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Crônica
 
TAMBÉM MORRE QUEM ATIRA
Por: Valdir Sodré



A canção popular Hey Joe foi escrita pelo músico norte-americano Billy Roberts em 1962, destacando que a versão musical mais conhecida foi cantada por Jimi Hendrix em 1966. Fontes de analistas musicais afirmam que Hey Joe conta uma história de um homem que planeja uma viagem para o México após atirar em sua esposa.

A canção Hey Joe se tornou um ícone do rock com diversas versões no mundo. No Brasil, a banda de rock carioca O Rappa idealizou uma versão em português para o álbum Rappa Mundi. Nos versos da canção em português determinantemente nos chama a atenção o refrão entoado na estrofe “também morre quem atira”.

Essa canção de protesto nos faz refletir sobre o armamento da população como forma de proteção a todo processo de violência que existe, de ser uma solução plausível para todos nós que estamos acuados e em evidência ao modelo criminoso de uma sociedade injusta, desigual e vitimada socialmente.

No Brasil, o presidente Bolsonaro já editou mais de vinte atos alterando as regras sobre armamentos. O mais recente autoriza cada cidadão a registrar até quatro armas. Comparativamente os novos registros saltaram de 3.000 em 2004 para cerca de 54.000 em 2019. A instrução normativa facilita a obtenção do porte de arma. Diferentemente da posse, que autoriza o dono da arma a mantê-la somente dentro de sua casa, o porte permite que ele ande com a arma pelas ruas.

Em 2019, os governos do mundo gastaram mais de 1,9 trilhões de dólares em armamentos, valor mais alto desde 1988, segundo o relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri). Em contrapartida, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimou ser possível eliminar a fome no mundo até 2030 com investimento de 239 bilhões de euros por ano. É impressionante o que se esconde por trás de tais cifras! É uma opção política. Afinal o que é prioridade nas ações políticas dos governos no mundo: adquirirem armamentos ou matarem a fome do mundo?

De acordo com as últimas estimativas, em 2019, a fome afetou quase 690 milhões de pessoas, ou seja, 8,9% da população mundial, relata o documento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), redigido com a colaboração do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Se a tendência continuar, estima-se que, até 2030, esse número excederá 840 milhões de pessoas. Isso significa claramente que o objetivo de erradicar a fome até 2030, estabelecido pela ONU em 2015 não está no caminho certo. Segundo o relatório, é provável que a recessão global causada pelo novo coronavírus leve à fome entre 83 e 132 milhões de pessoas a mais.¹

Definidamente não é possível deixar de refletir sobre a fome no mundo ao defrontarmos com a realidade conflitante do armamento dos cidadãos nas diversas cidades do mundo, além de também contrastar com o arsenal bélico das grandes potências mundiais sob a evidência de algum conflito de guerra.

Como não relembrar dos inúmeros atentados com uso de armas já ocorridos no Brasil e em diversas cidades ao redor do mundo. O porte de armas infelizmente já desencadeou inúmeras catástrofes em ambientes escolares. Afinal, por que as escolas são alvo escolhido por diversos atiradores?

Há um padrão dos atiradores verificado em massacres nas escolas em que inclui questões marcantes: o atirador geralmente acumula sentimentos mal resolvidos de frustração e de alienação social, associados a uma crise de masculinidade. Normalmente o atirador busca armas como uma suposta forma de se sentir viril, criando uma autoimagem de guerreiro. Geralmente, tem dificuldade de inserção social e, ainda que muitas vezes não tivessem praticado violência até então, acumula algum tipo de ressentimento agudo em relação à sociedade e comunidade onde viviam. Após a execução do ato de violência, normalmente suicida-se.

O armamento de cidadãos é uma faca de dois gumes e não é solução para o problema crucial da violência. A solução real está nas ações de políticas públicas que invistam efetivamente em campos sociais, sobretudo, em educação. Mesmo investindo em educação cerca de 5,7% do PIB, um percentual maior do que alguns países desenvolvidos, o Brasil gasta muito pouco por aluno. Os US$ 4.450 anuais destinados a cada estudante da rede pública são mais de 50% menor do que a média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Especialistas em educação afirmam que esse investimento é insuficiente para a real necessidade da população brasileira, pois ainda há uma significativa demanda a ser suprida em função de vários anos em que a educação não foi prioritária no Brasil.

Remontando tais perfis e as ações políticas públicas de governo com o excerto “também morre quem atira” extraído da canção, notoriamente identificamos que todo atirador que já tirou vidas de outras pessoas decididamente também morre, mesmo que permaneça vivo. É uma ação maligna de morte sem volta. É morrer de fome de vida serena.


¹ https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/07/13/fome-se-agrava-no-mundo-e-perspectivas-para-2020-sao-sombrias-diz-onu.htm?cmpid=copiaecola.

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