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Roberto Vitor Dall'Acqua
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Crônica
 
O Vestibulando Ancião
Por: Roberto Vitor Dall'Acqua

Sábado, ontem, já que fui aprovado na primeira fase, lá fui eu enfrentar a segunda dose de vestibular da Universidade do Estado de São Paulo.
Conseguem conceber o engenheiro civil que aqui “vos fala”, aposentado, já que formado há boas décadas, prestando vestibular para Ciências Sociais?
A realização da prova se deu... em meu caso... no próprio campus da universidade, localizado no início da rodovia que liga Araraquara a Jaú.
Aí começa o drama!
O estacionamento de dentro do campus estava fechado, como na primeira fase, devido ao grande afluxo das famílias dos candidatos e obedecendo ao distanciamento social evitando aglomeração, como o bom senso determina... tive, então, de parar na entrada, antes da cancela de acesso à área interna da universidade.
Já no local em que estacionei o carro, vi muitos pais que levaram seus filhos para submeterem-se ao "exame"... esses pais poderiam ser, todos, meus filhos, portanto os candidatos poderiam ser meus netos!
Não havia reparado na primeira prova, mas a faculdade onde prestei a prova é longe pra caralho da entrada!
Andando eu na velocidade adequada a um septuagenário, os meninos, meus concorrentes, começaram a passar por mim em passos céleres... céleres para mim!
A aparência deles era peculiar... menininhas magrinhas, de óculos, muitas portando aparelhos ortodônticos... já os garotos, a maioria magrelos, alguns poucos gordotes desajeitados, todos de cabelos desalinhados... com certeza não eram atletas... notava-se isso pela conformação física tanto das meninas quanto dos meninos, mas passavam por mim notadamente ansiosos.
Após ter demorado o dobro do tempo deles, finalmente entrei na sala a mim indicada, e assentei-me... todos já estavam instalados, distância segura, máscaras mantidas no rosto... imóveis!
Silêncio sepulcral!
À frente de todos nós, um prestador temporário de serviços, contratado pela gestapo responsável pelo ordenado controle da realização da prova!
Fui ajeitar naturalmente as cadeiras à minha frente e ao lado... senti-me o epicentro de um terremoto!
Muito bem... avisos e poucos minutos depois distribuição dos cadernos da prova e as respectivas folhas de resposta e da redação.
Parecíamos os zumbis tão comuns nos filmes de terror... sem movimento corporal ou manifestação psíquica perceptível, em aguardo à ordem de início do imposto pelo Grande Mestre do Mal para iniciarmos as malévolas atividades impostas!
Foi dada a ordem de comando... podíamos nos mexer a partir do toque de sirene meio engasgada, daquelas instaladas naqueles tubos de inseticida sob pressão!
Autorizado o início do terror... cada um por si... sem Deus presente!
Li em primeiro, conforme me orientei, o tema da redação e os poucos e curtos textos de referência... o tema: "Tempo é dinheiro?".
Sim, uma pergunta... uma pergunta!
...e um tema milenar!
Pensei comigo: "Fodeu... que teminha safado!".
Comecei a ficar com pena dos nerdezinhos... juro!
Dei então uma vista geral nas questões... era, com certeza, um martírio planejado... bem elaborado, diga-se em passagem... destinado a massacrar-nos, incluindo-me, então, dentre os meninos!.
Certo que foram sádicos os que prepararam a prova... sádicos daqueles de olhos injetados de sangue.
Iniciei por rabiscar ideias referentes à redação... percebi que daria para redigir um compêndio sobre o assunto, mas teria de me ater a trinta míseras linhas!
Sabedor do que já enfrentaria, tendo redigido ideias no rascunho, que se tornou ininteligível e difuso, rabiscos em verdade, fui para as questões.
Brincadeira de mau gosto... com certeza!
Confirmei que os que as prepararam eram professores realmente do mal!
Recordei, então, que haviam informado, dias atrás, que a prova seria objetiva, por através de escolha de uma entre as alternativas propostas.
Mentira... grosseira mentira... as alternativas carregavam subjetividade clara!
Solicitava conhecimento a escolha de alternativa "talvez" correta na distorcida mente de quem as formulara!
Notava-se tremendo vazio entre a questão e as alternativas dispostas em número de cinco. Geravam confusão... solicitavam raciocínio muito desgastante!
Sessenta questões! Sessenta! Dio mio Santo!
Lá fui, questão a questão, exaustão a exaustão, uma a uma!
Em determinado momento, lá pela trigésima escolha, ocorreu-me imaginar como haviam determinado o tempo necessário para duração do massacre nerdal... não tenho a menor ideia de como fazem isso!
Nesse momento, estiquei o braço esquerdo, apoiando-o sobre o espaldar da cadeira à frente.
Imediatamente o fiscal gestapiano veio a mim e, em murmúrio, disse, ao pé de meu ouvido, para tirar o meu amável Tissot e guardá-lo no bolso, sob o pretexto que "era perigoso" mantê-lo ao pulso!
Senti-me protegido pelo Schindler presente!
Até me ocorreu que poderia eu, inadvertidamente, estar portando algum produto químico produzido para fins bélicos, no braço. Será que meu aparente inocente relógio fora fabricado na China?
Final dos testes... última escolha de alternativa.
Estava exausto... nem notei a presença, durante o tempo... interminável... em que executei essa fase, dos jovens nerds que me cercavam... apenas, vez por outra, sentia pena deles!
Terminando de preencher a folha de resposta das questões, fui para a redação!
Drama!
As anotações eram um conjunto de rabiscos e riscos!
Enfim, decidi; estou aqui, vamos lá!
Trinta linhas... trinta linhas!
Trinta míseras linhas!
Pensei que desde os primórdios da filosofia ocidental afirma-se que tempo é dinheiro, passando por Benjamin Franklin, revolução industrial, Taylorismo, Fordismo, Toyotismo, até hoje!
Trinta linhas!
Quiaquiaquiá!
Sadismo confirmado!
Organizei como deu e em frase final conclui que será necessário consumir muito. muito tempo e dinheiro para resolver essa questão!
Esgotado, quase próximo de ser o último a sair do campus, assisti os meninos, em passos já não tão céleres, passarem por mim, cabeças dirigidas ao chão... de máscaras... e sem usar... pasmem!... seus celulares.
Lá fora, vi os mesmos pais que havia encontrado ao entrar, aguardando suas crias.
Fui ao carro, sentei-me, aguardei até atingir um grau de recuperação razoável para permitir-me dirigir.
Parcialmente refeito, fui para casa.
Chegando, cortei bons nacos de cudiguim, muni-me de uma Cotuba geladíssima e acomodei-me na cadeira de balanço, na varanda beira rua.
Pus, então, no bem cuidado aparelho três em um, da Philips, a fita cassete do II Festival de Música Popular realizado no Teatro Record e ouvi A Banda de Chico, Disparada de Vandré, cantada por Jair Rodrigues, com a percussão executada utilizando queixada de burro.
Somente fiquei satisfeito depois de ouvir, já no cassete do terceiro festival, Sérgio Ricardo, ao cantar sua composição Beto Bom de Bola, após vaia homérica do público, quebrar o violão e jogar os pedaços, em fúria, no público.
Hoje, domingo, estou ainda me recompondo do desgaste a que me submeti, aguardando a segunda-feira para me inscrever no vestibular para Letras na Universidade Virtual do Estado de São Paulo!

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