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OS CONTOS QUE EU TE CONTO - 'BORDADOS'
Por: Luciah Lopez



OS CONTOS QUE EU TE CONTO

"BORDADOS"

Aconteceu um tempo – uma mulher e sua cesta de fios. Seus retalhos coloridos, suas agulhas, suas fitas e rendas, seus botões de madrepérola.
O tempo era apenas um “coser” de horas nas colchas de retalhos, nos “fuxicos”, nas flores de fitas e nos entre meios de rendas.
Um desfiar eterno – esburacando o olhar nos crivos do linho branco. Enquanto isso, lá em cima o relógio dormia seus ponteiros e a tarde alinhavava os raios de sol pelas frestas da cortina fazendo brilhar diamantes nos cabelos daquela mulher.
O vento soprava cheiros vindos do pomar – limoeiros, laranjeiras, pitangueiras floridas ditavam os aromas misturados de flores, e o cheiro do pão quente saindo do forno.
Ao longe, ainda ecoa o bater o monjolo pilando o milho branco – fubá, para os incontáveis quitutes do café da tarde.
Neste baticum interminável, acionado pela roda d’água, os pensamentos adejam entre fios verdes, azuis, vermelhos desenhando os meandros de sonhos, flores e pássaros sobre um fundo branco.
Na imensa mesa da cozinha, a quentura do pão faz derreter a manteiga amarela. O fubá branco, agora bolo com goiabada e erva doce, faz sorrir até mesmo o pinguim sobre a geladeira antiga.
Em cada pedaço de pão, em cada gole de café forte, adoçado com açúcar cristal e branqueado com leite espumado e fresco, há um pouco daquela mulher.
Numa fração de segundos ficamos frente a frente, envoltas numa alegoria cravejada de olhares dos nossos mortos e de nossos vivos. Nossos vivos com seus olhos mortos, que nada veem além das paredes de vidro dos grandes edifícios.
Ainda existe uma porta entre aberta por onde o tempo se esconde deixando um rastro de lembranças. E nas badaladas do velho carrilhão a poeira se levanta enquanto ela passa, trazendo nas mãos o passado e o futuro bordados em ponto de cruz, e , silenciosamente sobe os degraus polidos da velha escada.
Tudo fica impresso nos grãos do pó e na poeira suspensa dentro de nós e quando sopradas pelo vento nos fazem personagens da nossa própria história.
Ela é assim. Uma mulher que caminha entre os meus sonhos e a minha história. Caminhou serena pelos sonhos da minha mãe e caminhará pela história do meu filho e será sempre assim, com ela passeando entre o passado e o futuro trazendo sua cesta de fios, bordando crivos e cosendo "nossos retalhos".

...PARA MINHA AVÓ.

* imagem: Vaso de Flores
grafite em papel Canson
Luciah Lopez

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