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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Uma silenciosa narrativa estridente...
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA



Mais de 400 mil mortos não é um número inexpressivo, para que alguém possa voluntariamente desconsiderá-lo ou menosprezá-lo. No entanto, é exatamente isso o que está acontecendo no Brasil. A Pandemia do Sars-COV-2 escancarou um fenômeno comportamental assustador, a indiferença. Em nome da satisfação pessoal de seus interesses e desejos, pessoas estão se posicionando contra a vida.
Ainda que o ser humano possa fazer escolhas, há questões que não cabem, do ponto de vista ético e moral, mais do que uma opção. E viver é uma delas, porque nada existe ou faz sentido, nos campos subjetivos e materiais, a não ser que a pessoa esteja viva. A crença de que bens e propriedades deveriam ser enterrados com seus donos mostrou-se ineficaz há tempos.
Entretanto, o que se observa entre alguns membros da população é uma contestação radical ao óbvio. Querem, a todo custo, fazer prevalecer os seus pontos de vista, sob argumentos inconsistentes e profundamente questionáveis. E para isso se valem de estratégias que visam polarizar e desagregar a coletividade, a fim de torná-la vulnerável as suas investidas de poder e controle.
A proposta das Fake News, por exemplo, é desacreditar a verdade dos fatos. Na medida em que fomentam trilhas de especulação e desconfiança entre a população, elas passam a transitar em círculos e deixam de pensar e refletir, mais profundamente, a respeito do que acontece ao seu redor. De modo que elas tendem a se deixar levar por um consenso majoritário de manifestações rasas que visa manipular as consciências e construir diques de obediência insana contra a verdade.
Da mesma maneira, os discursos de ódio e de medo buscam exercer influências capazes de fragilizar a robustez das opiniões individuais. São narrativas que colocam uns contra os outros a partir de ideias banais, somente para entretê-los e não os deixar recobrar a consciência sobre o que é realmente importante. Eles criam uma teia de alienação contínua tão bem tramada que culmina em uma imobilização paralisante.
E sem perceber, a sociedade está no meio de uma guerra pesada, cuja única arma é a linguagem. Palavras transformadas em ideias para constituir discursos e narrativas com propósitos fundamentalmente destrutivos. O objetivo desse processo é desconstruir as práxis já consolidadas para edificar outras, ou seja, aquelas capazes de atender aos interesses dos novos aspirantes ao poder.
Quem assistiu ao filme “V de Vingança” (V for Vendetta), de 2006, deve se lembrar da frase, “Por baixo dessa máscara há mais do que carne. Atrás dessa máscara há uma ideia. E ideias são à prova de bala”. Um olhar mais atento sobre a história do mundo para entender que é realmente assim. Para o bem ou para o mal as linguagens é que ditam os rumos da sociedade. Criam ilusões. Criam desavenças. Criam desequilíbrios. Criam grilhões e obstáculos, gerações após gerações. Nas entrelinhas de todos os grandes conflitos, antes que qualquer bomba fosse lançada ou território invadido, lá estavam as linguagens configurando os sentidos humanos.
E o porquê de isso acontecer, num mundo em que a verborragia parece tão naturalizada e intensa, é o fato de que as pessoas falam muito; mas, se abdicam tanto de pensar, sobre o que estão dizendo, como de ouvir e decodificar, o que lhes chega aos ouvidos. Como explica o Dalai Lama, Monge Budista e líder espiritual tibetano, “A arte de escutar é como uma luz que dissipa a escuridão da ignorância. Se você é capaz de manter sua mente constantemente rica através da arte de escutar, não tem o que temer. Esse tipo de riqueza jamais lhe será tomado. Essa é a maior das riquezas”.
Sem contar a leitura, que também é outra carência visível na sociedade contemporânea. As pessoas têm tido cada vez mais preguiça de realizar uma leitura atenta e aprofundada do que lhes chega pelos veículos de comunicação e informação. Justificam tal comportamento pela força da vida acelerada, dos excessos de compromissos e tarefas; mas, no fundo, é só preguiça e negligência com o pensar. Um jeito mais fácil de abdicar das responsabilidades intrínsecas ao cotidiano. Afinal, o saber lhes impõe o fazer, o agir, a respeito.
Assim, “enquanto atos forem usados no lugar do diálogo, palavras sempre terão seu poder”; afinal de contas, tudo o que está acontecendo é porque você “pensa isso mesmo, ou é assim que eles querem que você pense? ” (V de Vingança). Será, que é realmente necessário haver sempre um distanciamento abissal a um denominador comum que possa equilibrar as demandas e os sonhos coletivos?
Talvez, não. Basta decidir entender que sob tais ditames, a vida que conhecemos é só uma vida ameaçada, de diversas formas, por diferentes instrumentos de afronta e violência. Hoje são mais de 400 mil perdidas apenas em decorrência da Pandemia, amanhã poderão ser 500, 600, ... 1 milhão, se o diálogo da lucidez e do respeito não se estabelecer. Porque para a vida só resta um lado, o da sobrevivência.

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