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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Bondade...Pesos, Medidas e Reflexões.
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



Em tempos cada vez mais insanos, em que a verborragia despeja sobre o mundo uma lama de emoções, sentimentos e ideologias pouco louváveis, observar o que há de intenções nas palavras proferidas é fundamental. Ainda que os discursos pareçam claros e compreensíveis, há sempre muito a se esconder além das aparências. Afinal, nada é efetivamente dito sem pensar. Consciente ou inconscientemente as mensagens são produzidas em nome de um fim.
Muitos já devem ter ouvido a expressão “pessoas de bem”. Particularmente, a mim ela soa estranho e desconfortável desde sempre. Primeiro, porque não vejo sentido em reafirmar a bondade humana por meio de palavras, na medida em que ela deveria ser pressuposto existencial para qualquer um. Segundo, porque essa é uma forma de rotular indivíduos, a fim de enquadrá-los dentro de alguma expectativa e/ou propósito que necessite desse tipo de polimento social. Além disso, quem seriam essas tais “pessoas de bem”? Que critérios se valer para destacá-las entre as demais?
Nas páginas da história e da literatura essa expressão pode ser facilmente encontrada. Ali estão as razões, os motivos para que surgisse. As relações humanas na coexistência social nem sempre são fáceis e fluidas. Há milhões de arestas e obstáculos próprios da condição privada de cada indivíduo que mantém a vida sob um contínuo limiar de tensão de onde, vez por outra, emergem a discórdia, a intolerância, o preconceito, a discriminação e a violência a partir das diferenças sociais. Raça, gênero, credo, escolaridade, profissão, status, ... quaisquer desses aspectos podem deflagrar o desequilíbrio e o conflito.
Tendo em vista que as sociedades sempre foram marcadas pelas fronteiras da desigualdade; sobretudo, de riqueza e de poder, para o Bem ou para o Mal as decisões estiveram a cargo daqueles que estavam no topo da pirâmide social. A dinâmica da vida coletiva vem sendo, portanto, estabelecida dentro desse contexto; de modo que, esse grupo ainda que minoritário passou a ser denominado como “pessoas de bem”.
Isso de certo modo lhes advém de uma pseudoestabilidade reconhecida a partir da posição social ocupada por uma determinada pessoa dentro do grupo, ou seja, uma mera percepção de aparência. Apesar disso, essa expressão dá certa legitimidade ao conservadorismo e a sua eventual rigidez extremista, no campo das decisões administrativas, legais, religiosas e comportamentais.
Como se fizesse um contraponto resistente e absoluto a quaisquer transformações progressistas que possam desestabilizar o seu centro de poder. Por isso, elas se sentem confortáveis em defender a qualquer preço os seus pontos de vista; mesmo, quando vão na contramão da realidade. E para isso elas buscam teorias e práticas retrógradas que possam lhes fornecer algum tipo de fundamentação. Em suas mentes há um mundo idealizado e perfeito e o absurdo está do lado de fora dele.
Longe do sentido estrito essas “pessoas de bem” não se preocupam em contrariar as leis da bondade, da fraternidade, da empatia humana. Nos espaços que ocupam socialmente, escondidas pelo manto da denominação e o passaporte do alto poder aquisitivo, elas se arvoram de uma superioridade que não cabe a ninguém e exercem com certa dose de fúria o controle sobre a manutenção das desigualdades. A caridade que, vez por outra, praticam não passa de verniz incapaz de esconder a própria satisfação de pertencer ao mundo de privilégios e regalias.
Queiram ou não admitir, então, há uma diferença gritante entre “pessoas boas” e “pessoas de bem”. As primeiras acreditam firmemente na possibilidade de um mundo justo e solidário, ao ponto de trabalharem exaustivamente para alcançar esse propósito. Seus pensamentos compreendem uma sociedade de seres humanos, não de castas, de classes ou de diferenças. Elas sabem que a equidade é fundamental para o desenvolvimento e o progresso em todos os campos da humanidade. Já as outras são o oposto. Seu narcisismo crônico lhes transforma em lobos cobertos por peles de cordeiro, a fim de atenuar o nível de perversidade que habita suas próprias almas. Digamos que podem ser considerados bons adoradores das práticas colonialistas, exímios manifestantes das lições da “Casa Grande e Senzala”.
No entanto, a verdade é que, como disse José Saramago, “Não sabemos o que é ser infinitamente bom. Sabemos o que é ser relativamente bom. E sabemos que não somos capazes de ser bons toda a vida e em todas as circunstâncias. Falhamos muito. E depois reconsideramos, o que não quer dizer que o reconheçamos publicamente”.
Portanto, nos equilibramos em uma tênue linha que pode nos fazer, a qualquer instante, empregar muito mal o adjetivo da bondade a respeito de nós. E para que esse balançar pendular não aconteça amiúde é fundamental nos guiarmos pelo bom senso de uma justiça que não se permite transitar de olhos vendados. Que resplandece a partir de uma crença edificante que brilha dentro de nós. Que emprega a máxima consciência da empatia e da solidariedade, sem distinção de qualquer natureza. Porque no fim, “quando procuramos descobrir o melhor nos outros, de algum modo mostramos o melhor de nós mesmos” (William Arthur Ward)1.

1 (1921/1994). Foi um administrador, escritor, pastor e professor estadunidense.

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