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Walquiria Rocha Machado
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Não deu tempo...
Por: Walquiria Rocha Machado

Desci as escadas do porão do meu passado e fui buscar em dezenas de décadas atrás, lembranças que ficaram lá no fundo e que o tempo encobriu com bolores e as emaranhou com teias de aranhas, mas que as vezes ainda me vem na memória, como agora eu lembrando tão nitidamente aqueles dias que foram marcados pela tragédia.
Quando criança, morava em um lugar muito pobre e com vizinhos também pobres, e as casas eram distantes umas das outras, separadas por terrenos baldios, onde arvores silvestres e um denso matagal tomava conta de tudo, invadindo as ruas de terra vermelha e empoeiradas.
Minha mãe, era muito querida na vizinhança, pois além de costurar, ela ainda era muito solidária com todos, e por isso talvez, foi escolhida para ajudar uma vizinha do outro lado da rua a esconder uma bicicleta, comprada para o seu filho de dez anos, da qual ela só daria a ele, quando se formasse no primário, já que faltava apenas um mês para a formatura. Esse era o objeto de desejo imenso desse menino, e que a mãe envaidecida, comprou com sacrifício na lojinha do bairro a prestação para realizar o sonho do filho.
Eu e meus irmãos curiosos com aquele pano estampado no canto do quarto, cobrindo a surpresa e sabendo que não poderíamos contar nada pra ele, ficamos felizes contando os dias, como se fossemos nós que seríamos presenteados.
Olhávamos aquela coberta estampada de flores, cobrindo aquela bicicleta tão esperada pelo menino e eu sorria sozinha esperando compartilhar esse dia... Mas não aconteceu... na semana seguinte, no entardecer, fiquei assustada com o choro da minha mãe, e o alvoroço dos vizinhos na rua, todos conversando ao mesmo tempo, e a notícia explodiu! O menino que ia ganhar a bicicleta, morreu afogado em uma lagoa voltando da escola, ele e mais um colega resolveram nadar em uma draga, na volta pra casa e a tragédia aconteceu...
A bicicleta ficou lá em casa coberta por mais uns dias, e eu não sei explicar qual foi o destino dela... lembro apenas de um homem de chapéu preto, cabisbaixo, colocando a bicicleta nos ombros e saiu atravessando a rua enlamaçada, e eu o perdi de vista... todos da rua pareciam transparecer nos olhares a tristeza que sentiam... nunca mais se falou sobre o acontecido na minha casa, mas lembro nitidamente de todos em silêncio por muito tempo, compartilhando aquela dor...

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