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Conto
 
INSTANTES DA VIDA REAL (XXXVI)
Por: Nelson de Medeiros



Já passava dos quarenta dias que Adamastor não dava as caras na rua. Era prisioneiro em sua própria casa. Mas, naquele dia precisou sair para resolver umas pendências, ver umas coisas que não tinham outra maneira senão presencialmente. Bancos, Fórum e coisas assim.

Paramentou-se com todo o cuidado que a situação pandêmica do mundo estava a exigir do bom senso de cada um, em que pese o povo da terra Tupiniquim, onde mora Adamastor, ser ignorante em grande parte, seguir conselhos de um beócio que comandava aquela terra. Sozinho o neofacista – pois que assim diziam - conseguira tumultuar sozinho os três setores que são a base de qualquer governo democrático.

Adamastor, como se sabe, era um cara simples, às vezes até simplório; tinha a mania de acreditar nas pessoas de bom senso, cria na ciência, por exemplo, que determinava um protocolo de afastamento social, do uso de máscara do rosto, da higiene pessoal etc. e, na solidariedade que sempre deveria haver em situações que tais.

Nem de longe passava por sua mente que poderia alguém se aproveitar de tanta desgraça para levar vantagem. Pelo menos na cabeça dele. Vantagem? Só para ele, o grande comandante.

Pondo-se, então, a caminho para resolver seus problemas inadiáveis, entrou primeiramente no banco e observou que nem todos usavam máscaras. Muitos até se aglutinavam nos caixas eletrônicos, e, outros até se abraçavam como nos velhos tempos, tempos em que o mundo era diferente.

Adamastor ficou matutando e observando estes ignaros e buscando o melhor nas pessoas, como buscava sempre, imaginou que eles se haviam acostumados a um padrão social de vida que jamais voltaria. E, inconscientemente não queriam crer nisso e fingiam que tudo estava normal. “Tudo como d! antes no Quartel de Abrantes”, como dizia minha mãe.

Deveriam consultar um psicanalista, psicólogo ou algum profissional do gênero, pensou. Esses sempre tem uma solução pra este tipo de pessoa que não quer viver a realidade. Preferem se enclausurar no passado que lhes convém. A mente tem este poder disse, se não me engano Freud, ou não.

Depois se dirigiu ao Fórum onde passava bom tempo de seu dia. Movimento muito pequeno, mas viu um grupinho de colegas em reunião estapafúrdia no estacionamento dos “doutores” criticando veementemente a falta de abertura daquela casa de justiça ou que deveria ser.

Viu no portal de avisos que o atendimento presencial estava proibido e os prazos dos processos suspensos. Prejuízo, mas antes a saúde, pois como já disse alguém “saúde é que interessa o resto não tem pressa”. Fora um personagem da televisão que bradava este bordão na Escolhinha do Professor Raimundo e que Adamastor achava chatíssimo, sem talento nenhum. Mas, agora via que ele tinha razão. Voltou para o seu carro e saiu pensando em voltar para casa rapidamente, e hibernar junto ao computador e celular.

Mas, ao longo do caminho foi vendo mais e mais pessoas completamente sem qualquer respeito à doença que já matara mais de cincoenta mil na terra Tupiniquim. Andavam em grupos, e faziam filas frente a “camelôs” e lojas de entretenimento. Muitos sequer usavam qualquer tipo de proteção e sequer mantinham distancia entre eles.

Em seu espanto por ver cenas que tais, numa parada de sinal perguntou a um desses andantes: Você não tem medo do corona? Em resposta lhe disse o transeunte: “Ora, não viu o que o presidente disse que isto não existe e que se a gente pegar é só tomar “crorocrima” que sara?”.

Adamastor não entendeu bem, pois já sabia que tal remédio fora declarado no mundo inteiro como ineficaz. Mas, como todo o resto do mundo estava errado e só o presidente da terra Tupiniquim estava certo...

Seguiu seu caminho pensando na história da civilização e nas vezes em que um lunático, mestre da psicopatia, destruíra seu próprio povo. Lembrou-se do imperador Nero que tacara fogo em Roma e mandou matar a própria mãe, mas, botou a culpa do incêndio nos cristãos e os dizimou.

Adamastor gostava de historia antiga, e, foi se lembrando de outros déspotas criminosos que dizimaram seus países e acharam um culpado.

Na Alemanha Hitler, outro megalomaníaco -tão covarde que suicidou- querendo ser o imperador da “raça ariana” dizimou seu povo botando a culpa nos judeus. Adamastor dando asas às suas lembranças das aulas de história antiga lembrou que Mussolini tresloucado parvo, fascista que se intitulava o “comandante das legiões” levou a Itália a uma derrocada inesquecível. Culpara a burguesia e defendeu o totalitarismo que resultou na morte de grande parte do povo. Stalim na Rússia escravizara sua gente com a implantação do comunismo e culpava a democracia com suas liberdades individuais.

Adamastor, já chegando, parecia aliviado, pois no Brasil, pais que ele tanto admirava e que seria num futuro próximo a “A Pátria do Evangelho” segundo uma filosofia espírita, nunca ficaria na história por ter vilão assassino como teve na Alemanha, Itália e Rússia que até hoje são lembrados no mundo pelos aloucados pensamentos de seus líderes.

Mas, o rádio do carro que dava notícias sobre o numero de mortes que aumentava dia a dia, por falta de vontade política, chamou-lhe à realidade.

Viu num relance futurístico que seu presidente neodemocrático como sempre foi o regime no país, mas inteiramente aloprado seria lembrado também como aqueles outros, e ficaria registrado nos anais na história como o assassino do povo pobre, que era a maioria na Terra Tupiniquim. Culpava a ciência por sua maluquice, psicopatia e megalomania pelo descaso com o vírus que assolava e dizimava seu pais.

Ele chorou sem esperanças. Entretanto era simples, sem muita maldade nas coisas, e, muito observador percebeu que aquele dia fora o dia do cala a boca que o governante estava dando ao povaréu. Umas merrecas para tentar se aproximar mais ainda do poder permanente.

Então, dai para frente ele viu que sempre que caia a minguada ajuda para o povo comer, as ruas do comercio enchiam, não os supermercados, mas, as lojas de eletrodomésticos, de roupas, de calçados... As lanchonetes espalhadas pela cidade se enchiam. E todos se aglomeravam até o dinheiro acabar.

Lembrou-se do filósofo francês Joseph-Marie Maistre que ficou conhecido na história ao dizer que “cada povo tem o governo que merece”.

30/06/2020

Nelson De Medeiros

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