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JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA
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Lamentar as mortes virou assunto seletivo
Por: JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

Quando a opinião pessoal está acima de tudo...

O que tem em comum as mortes do ator Paulo Gustavo, as da Creche em Saudades, uma cidade do Oeste de Santa Catarina, e as da operação policial na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro? Talvez os lamentos individual e coletivo sejam em função do impacto causado na população. Ou pela forma como ocorreram. Julgar que os vilões (Covid-19, desequilíbrio pontual e órgão público) tenham influenciado na forma como a mídia levou ao conhecimento das pessoas? Afinal celebridades, desconhecidos e excluídos são vistos de forma diferente no nosso país.
Provavelmente o estado de saúde do famoso ator-diretor-comediante era acompanhado dia a dia. A violência em Saudades-SC foi chocante, mas nenhuma das vítimas, assim como o autor da barbaridade, fazia parte do seletivo grupo que é notícia no país e no mundo. Já a brutalidade, considerada um sucesso pelo chefe da operação, chamou a atenção porque está incluída na inglória batalha do Poder Público contra o narcotráfico. Daí a importância do fato ser independente da quantidade de vítimas: um ator, 3 crianças e 2 professoras, ou 28 favelados.
A forma como a notícia é colocada para o conhecimento da população também tem muito a ver com os valores da sociedade acostumada com a desigualdade nacional. Isso tanto pode estar alinhado com a famosa frase “bandido bom e bandido morto”, como “se a população se armar a segurança pessoal melhora para todos”? O agressor na Creche é um jovem de 18 anos que com um facão assassinou as crianças, todas com menos de 2 anos de idade, tentou se matar depois, mas foi levado ao hospital. As adultas assassinadas, sem motivo algum, tinham 20 e 30 anos.
Mas será que citar os nomes das vítimas fatais ameniza a dor e o sofrimento dos amigos e familiares? Se isso for o único paliativo para mostrar compaixão e senso de Justiça, os críticos desta ausência devem exigir o mesmo para os finados da operação na comunidade do Jacarezinho. Não justifica dizer que todos eram bandidos envolvidos no indesejado narcotráfico. Isso é muita discriminação! Muito menos dizer que foram apreendidas tantas armas de fogo, inclusive uma com capacidade para derrubar um helicóptero. Haja seletividade até na violência!
Qual dos fatos que causaram comoção seria evitável pela ótica da população? O ator vítima da Covid-19, as crianças e as professoras da Creche de Saudade ou os “bandidos” do Jacarezinho? Julgar baseado na emoção, desprovida de razão e atribuição de responsabilidades, pode ser o mais aceito, mas pode estar longe de expressar a realidade sobre as condições que a grande maioria vive. A verdade é que ninguém admite a vulnerabilidade de alguns em detrimento do privilégio de outros. Nessas horas o tal direito de ir e vir é muito diferente da realidade. Então...
Infelizmente o sucesso de uma operação policial, as tais batidas nas favelas, não pode ser medida pelo número de mortos deixados no rastro da estória desta guerra urbana. Da mesma forma que as crianças vítimas das balas perdidas nas escolas dos bairros pobres, sejam tratadas de maneira diferente das brutalmente assassinadas nas creches onde a maioria é branca. Isso não faz diferença se há comoção maior em uma ou em outra situação. A linha comum entre as mortes brutais no nosso país é o entendimento jurídico reinante na sociedade – o merecimento!
Censurar o lamento ou a indiferença com a morte de pessoas que não são do nosso círculo de amizade ou da família, resolve menos que entender o engajamento no violento mundo do narcotráfico. Também pouco adianta dizer que isso é uma escolha estritamente pessoal. O problema é mais complexo do que muitos simplificam. Mas seria interessante saber como um ex-presidiário, sem qualquer oportunidade de sobreviver honestamente porque não houve cuidado com a sua ressocialização, vai entrar no mercado de trabalho. Não há ponto em comum nos casos.
Uma lição que os fatos deixam é que a mídia não está preocupada com quem morreu ou saiu ileso de uma tragédia. A notícia tem que prender a atenção do cidadão! Se o ator pôde ser atendido em uma clínica particular, apesar de não sobreviver... merece os lamentos. As crianças e as professoras estavam no lugar errado e na hora errada... foi uma infelicidade delas. Os “bandidos” foram executados porque receberam a Lei à bala, inclusive matando um policial... que os heróis recebam os elogios. A manifestação pessoal é um direito, apesar de ser questionável.

J R Ichihara
10/05/2021

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