A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

Magda Maria de Oliveira
Publicações
Perfil
Comente este texto
 
Conto
 
Tudo Começou Num Quarto Escuro
Por: Magda Maria de Oliveira

TUDO COMEÇOU NUM QUARTO ESCURO…

Antes de tudo, a porta do quarto estava fechada, mas não trancada e eu tinha começado a dormir meio acordada, buscando o meu próprio silêncio. O dia de trabalho tinha sido bem cansativo, barulhento e um pouco tumultuado. Era o momento perfeito para eu encontrar a paz que tanto merecia, ou achava que merecia. Por alguns instantes eu imaginava um mundo melhor, um dia seguinte mais leve, sem as inesperadas coisas sorrateiras, que aparecem quando menos as esperamos. De súbito a porta foi aberta e minha filha entrou rapidamente, com o jeito assustado, meio trêmula e com os olhos lacrimejantes, sentou-se ao chão e abraçou as próprias pernas, como um bichinho acuado e sem rumo. Olhava-me de um jeito furtivo e ao mesmo tempo procurava minha cumplicidade para resolver algo que, de certa forma, sabia o que poderia ser. Por um minuto o tempo parou, primeiro para eu acordar do meio sono e depois, porque a cena ecoou em todos os meus sentidos, desde o tato ao paladar, veio um gosto meio amargo como se eu tivesse comido um prato completamente cheio de jiló.
O que poderia ser aquela presença altas horas da noite, início da madrugada, configurando uma gravidade? Desde que os filhos nascem passamos a sentir e escutar seu coração batendo baixinho e, não satisfeitos, tocamos o dorso da mão em suas narinas para termos certeza de que coração e pulmão são solidários o suficiente para mantê-los vivos até o dia seguinte. O mundo para quando os filhos saem daquela normalidade idealizada, sem tosse, sem febre, sem suspiros e sem nada, muito menos sentarem-se ao chão na madrugada… aquela cena me transportou para outro lugar, eu não estava mais ali, fui destituída do meu corpo e temia voltar, então fiz um pequeno silêncio e esperei que ela falasse. Foram os minutos mais demorados da minha vida, porque mães em silêncio profundo estão esperando que tudo seja um pesadelo e que numa jogada de perna passará, mas não passou, ela continuava ali olhando para si mesma e mais aflita, começava a surgir uma cor amarelada e um sinal de exclamação se formava na testa. Aquela altura eu já tinha todos os sinais de pontuação no corpo, mas aguardava ansiosa pelo ponto final, feliz e bem resolvido.
Naquela ocasião eu estava lendo um livro sobre como os jovens entram no mundo das drogas e o sofrimento que se segue, as barreiras impostas ao diálogo em família, os comportamentos efêmeros e a fuga da realidade dentro de casa e pensei que seria comunicada sobre algo parecido, então, me apavorei. Há situações muito perceptíveis em família e, especialmente com os filhos, que não queremos encarar e passamos a invisibilizá-las para que deixem de existir sozinhas e não seja necessário encararmos nossas quase certezas. Pois bem, não se relacionava ao assunto do livro, mas aquele era um caso em que não encarei minhas percepções e constatações, elas se sobrecarregaram e me confrontaram pela madrugada, dentro do meu próprio quarto, no meu silêncio mudo, meu descanso, meu mundo particular. Bem feito para quem foge de seus exercícios de realidade e se joga na fantasia da hipocrisia! Aprendi a fugir dos problemas e mostrar apenas o lado bom e aceitável da existência humana, não aprendi a duvidar desse comportamento e encontrava-me perdida diante dessa pequena “tragédia” da vida como ela é.
Resolvi encarar meu medo, não, meu pânico! Deitada e já um pouco surda pelo nervosismo, um pouco fria nas mãos e pés, estava pronta para levantar voo e voltar somente quando as coisas estivessem resolvidas por si só e não precisasse expor imperfeições familiares aleatórias. Mas, não decolei e perguntei o que estava acontecendo, embora não quisesse ouvir. Comecei a conversa tentando afastar qualquer possibilidade de saber sobre qualquer desatino e perguntei se era cólica, falei que tinha um ótimo remédio e que logo passaria. Estiquei um pouco mais o assunto da cólica e mostrei em gestos como me remexia quando sentia esse incômodo e quando comecei a gemer como se estivesse com essa famigerada dor, minha filha me interrompeu com uma frase quase gritada “mãe, não é nada disso!”. Foi nesse exato momento que fiquei sem voz, o grito foi dela mas fiquei afônica, a fala entrou para algum lugar longe da boca e tentei assobiar para tentar descontrair o que ainda restava de mim mesma, mas havia sido em vão, pois se falar já não dava, imagina assobiar, coisa que nunca fui tão boa.
Acho que ela percebeu que eu estava sem voz e aproveitou para relatar o que se passava, ouvi atenta e respondi como se fosse algo natural e passageiro, embora eu duvidasse da própria fala. Passaram os anos e com os acontecimentos que se seguiram passei a encarar meus preconceitos, desconstruir montanhas de mentiras que me contaram a vida inteira. Lembro-me de uma tia me repreendendo para não andar rebolando e colocou um livro em cima da minha cabeça, me ancorou na parede e deu uma ordem expressa “agora, anda!” e eu andei dura, acreditando que o meu rebolado provocava aqueles olhares masculinos famintos e degenerados, minha culpa, meu corpo jovem e saudável, minha pele lisa, minha voz doce e suave, meu bom dia, meu boa tarde, meu muito obrigada, tudo chamava atenção e eram minhas culpas. Entendi muitas coisas a partir daquela madrugada, aprendi sobre as diferenças, sobre respeito, sobre escolhas e não escolhas, sobre essência humana, minha filha me mostrou o que eu teimava em não ver, outro olhar, sensível olhar, em que o amor desvenda a nudez mais profunda do nosso ser, consciência de si e do outro, percebi que o que não quero que o outro seja é pelas minhas próprias frustrações de não ter aprendido desde cedo a ser no mundo e não abrir mão disso.
Aquele momento foi só nosso! Talvez você esteja pensando sobre quais são essas diferenças, mas isso não tem nenhuma importância, o que importa é que tive a oportunidade de conhecer pouco a pouco, em doses pequenas e fartas um lado da vida que enriqueceu quem sou, passando a conhecer quem ela era e sempre será, sua essência sem as amarras que a impediam de se sentir livre e feliz. Conheci minha filha naquele dia, soube o que estava guardado dentro dela que a apavorava, por medo de ser reprovada pelo desamor que habita corações incapazes de amar, de receber a dádiva da empatia, viver e deixar viver, desconstruir sentimentos não resolvidos. O que aprendi não está nos livros da minha estante, nem nos livros colocados sobre a minha cabeça, nos encontros festivos, nas inverdades produzidas pela ideologia, nas mentes dos árbitros da moralidade, do ressentimento, da culpa, da mágoa. Enfim, o que aprendi foi sussurrado aos meus ouvidos, não posso ensinar, só posso sentir e ser grata!


 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: eFNO (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP será enviado junto com a mensagem.