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Conto
 
VIAGEM DOS SONHOS
Por: Afonso e Silva



TRECHO: BRASÍLIA-BELO HORIZONTE

Tudo não passava de uma vontade louca de voltar ao lugar onde nasci para matar a saudade de rever meus parentes e principalmente minha queridíssima mãe Mariinha. Encontrava-me no cerrado goiano trabalhando na construção de Brasília. Isso lá no iniciozinho da década de 60. Peguei minha malinha de duratex, coloquei algumas mudas de roupa e materiais básicos de limpeza e higiene. Depois uma matula contendo uma marmita de feijão bago-bago com farinha e torresmo e um cantil com água. Não me lembro ao certo se embarquei na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, ou em Luziânia, cidade goiana, a 58 quilômetros da capital recém-inaugurada. Só sei que o ônibus era bem antigo, tipo Mercedes Benz bicudo. A lotação não estava completa, havia muitos lugares vagos, o que foi um alento saber, pois fiquei com a liberdade para fazer uso de dois lugares para espichar as pernas e, adicionalmente, uma janela para respirar ar puro e arejar o ambiente. Se o ônibus parou noutros lugares, não recordo, me lembro apenas ter parado em Cristalina, Paracatu, Três Marias e Cordisburgo. Não me esqueci desses lugares porque desci em todos. Depois de longa jornada, finalmente chegamos a Belo Horizonte e encontramos o sol ainda, de olhos cerrados. Para a saída de todos os passageiros, houve certo congestionamento na porta. Todos querendo sair o mais rápido possível. Era compreensível: ninguém agüentava mais! Contudo, para a entrega das malas demorou bem mais. No final, tudo deu certo, mas chegamos todos em verdadeiros cacos. Malinha na mão, matula pendurada no ombro e cantil na algibeira, exausto, danei a cassar o guichê da companhia, para comprar passagem para o destino desejado. Demorou um pouco, mas encontrei. Ao pedir passagem para o primeiro ônibus, o despachante me informou que o próximo seria às 10 horas. Eu respondi que estava tudo bem, mas ele emendou:
- Só que é do dia seguinte.
Quase cai de desânimo! Por uns segundos fiquei um pouco aborrecido e pensei desistir, mas depois duma viagem tão difícil, era melhor seguir em frente. Acabei até me dando por satisfeito.

Conformado e aliviado por ter lugar garantido no ônibus, fui ao banheiro e em seguida ao bebedouro. Fartei-me de beber água e aproveitei para reabastecer o cantil. Juntei meus poucos pertences, os coloquei sobre uma cadeira e sem tirá-los de vista, fiquei a zanzar em volta para esticar as pernas e fazer uma horinha a reparar o ambiente. De vez em quando arriscava ir um pouco mais adiante para ver e admirar os prédios da capital mineira, verdadeiros arranha-céus. Não tardou, bateu uma fome danada, o estômago roncava no vazio. O feijão com farinha, nem a Três Marias conseguiu chegar! Fui à lanchonete, comi um pão com manteiga e tomei um café com leite bem quente. Tinha que poupar, pois a grana era curta e ainda estava no meio do caminho. De bucho cheio sentei-me, pequei a malinha de duratex, pu-la no colo e fiquei a imaginar o roteiro a ser seguido no destino. Conjecturas variadas vieram à mente. Não demorou emborquei o corpo, pus a cabeça sobre a pequena mala e comecei a cochilar...


TRECHO: BELO HORIZONTE-VIRGINÓPOLIS

A viagem foi muito sacrificante. O lotação era um tipo jardineira adaptada com uma grade no teto, onde eram acomodadas as bagagens. A estrada de terra, no período de seca já não é fácil, no período das chuvas então, nem se fala! Lama demais, causadora de excessivos atoleiros durante todo o trajeto. Demorou bem mais que o esperado e só chegamos porque o motorista conhecia bem a rota, além de ser excelente profissional. Quando o veículo empacava, ele tentava tirá-lo do atoleiro, só acelerando. Algumas vezes conseguiu, mas a maioria delas, descia e acorrentava as rodas. Só assim tinha sucesso. Num desses atoleiros nem mesmo as correntes foram suficientes. Foi obrigado a pedir ajuda a um fazendeiro, que, prontamente emprestou uma junta de bois para puxar o veículo. Posso estar enganado como em todas as citações, mas acho que seu nome era Moacir Soalheiro ou o Lucas do tio Luís.

CHEGADA EM VIRGINÓPOLIS

O ônibus chegou à cidade de Virginópolis pela Rua da Várzea (trecho da atual Rodovia 259) e parou em frente à mercearia do Dirceu. Fui o primeiro a descer. Ao me virar para a esquerda, onde iniciava a Rua do Buraco avistei uma procissão de cachorros atrás de uma pessoa, mas não foi possível identificá-la, pois além de estar de costas enxergava apenas um pedacinho, já que estava a descer o morro. Contudo, penso não ser difícil imaginar quem seria. Tamanha foi a minha curiosidade que, ao invés de ir direto para o hotel tomar um bom banho e descansar, resolvi pedir ao comerciante para deixar os meus trens guardados num cantinho, em seu estabelecimento, até fazer uma caminhadinha para reconhecimento primário do local. Com educação, mandou que eu os colocasse no depósito, no subsolo. Desci e lá os deixei, conforme sua orientação. Só que ficaram no meio de uma diversidade tão grande de material que nem sei se os acharia de novo.

Saí em busca de matar minha saudade. Priorizei visitar a Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, onde fui batizado e crismado, e fazer uma oração, para, depois andar a esmo pela cidade. Fui descendo a Rua do Buraco para ver a procissão de cachorros, mas não vi nem eles, nem ninguém. A rua estava deserta. Continuei a descer o morro, deslizando sobre o cascalho. As primeiras pessoas que vi foram a Josefina e o Abel. Em seguida o Tica e a Olinda, que estavam entrando em casa e não me perceberam. Andando, pedi a bênção à Dona Neném, que estava na varanda e do outro lado da rua, cumprimentei Dona Colina, debruçada na janela e Dona Pina no terreiro. Segui e entrei na casa da tia Ana, que veio ao meu encontro. Abraçamo-nos demoradamente. Logo a seguir o tio Marinho, Zé, Crioulo e Luíza. Só não vi a Leda, seu esposo Odilon e o Inácio. Tomei café com biscoitos, conversamos muito e voltei. O morro, o qual havia descido deslizando, o subi com dificuldade, mas o venci. Andei um pouquinho e olhando para o lado direito, vi o Pedro Samalta, agachado. Parecia estar chorando, a juntar as notas que guardara por muito tempo no colchão e que agora nada valia por causa da troca da moeda, ocorrida em 1946. Naquele momento comecei a refletir sobre a serventia do dinheiro (2) . Peguei minha miúda bagagem, agradeci e fui para o hotel. Tomei um banho tão bom, como nunca tomado! Deitei um pouco e peguei no sono, mas não foi longo. Levantei, pus bermuda, camisa polo e saí. Resolvi vaguear pelas redondezas. Subi de novo as escadarias da igreja. Só que desta vez fui surpreendido pelo Padre Francisco, que disse:
- Peraí, rapazinho! Com esses seus trajes, não entrará na Casa de Deus!
Para ele, era sinal de desrespeito.
Abaixei a cabeça, fiz o sinal da cruz e bati em retirada.

Passei em frente ao Fórum e registrei a presença de um senhor magro e alto de cócoras com jornal na mão e outro, também alto, ao seu lado. Tive a impressão de conhecê-los, mas não me atrevi perguntar. O que estava de cócoras parecia ser o tio Luís e o em pé, o Zé Brogogé (eram irmãos). Aproximei-me dos dois e cumprimentei-os com apenas um bom dia e segui. Na dúvida, deixei pra lá, achei melhor certificar-me para depois, se houver oportunidade, começar um diálogo. Continuando a caminhada, passei em frente Cine Lili e vi um cartaz estampado, noticiando o filme “Marcelino Pão e Vinho”, com Pablito Calvo. Em frente ao cinema, estava um menino portando um tabuleiro todo furado, pendurado ao pescoço e uma espécie de guarda-chuvinhas enfiados nos furos. Eram pirulitos (conezinhos de papel, cheios com “puxa-puxa”). Comprei um e experimentei. O sabor era de jabuticaba. Gostei! Mais à frente, entrei no bar do “Beijo”, (o melhor fabricante de picolés e sorvetes da região) cumprimentei-o, pedi um picolé, de groselha, e saí apreciando-o, mas durou pouco! Virei no sentido do cruzeiro.

Passei em frente à casa do Galdino (ferreiro famoso da cidade), que estava forjando uma ferradura e dona Maria lá ao fundo, devia estar preparando a comida. Como eles estavam trabalhando e eu vagabundeando, fiquei com vergonha de incomodá-los, mas queria muito agradecê-los. Devo muito à família. Ajudaram demais a matar minha fome, da minha mãe e dos meus irmãos. Passei em frente à igrejinha velha (Sagrado Coração de Jesus), entrei, rezei e dirigi-me à casa da didinha Celina. Essa foi outra pessoa que somos muito gratos, pois também ajudou muito minha família. Como não se encontrava na varanda, possivelmente estaria a descansar e, como não escuta muito bem, nem a chamei. Para não perder a viagem, afanei do seu quintal dois araçás e continuei. Desta feita, em direção ao cruzeiro. O morro é íngreme, mas cheguei ao topo e valeu! Que vista linda! Aproveitei, fiquei um tempinho ali só eu e Deus. Momentos depois, respirando ar puro e contemplando a cidade, deliciei-me com os araçás roubados. Sentindo-me cansado, resolvi voltar à praça. Lá sentei e fiquei mais algum tempo de mente livre e, até àquele momento, muito reconfortado. Pensei sobre o próximo destino.

Decidido retomei a caminhada, sentido à Rua do Paquetá. Não andei dez passos e deparei-me com um garoto, de mais ou menos 6 anos, vendendo pastéis. O cheiro podia ser sentido de longe! Huuuuuu! Pareciam deliciosos! Eram mais ou menos 2 horas da tarde e até àquela hora, sem almoço, um pastelzinho viria a calhar. A cesta estava cheia e os pastéis ainda quentinhos. Perguntei quem fazia.
Ele prontamente respondeu:
- É Dona Cilica, Senhor.
Comprei um de queijo e um de carne. Agradeci e continuei a caminhada, degustando primeiro o de queijo. Na primeira mordida começou minha briga com o pastel:
Mais uma mordida, mas quanto mais arrastava o restante para longe da boca, o queijo quente ia se espichando até fazer um arco que quase chegava ao chão. Foi uma luta, mas valeu! Estava realmente muito bom! O segundo, dei a um senhorzinho que encontrei no caminho.
Passando em frente à cadeia, avistei o Cabo Dé e o soldado Zé Arantes, mas não mexi com nenhum deles. Sei lá! Pensei:
Vai que eles resolvem me prender?
Melhor não brincar! Polícia é polícia!

Mais à frente, quem eu vejo? Bié, Lavim e outros meninos jogando futebol na rua, fazendo de bola uma fruta-de-lobo. Encostei-me à sombra de uma árvore e fiquei observando por um tempão. Quando menos esperava, eles pararam a brincadeira e aguardaram a passagem de uma pessoa, que descia a Paquetá. Não sei seu nome, mas lembro-me apenas de que os meninos largaram o futebol e passaram a segui-lo, chamando-o de “Bené Catarrento”. Em seguida, recomeçaram a brincadeira, mas Bié, apontando o dedo para um lado da rua, gritou:
- O Tonico Doido está chegando!
Foi uma farra.
Ao passar pelo local, os meninos o seguiram, puxando-lhe pelas costas, as calças. Isso o deixava irritadíssimo e danava atirar pedras a esmo. Se não escondo atrás do tronco, uma das pedras me acertaria. Foi por pouco!

Continuei andando pela Paquetá...
Parei um pouco e fiquei espiando duas pessoas:
Um senhor rebocando um muro, enquanto outro preparava a massa.
Será o Tio Lalado e o Tio Tuco? Imaginei!
Não sabia ao certo.
Mais um pouquinho adiante, um senhor aplainando uma madeira. Pensei:
Será o Tio Dó?
Também não me lembrava!

Mais adiante, vi e cumprimentei a Dona Zelita, Neri e a Elza. Pouco mais à frente, vi uma turma de mulheres ao lado de outra que se encontrava numa cadeira de rodas. Pensei:
Será a Tia Côca? E as outras? A dindinha Dica, a tia Fina, a tia Di, a tia Ritinha e a tia Fiote?
Não me atrevi perguntar e segui.

Dirigi-me à casa de Dona Izaltina. A essa senhora, eu e meu irmão mais novo devemos nossas vidas. Nós dois temos a felicidade de termos duas mães. Essa maravilhosa pessoa, depois de minha MÃE MARIINHA que me deu à luz, é minha eterna MÃE DE LEITE. Foi ela quem me socorreu quando o leite de minha heroína genitora veio a faltar. Amo por demais as duas queridas MÃES. Agradeci e chorei muito em seu ombro e ainda soluçando, continuei meu caminho.

EPÍLOGO

Assim que comecei a subir o beco onde mora a vó Maria José, avistei grande grupo de pessoas em frente sua casa. Fiquei apreensivo e reduzi os passos, para ver se compreendia do que se tratava. Ao me aproximar veio, correndo ao meu encontro, uma linda menina. Pulou nos meus braços e me beijou. Abracei-a com imensa satisfação. Era a minha irmã caçula Dilma. Logo a seguir meu irmão Francisco. Abraçamo-nos forte, enquanto chorávamos copiosamente! Foi ele sair, veio a Fátima e a cena se repete. E depois, com Maria José, Juju e Neném, a mesma imagem. Ainda em soluços quase incontroláveis, consegui perguntar pelo Antônio. A resposta foi o silêncio de todos. Saí cabisbaixo e caminhei em direção à minha tão magrinha vó! Abracei-a longamente. Já com o coração dilacerado e quase saindo pela boca de tanta emoção, ameacei correr para dentro da casa da vó achando que a pessoa que realmente me levou de volta à cidade estava lá, senti um braço delicado em meu ombro. Virei para ver de quem se tratava, a mala caiu e, em Belo Horizonte, ficou comigo dentro!



(1) - Os fatos relatados guardam apenas algumas semelhanças que ficaram no nosso imaginário.
(2) - Essa estória foi amplamente difundida na comunidade, mas sem nenhuma evidência comprovada.

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