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José-Augusto de Carvalho
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NA PALAVRA É QUE VOU... * Na jangada (1 e 2)
Por: José-Augusto de Carvalho

NA PALAVRA É QUE VOU...
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NA JANGADA... (1)

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--- A felicidade é um estado de alma.
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Francisco sorriu e quis saber:
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--- Um estado de alma ou o estado de uma alma?
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Rosália, olhando interrogativamente Francisco, questionou:
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--- Estado de alma ou estado de uma alma não terá o mesmo sentido?
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Continuando a sorrir, Francisco diferenciou:
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--- Estado de alma pretende ser uma definição, mas é afinal uma ousadia devido à ambiguidade que revela; estado de uma alma já me parece identificar uma alma entre outras almas, afins ou não.
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Rosália, incomodada:
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--- É possível que tenhas razão. Não tinha pensado nisso, mas um estado de alma pode ser um momento único vivido e sentido – um êxtase.
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Francisco assentiu com um gesto e perguntou:
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--- Um estado de alma pode ser compartilhado ou não?
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Perante o silêncio de Rosália, Francisco respondeu à sua própria pergunta:
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--- Pode acontecer ou não. Na verdade, há viagens partilhadas e viagens solitárias.
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Rosália reagiu num grito:
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--- É isso! É isso, Francisco! Tu deste-me a chave: há viagens solitárias, sim!
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Francisco sorria e Rosália prosseguiu:
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--- E eu que pensava que não!...
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Francisco atalhou:
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--- Pensar que não é uma conjectura que entreabre as portas à conjectura inversa, ao penso que sim…
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--- Nossa! --- exclamou Rosália aflita. --- É isso, sim! Uma conjectura dubitativa logo pressupõe a conjectura inversa.
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Francisco ficou calado. E Rosália desabafou uma súplica:
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--- Francisco, por favor, reza a Deus uma prece por mim no dia em que eu manifeste a intenção de construir algo sobre os escombros da felicidade que vivo.
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Francisco tentou responder, mas Rosália continuou:
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--- Por favor, eu não posso permitir-me pensar que um dia irei cometer um erro de que me arrependerei a vida toda.
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--- O que somos num momento não mais será do que uma página escrita na história da nossa vida, afirmou Francisco com serena convicção.
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Rosália olhava-o, apreensiva.
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Francisco prosseguiu:
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--- Todos nós podemos reconhecer os nossos erros e é saudável que seja assim, para vivermos em paz com a nossa consciência; mas também há quem os não reconheça, na ilusória consolação de alcançar a sua paz interior; e há também quem tente esquecer, na falaz ambição de que, esquecendo ou tentando esquecer, apaga a página ou as páginas escritas na história da sua vida.
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Rosália continuava apreensiva, olhando-o.
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E Francisco concluiu:
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--- Ninguém vive sozinho a sua vida porque é uma evidência inegável que vivemos no meio dos outros, os outros que nos observam, que nos questionam com palavras ou com silêncios de aprovação, de reprovação, de indiferença. Enfim, tendo nós presentes as páginas escritas da nossa história individual ou colectiva ou esquecendo ou tentando esquecer essas mesmas páginas, os outros que nos rodeiam conhecem-nas e não têm qualquer justificação para esquecê-las ou para tentarem esquecê-las. E por maioria de razão se de algum modo foram afectados ou gratificados.
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Rosália, despertando da sua apreensão:
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--- É isso, Francisco: quando as nossas acções, activas ou passivas, assertivas ou ambíguas são do conhecimento dos outros, é uma falácia esquecermos, tentarmos esquecer ou silenciarmos o que eles não vão esquecer nem tentar esquecer, porque magoados ou gratificados ou indiferentes são páginas da nossa história individual mas também são páginas de uma historia que extravasou da nossa história individual para a história mais ampla dos outros que nos circundam.
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Francisco anuiu com um gesto de cabeça afirmativo e interrogou:
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--- Rosália, não sei se te apercebeste de que nas tuas palavras eu posso ler a tua recusa da existência de uma vida solitária. De facto, se vivemos no meio dos outros, o que fazemos ou não fazemos, o que somos ou não somos é apercebido pelos outros, logo a nossa privacidade ou “a nossa vida solitária” é muito relativa.
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Rosália, com convicção:
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--- Francisco, é exacto que ninguém vive a nossa vida, tal como nós não viveremos nunca a vida dos outros, mas vivermos a nossa vida não é seguramente abstermo-nos de que os outros estão connosco na jangada de que nos falou José Saramago.

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Alentejo, 3|7|2021.
José-Augusto de Carvalho

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NA PALAVRA É QUE VOU…
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Na jangada… (2)


Terminado o almoço, um dos muitos almoços de convívio que programavam para reforçar os laços estabelecidos na época escolar, Rosália e Francisco predispuseram-se a mais uma conversa, ela comendo lentamente a sua sobremesa e ele bebendo também lentamente o seu café.
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--- Rosália, com tua permissão, gostaria de regressar a uma frase tua da nossa conversa no almoço anterior, frase que tu não esclareceste nem eu te pedi que esclarecesses; mas é importante para me clarificar tudo quanto falámos a seguir.
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Surpreendida, Rosália quis saber:
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--- Que frase foi essa, Francisco? Claro que eu clarifico. Afinal, nas nossas conversas não há nem eu quero que haja frases obscuras. Nós sempre fomos claros um com o outro nas questões que decidimos apreciar e a nossa condição de antigos colegas exige franqueza.
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--- A frase foi esta: (…) um estado de alma pode ser um momento único vivido e sentido – um êxtase.
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Rosália, olhando interrogativamente:
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--- Não vejo nada de estranho nessa frase nem que clarificação ela pede.
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--- Pois eu vejo. E vejo depois do que tu me pediste e que eu te recordo: Francisco, por favor, reza a Deus uma prece por mim no dia em que eu manifeste a intenção de construir algo sobre os escombros da felicidade que vivo.
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Perturbada, Rosália ensaiou uma fuga para a frente:
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--- E daí, Francisco?
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--- E daí que o êxtase de que falaste só o consigo interpretar como alheio à felicidade que vives ou viveste. E esta minha interpretação me conduz à conclusão que a felicidade de que falaste assenta ou assentava em base frágil, tão frágil que não resiste ou não resistiu a ficar em escombros no tal momento único vivido e sentido – um êxtase.
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Rosália acentuou a sua perturbação e Francisco continuou:
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--- Era esta clarificação que eu pretendia para poder perceber como tu sustentas a tua afirmação “felicidade em que vivo” quando a colocas em confronto com o momento único de êxtase de que falaste, sendo esse momento único de êxtase vivido por ti fora do contexto da felicidade em que vives ou vivias.
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Rosália, deveras incomodada, ensaiou nova fuga para a frente:
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--- Francisco, isto é um interrogatório? Eu estou na Polícia Judiciária ou estou almoçando com um colega dos bancos escolares?
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--- Não, Rosália, tu não estás na Polícia Judiciária nem eu estou fazendo um interrogatório. Eu te recordo o que ambos estudámos: na Comunicação, o emissor da mensagem tem de ser preciso e conciso para o receptor entender devidamente essa mesma mensagem. Ora eu como receptor da mensagem apenas estou pedindo ao emissor, que és tu, que clarifique o que me comunicou. Como vês, sem esforço, ficaste agastada sem motivo.
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Rosália serenou com a explicação didáctica do colega. Olhou Francisco, olhou a sobremesa ainda não deglutida inteiramente, e disse:
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--- Francisco, é possível que a felicidade que vivi fosse uma construção da minha mente, um anseio de ter o que antes não tivera. Se não for esta a clarificação para o tal momento único – o êxtase de que te falei, aí eu já não sei mais nada.
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--- Pode ser, Rosália. E adiciono o dado complementar agora fornecido por ti: É possível que a felicidade que vivi fosse uma construção da minha mente. Vivi é pretérito. Só mais uma clarificação: e a outra parte da construção que fizeste? É que a construção que fizeste tinha dois componentes, que eras tu e o outro, evidentemente. E, por favor, evita responder-me com a despudorada frase “Já foi”. É claro que o outro componente da tua construção ou ficou perdido entre os escombros ou procedeu como tu e foi encontrar momentos únicos – êxtases noutro qualquer componente disponível e tentar outra construção.
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Rosália terminava finalmente a sua sobremesa. E Francisco concluiu:
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--- Prezada colega, vivemos o mesmo tempo cronológico, mas não pensamos da mesma maneira, ainda que estejamos condenados a viajar na mesma jangada. Que as felicidades efémeras, porque descartáveis, fiquem para quem as quer e as procura! Isto se existe de facto felicidade onde os nossos sentimentos são descartáveis e os sentimentos alheios são olhados e considerados como trastes de transitória utilização. Definitivamente, para mim, a ética nem por remota e absurda hipótese permite a submissão a espúrios devaneios dos nossos instintos menores ou a explosões de emoções dos animais em período de acasalamento temporário para garantia da preservação da espécie. Sob o primado da higiene, da integridade e do respeito que primeiro devemos a nós mesmos e depois aos outros, há caminhos que ab initio são rejeitados. E quando assim não for, estaremos regredindo à ancestralidade animalesca em estado puro, logo confundindo-nos com a animalidade no que ela tem de mais primitivo e bárbaro.
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--- Francisco, tu sabes que nem sempre os relacionamentos resistem ao tempo e é por esse motivo que se deterioram. Esse teu rigor pode bem advir da sorte que tiveste no teu relacionamento.
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--- Sabes uma coisa, Rosália? O tempo que o Homem mede é resultante dos movimentos gravitacionais do planeta, por isso mesmo é alheio ao que somos ou não somos e ao que fazemos ou não fazemos. Sobre a sorte que eu tive ou não, o amor não é jogo nenhum nem é o corolário de calculismos. Na relação que vivo, eu não procurei ninguém, eu encontrei; eu não calculei nada, aconteceu. E quanto à efemeridade de muitas relações que há por aí, eu te digo: ainda que noutro contexto, o poeta transtagano José Duro, falecido em 1899, com apenas 26 anos de idade, vítima de tuberculose, deixou escrito um poema sobre as relações íntimas a que chamam por aí, inadequadamente, o acto (sexual) onde se “faz amor”. Como se uma relação de amor se resumisse à satisfação dos instintos sexuais! Até porque se sabe muito bem que há desejo sem amor, mas não há amor sem desejo. E eu não sei também como alguém “faz amor” com o outro que é descartável e depois, em sequência, com os outros igualmente descartáveis que se seguirão. De trastes descartáveis, tratou de facto José Duro, e lapidarmente, quando definiu cruamente assim as suas alcovas, as tais onde “se faz amor”: ”(…) onde a alma é um farrapo e o amor uma traição.”
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Dito isto, Francisco pediu a conta, dividiram a despesa como sempre faziam, e despediu-se com um até ao próximo almoço.
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Rosália ficou sentada meditando. Depois, levantou-se da mesa e saiu também.
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Já na rua, Rosália percebeu a indiferença do tempo que não parara e o alheamento dos transeuntes, absorvidos pelo gira que gira no carrocel das suas preocupações.
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José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Julho de 2021.

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