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Conto
 
ENCONTRO OPORTUNO
Por: Afonso e Silva


Certo dia estava na região central de Belo Horizonte aguardando o ônibus para voltar para casa. A linha não tinha ponto final. O coletivo circulava pelo centro e voltava para o bairro. O primeiro ponto para quem vai é também o último para a maioria. Ele fica na Avenida Amazonas entre a Rua dos Tupis e dos Tamoios, bem pertinho do Mercado Central. Suávamos em virtude do calor escaldante. A sorte é que ali se formava uma fila. Não tão bem organizada. Ela dobrava o quarteirão. A demora parecia anormal, bem superior aos dias anteriores. Alguma coisa aconteceu no caminho. Pelo menos uns vinte minutos se passaram. Todo mundo de olhares fixos para a Praça Raul Soares. Até que finalmente o ônibus apontou. Foi possível ver o ar de alívio de todos. Assim que o ônibus parou muitos furaram fila. Reclamações sucediam, mas não adiantava. Mesmo sob veementes protestos, os mal educados subiram. Eu estava bem atrás de um senhor que devia ter uns setenta anos. Mesmo nessa idade aguardou chegar a sua vez para entrar. Ele subiu, eu também. Os lugares reservados aos idosos estavam todos ocupados por pessoas jovens que viravam para o canto e fingiam dormir. Outros abriam o jornal ou livro e abaixavam a cabeça para ler. Alguns, alheios a tudo e a todos, com fone de ouvido escutavam músicas. Na parte de trás do ônibus ainda havia alguns lugares disponíveis. O senhor, ainda que tivesse o direito de viajar de graça, passou pela roleta, pagou e se sentou. Naquele tempo, idoso não tinha direito à gratuidade. Eu o segui e me sentei na poltrona ao lado. Não tardou ele puxou conversa e passamos um bom tempo conversando sobre o caos urbano, política e futebol. Nas paradas que se seguiam foi entrando mais passageiros. No terceiro ponto já não cabia mais ninguém. O ônibus estava abarrotado. Mesmo assim algumas pessoas se arriscaram e, num empurra-empurra sem trégua, acabaram entrando. Andamos um bom tempo com a porta aberta. Paramos de conversar, pois os passageiros em pé fecharam a comunicação entre nós. Um homem se acomodou ao meu lado. Exalava um odor insuportável de cigarro. Quase levantei e lhe cedi o lugar, mas estava muito cansado e achei que seria um desaforo. Suportei. Do lado do senhor idoso, bom de prosa, parou um homem de terno e gravata e por lá ficou. Algum tempo se passou e o velhinho olhou para cima e perguntou ao engravatado:
- Desculpe-me senhor, não tenho nada com isso, mas porque continuas a usar esse terno, dentro desse ônibus empilhado de gente e, ainda mais, nesse calor infernal? O engravatado baixou os olhos, mirou bem no autor da pergunta e respondeu:
- Sabe meu senhor, sou obrigado a usar terno porque sou advogado e a viajar de ônibus porque o preço do estacionamento é maior que a maioria de minhas causas. Satisfeito?
O velhinho olhou para ele e respondeu:
- Vou ser franco com o senhor: por um lado estou muito decepcionado com os preços das coisas, mas por outro nem tanto, pois estou a necessitar de um profissional para rever minha aposentadoria. Quem sabe poderias resolver um problemão para mim e outro, nem tanto, para o senhor? Pode me fornecer seu cartão?
O advogado repassou-lhe o cartão e não demorou acertaram as condições. Passados alguns dias a questão do contratante estava resolvida. E olhe que a soma da causa rendeu um bom dinheiro tanto para o aposentado, quanto para o advogado. Só que só teve um que solucionou sua questão, pois os preços de estacionamento e combustível atingiram patamares estratosféricos. Resultado: o advogado continuou a fazer seu deslocamento diário nas latas de sardinha na esperança de encontrar outros clientes durante as viagens.

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