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Conto
 
A CIDADE EM PANICO
Por: Juarez Cruz

A CIDADE EM PÂNICO
Hoje é um domingo atípico, diferente de muitos domingos que vi neste mesmo período de 2021 e de todos os anos anteriores. Acordei cedo, às 06h30, e o sol já dava sinal de como seria quente ao longo do dia. Olhei o celular para ver se a mensagem que estava aguardando havia chegado e nem sinal. Apresei-me em vestir um short e calçar o tênis, pois não poderia chegar atrasado para a caminhada que havia marcado com uma amiga depois de cerca de noventa dias sem fazer uma atividade física.
O celular toco e apressei em atendê-lo
--Alô, alô !!!
--Já está saindo- era Dora querendo saber onde eu estava.
--Já estou a caminho.
--Olha Juca, minha filha teve uma insônia por causa da sinusite dela e por causa disso não dormir bem. Vamos deixar esta caminhada para outro dia.
--Sem problema Dora. Vá descansar e qualquer coisa que precisar me dê um toque.
--Obrigada, você é um anjo-disse ela carinhosamente, como sempre.
-- Nos vemos depois, você é especial.
Como já estava pronto para a caminhada, resolvi sair e fazer o trajeto sozinho e assim o fiz.
Antes de sair coloquei uma máscara no bolso, caso precisasse usá-la para entrar em algum estabelecimento comercial e comecei minha caminhada entre a orla do Rio Vermelho e Pituba. Salvador está literalmente deserta, quase desabitada.
Logo nos primeiros metros de minha caminhada vejo dois policiais usando máscaras, conversando defronte a entrada de um hotel. Passei por eles e logo em seguida um grupo de ciclistas, todos usando máscara, pedalavam ofegantes pela ciclovia. Confesso que achei estranho ciclista pedalar usando máscara, mas segui em frente.
Como não estava a fim de caminhar sozinho, parei na frente de um prédio onde mora um amigo meu, gritei seu nome próximo da janela de seu apartamento e ele parecia estar dormindo, foi o que constatei mais tarde. Segui na minha caminhada tentando ver o que não conseguia ver quando estava dirigindo e vi muitas coisas. Vi casas comerciais e apartamentos fechados com placas de aluga-se ou vende-se. Vi pessoas andando na rua, apressadas, assustadas, como se fugissem de um inimigo invisível e outras perambulando entre lixeiras a procura de algo para comer para não morrerem de fome. Vi o que, possivelmente, já via todos os dias e, de tanto ver, você termina banalizando o olhar e acaba não vendo o que está bem a sua frente, no seu caminho.
“Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. O poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, agente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece Fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio”. Otto Lara Resende, F.de S. Paulo(23/02/92)
A cidade estava em Lockdown decretado pelo prefeito e o comércio quase todo fechado, exceto farmácias e supermercados. O povo parecia aceitar passivamente a determinação governamental, inclusive a obrigação de usar á máscara, que a usava até para dirigir, correr, pedalar e pescar. Um absurdo.
Quando cheguei próximo á praia da Amaralina, uma cena bizarra chamou minha atenção, vi pescadores sentados ao lado de suas varas de pescar docilmente usando máscaras, a espera do sinal que a vara dá quando o peixe fisga a isca espetada no anzol no fundo mar. Intrigado e procurando entender o motivo do uso das máscaras por eles, quase dentro do mar, parei minha caminhada e fiquei observando-os sem conseguir ver quais riscos que eles representavam para a propagação da pandemia.
Logos atrás de mim uma pequena carreata formada de três viaturas da prefeitura, duas viaturas da guarda municipal e duas viaturas da policia militar, passavam lentamente como se procurassem algo, talvez algum estabelecimento comercial aberto para fechar, multar e prender seu proprietário, ou talvez um vendedor de picolé ou de água de coco para tomar sua mercadoria e jogar o ambulante dentro de uma viatura acusando-os de “desacato de autoridade”, é o que eles sempre alegam para cometer truculências e abuso de autoridade na hora da prisão. É a estrutura do Estado policial para suprimir e reprimir quem não cumpre ás determinações impostas para pelos governantes.
Enquanto o aparato policial passava, alguns transeuntes que não usavam a máscara se apressavam em colocá-las e vi o pânico estampados em seus rostos. Uma família de banhista saia rapidamente da areia, amedrontada, caminhando na direção contrária dos policiais ante os protestos dos dois filhos menores que não entendiam á repentina mudança de planos de seus pais.
Indignado com tal situação continuei minha caminhada e logo adiante vi, para meu espanto, que outros pescadores jogando suas redes ao mar também usavam máscara. Mais outro absurdo.
Ao longo da calçada que circundava ás praias da Amaralina e Pituba, vi mais ciclistas, atletas maratonistas e muitos andarilhos como eu, quase todos usando máscaras. Alguns vinham no sentido contrário se esquivavam de mim como se eu representasse algum perigo pra eles só porque não usava a máscara; outros me olhavam com alguma estranheza, recriminação e cochichavam entre eles. Confesso que estava me sentindo vigiado, como um estranho no ninho, um alienígena que não conhece as regras de condutas impostas na terra e que deveria ser evitado, discriminado por eles e talvez denunciado ao poder público estatal para um possível confinamento correcional, como na Alemanha, em 1934, quando os nazistas institucionalizaram á violência, prendendo arbitrariamente e executando inimigos políticos: comunistas, lideres esquerdistas e sindicalistas, induzindo seus seguidores(como acontece hoje no Brasil de Bolsonaro contra quem não reza pela sua cartilha) á caça e perseguição dos judeus, ciganos, homossexuais e opositores do regime.
Sentei no banco da praça para tomar um pouco de ar depois de quase uma hora de dura caminhada quando ouvi alguém gritar meu nome:
--Juca, cadê a sua máscara, cara!-Olhei rapidamente e vi Barbosinha, um companheiro de boteco, com o corpo quase para fora do carro acenando na minha direção.
Não sei se ele estava sozinho no carro mais vi que também usava a mascara e foi a partir dai que passei a observar outros motoristas, dentro de seus carros, fazendo uso das máscaras, e pior, alguns deles sozinhos, com o carro em movimento e fechado. Inacreditável o medo das pessoas.
Confesso que já vi de tudo nesta minha vida, mas obediência cega, total subserviência da população aos ditames impostos pelos governantes, com a complacência e desinformação praticada por parte da imprensa, também partidária, e das redes sociais, isso nunca tinha visto, nem a época da ditadura.
Ainda sentado na praça fiquei olhando os pais caminhando com suas crianças que não podiam dar seu grito de guerra, correr pela praça atrás dos pombos que ciscam o chão e que são os que verdadeiramente estão em liberdade, usufruindo de seu livre arbítrio; livres das restrições governamental e de sua guarda pretoriana sempre atenta aos movimentos da população e da perseguição das crianças que parecem amordaçadas e imobilizadas atrás de suas máscaras. Diante deste quadro dantesco, imaginei o quanto o povo está controlado pelo Estado, situação análoga a de um regime de exceção, totalitário, imposto pelos governantes que impõe regras de controle sobre a população, fechando o comércio e causando a falência dos proprietários, respaldados por uma corte do Supremo Tribunal Federal(STF) partidária e pouco confiável, que tomou esta medida apenas para se contrapor ao presidente Jair Bolsonaro(sem partido).
Não tenho nenhuma dúvida que a cidade está em pânico, sitiada ante a inercia do governo federal que nega toda e qualquer medida de controle preconizada pela OMS, pelos médicos e pesquisadores como manter o distanciamento social, uso de mascaras e a aplicação da vacinação em massa como forma de proteger o povo e combater á propagação do Covid-19. Pra agravar esta situação de pânico, Bolsonaro frequentemente desdenha do risco que a pandemia representa, quando incentiva o povo a não usar a máscara, fomenta aglomerações na frente do Palácio da Alvorada ou em encontros com apoiadores em visitas ás cidades do interior do Brasil, num gesto de total indiferença as cerca de 290mil mortes, incluindo ai centenas de profissionais de saúde e de segurança pública, como se essa tragédia anunciada não significasse nada, não tivesse nenhuma importância para ele. “É uma gripezinha”, disse ele certa vez.
Agora são dez horas e o sol está começando á ficar muito quente e tenho que ir embora. Mais pessoas andam na calçada como sonâmbulos num desfile de máscaras coloridas e ridículas que moldam seus rostos, camuflam suas vozes, inibindo suas reações, sentimentos e vontades. Todos perfeitamente controlados por um Estado corrupto, inerte e insensível diante da tragédia humana que se avizinha.

Juarez Cruz
Escritor e cronista
[email protected]
Salvador-BA

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