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Crônica
 
PEDALEIROS DO PLANALTO CENTRAL (Brasília)
Por: Tolentino e Silva

Todos nós temos um sonho. Por vários fatores nem sempre ele se realiza. A indisponibilidade de recursos, local apropriado para se fundamentar a coisa, falta de tempo e infelizmente a incompetência ou desqualificação para tal. Andei pensando sobre as mudanças por que passam certas coisas: o costume, a política, a ciência, a educação, a cultura etc. Não era comum ouvir alguém expressar a palavra “adolescente” nas décadas de sessenta e setenta. Quando nascido, era neném. Quando crescido, era menino. Quando maiorzinho, era rapaz, quando completava dezoito anos, era considerado homem. A partir daí, era homem casado, homem feito, homem velho e assim por diante.
Era comum se ouvir:
- Nossa, Dona Maria, como seu filho cresceu!
E Dona Maria respondia:
- Já virou homem! Tá bonito, não tá, Rosa?
- Tá Dona Maria, tá bonito mesmo. Benza Deus!

Assim acontecia no futebol. Poucos eram vistos pelos clubes, haja vista exibirem seus conhecimentos e práticas com a “pelota” apenas para plateias conhecidas e quase que restritas aos acampamentos das construtoras responsáveis pela construção de Brasília. Só vez em quando aparecia um time de fora para jogar como os times locais, que eram formados basicamente por peões de obra. Era difícil até mesmo formar um time de “pelada” em virtude de não conseguir reunir interessados que pudessem arcar com despesas para compra do material esportivo. Quando isso acontecia, era através de muita discussão e egoísmo. Quando não conseguíamos fazer a tal “vaquinha”, cada um se propunha comprar seu material: camisa, calção, meiões e chuteiras. Íamos todos a uma loja de material esportivo e efetuávamos a compra. A única exigência era de que o material fosse igual para todos.
Certo dia, depois de muita conversa e discussão, conseguimos chegar a um acordo. Criamos então o time “Continental Futebol Clube”. Não me lembro se todos eram cruzeirenses. Só sei que as peças de roupas eram todas nas cores azul e branca. Estávamos todos orgulhosos e numa euforia de ressuscitar defunto, quando alguém perguntou:
- Ora, nós compramos as roupas, mas e a bola? Não temos bola! A bola com a qual treinamos é emprestada, se esqueceram?
- Aí, danou-se! Resmungou “Jacaré”, um dos melhores do elenco.
- Como é que vamos treinar e jogar sem bola? Disse “Bolinha”, o mais brincalhão.
Em meio a tantas interrogações, surgiu uma nobre alma para acalmar os ânimos. Pitú, o famoso “Canela de ferro”. O rapaz não era bom de bola, mas tinha as canelas duras que nem ferro. Todos comentavam as entradas duras que ele dava nos adversários, até nos treinos! Pitú se propôs a comprar a bola e a bomba para enchê-la, mas com uma condição: Que posteriormente fosse ressarcido do valor pago pelas mesmas. Todos concordaram, pelo menos naquela hora.
Não haviam roupas de reserva e cada um era dono das suas.
Certo dia, marcamos um jogo com um time da Asa Norte (bairro central de Brasília – uma das asas do avião) e até que o mesmo acontecesse, treinamos todos os dias da semana, mesmo cansados da labuta, que não era fácil. Chegado o esperado dia, entramos em campo com o objetivo de ganhar a partida, embora sabendo da superioridade do adversário. Estava tudo indo muito bem, quando sofremos um gol. Bateu o desespero e no segundo tempo, nosso técnico resolveu fazer uma substituição. Advinha quem foi convidado a deixar o campo? Exatamente ele, o “Canela de ferro”, até então dono da bola, pois ninguém ainda havia pago a quantia a ele devida. Pitú ficou enfurecido e partiu pra cima do técnico, que foi se afastando, porque ele sabia que podia levar um soco a qualquer momento. E o ”Canela de ferro” dizia:
- Eu não vou sair! Se isso acontecer, eu pego a minha bola, e aí eu quero ver se o jogo vai continuar!
E não é que o sujeiro pegou mesmo a bola! Não só a pegou como saiu correndo em direção à sua casa e não mais voltou! Foi um fuzuê danado. Saímos humilhados e vaiados, do campo. Essa foi a gota d’água para o sonho acabar ali mesmo. Era uma vez Continental, que sob polêmica começou e com polêmica terminou!


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