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Haroldo Pereira Barboza
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Humor
 
A troca
Por: Haroldo Pereira Barboza

A troca

Ferreti sempre jogou futebol pela ponta direita. Não chegou à série A
devido à sua forte personalidade em não se sujeitar às artimanhas de
empresários nem sempre confiáveis. E também não se sentia bem em
seguir as normas de horários rígidos para alimentação, treino, descanso e
outras exigência feitas a atletas de ponta.

Seguiu a carreira de Veterinário e casou-se aos 25 anos. Mas aos domingos
(mesmo com chuva) participava dos torneios realizados em sua cidade no
interior de São Paulo.

Em média, a cada 10 partidas fazia 12 ou 13 gols com sua certeira perna
direita. Com chutes bem colocados, sem violência. Por isto conseguiu em 15 anos, 9 taças de campeão e 10 medalhas de artilheiro dos torneios anuais.

Na final realizada antes do último Natal, seu time precisava empatar para tornar-se campeão. O estádio estava lotado, com quase 1.952 pessoas.

O time visitante começou arrasador. Fez três gols em 30 minutos. A partida
parecia perdida. Mas a estrela de Ferreti deu um lampejo e ele finalizou
duas vezes para dentro da baliza adversária.

O primeiro tempo terminou com a torcida (uns 50 que foram embora,
pagaram ingresso de novo para entrarem) voltando a ter esperanças.

No início do 2° tempo o time visitante fez 4 x 2. Mas Ferreti marcou mais um gol aos 38 minutos.

Aos 44 minutos, o beque adversário meteu a mão na bola quase em cima da linha fatal. O árbitro marcou o penalty incontestável sem reclamação de
nenhum jogador da equipe visitante.

Gil, o capitão da equipe da casa, batedor oficial de penalidades, pegou a bola para efetuar a cobrança. Mas a galera entusiasmada, começou a berrar em coro:
“Ferreti, Ferreti, Ferreti”!

Gil entregou a pelota ao ídolo da cidade. Ferreti colocou a bola com
carinho na “marca da cal”. Quase trinta segundos de uma cerimônia
cívica. Neste instante, o goleiro adversário aproximou-se do atacante
e sussurrou-lhe algo perto da orelha direita com o objetivo de deixa-lo
nervoso. Para aprofundar o mistério, Ferreti, com a calma que lhe é
peculiar, devolveu outro cochicho.

Quando a bola furou a rede decretando o empate, a galera invadiu o
gramado e o árbitro (com bom senso) decretou o fim do jogo.

Ferreti foi carregado nos braços da torcida até o palanque onde o
Prefeito da cidade entregou a taça ao capitão Gil. Puxou Ferreti para
o lado e perguntou qual foi o colóquio que antecedeu a batida do penalty.

- Ele veio me dizer que já tinha jogado contra mim mais de 8 vezes e que
já sabia onde eu mandaria a bola.

- E o que você respondeu?

- Eu disse que então bateria com a perna esquerda, cuja potência é
elevada mas a direção nem eu mesmo sei! O roupeiro me disse que ela
caiu no chiqueiro do outro lado da rua.

Haroldo - RJ / agosto 2020





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