, não gosto do Serra, não gosto do Ciro, não gosto do Garotinho mas gosto das garotinhas. Não tenho mais vinte anos, mas também não cheguei ainda aos trinta. Não tenho a vida inteira pela frente. Não tenho mais minha virgindade nem minha ingenuidade, tanto a sexual como a espiritual.
Não sou formado, não passei no vestibular o que não é assim uma coisa tão ruim, afinal não sei o que quero fazer de minha vida. Não consegui ser poeta, pois não consigo enxergar o mundo com sensibilidade ou sutileza. Não sou músico, não tenho talento.
Não sou escritor, não sou bom com a língua portuguesa ou qualquer outra língua, na verdade acredito até que tenho uma língua morta. Não sou feliz, mas também não sou triste, apenas sou.
Não gosto de meu trabalho, mas não quero ficar desempregado. Não gosto do calor, mas detesto o frio. Não sou inteligente, mas não me considero burro. Não sou o melhor em nada nem ruim em tudo. Não vivo como eu quero, mas não permito que a vida dite meu caminho.
Não tenho filhos, pelo menos que eu saiba. Não sou bom de cama. Não broxei, “isso nunca me aconteceu”. Não quero ser comum, igual, semelhante a ninguém, mas não quero ser visto como um estranho, esquisito, diferente a todos.
Não sou carioca, mas sou caricato. Não tenho carro. Não tenho casa. Não tenho medo de ser corajoso, mas não tenho coragem para demonstrar meus medos. Não sou vegetariano. Não faço três refeições ao dia. Não lavo as mãos depois de ir ao banheiro. Não escovo os dentes após cada refeição. Não respeito dias santos.
Não conheço o mundo. Não viajo. Não jogo futebol. Não faço regime. Não confio no ser humano. Não sou soteropolitano, pois não sou baiano. Não assisto ratinho. Não pratico esportes. Não fumo cigarro. Não acredito em verdades absolutas, mas em mentiras bem contadas. Não bebo destilado nem do outro, só cerveja.
Não compreendo a fome, a injustiça, a miséria, a hipocrisia, o analfabetismo, a matemática. Não quero ser marginal muito menos formal.
Não vou a velórios, missas, palestras, comícios, aniversários, casamentos, batizados, mas vou na zona. Não aprendo com facilidade, mas não esqueço facilmente.
Não fujo as minhas responsabilidades, pois não assumo nenhuma. Não sei qual ou quando disse minha primeira palavra, mas provavelmente tenha sido não. Não pise na grama. Não fale palavrão. Não use drogas. Não coma de boca aberta. Não fume. Não beba. Não faça sexo sem camisinha. Não coma antes de dormir. Não faça xixi na grama. Não corra pelado. Não arrote em público. Não peide na frente, ou atrás, de estranhos. Não minta.
Não sei quantas vezes usei a palavra não nesse texto e talvez seja por isso que não sei como terminá-lo. Por isso não usarei minhas palavras para isso. Usarei Fernando Pessoa que por sinal não era brasileiro, mas português. Não sei também quando ele as escreveu, mas não tenho a menor dúvida de que são tão atuais como se ele as tivesse escrito hoje.

“Na vida não conheço ninguém que tenha levado porrada, todos são semideuses”.

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