A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 
Conto
 
QUANDO CRIANÇA...
Por: Afonso e Silva

Todo idoso tem boas e más lembranças do tempo de criança. Geralmente as boas são as mais lembradas e que até encoraja a contar aos filhos, netos e pessoas próximas. Agora, àquelas que nos desfavorecem, ainda que nunca esquecidas, raras vezes são externadas. Essas ficam quase sempre presas nos cofres, no entanto, quando contadas são as que mais agradam aos ouvintes. Eu tenho algumas dessas que a partir de hoje, ainda que me exponha à chacota perante aos leitores vou tentar expô-las.

Hoje resolvi iniciar esses relatos e irei começar por um desses que já se encontrava esquecido lá no fundo do cofre. Contudo, depois de muito varrer e remexer tralhas e troços escondidos veio à luz um caso inusitado que aconteceu comigo quando criança que resolvi externá-lo.

O ato tem seu começo ao iniciar uma corriqueira pelada no campo de terra existente, à época, na área reservada ao Acampamento da Construtora Nacional, um local provisório reservado à moradia dos operários e sua família, localizado na Vila Planalto aos fundos da garagem do Senado Federal. Eu tinha por volta de dez anos, com consciência plena de que era um verdadeiro perna-de-pau. Não tinha qualquer intimidade com bola, mas gostava de participar das brincadeiras.

Dessa vez, como não tinha peladeiros desocupados suficientes para completar dois times necessários para utilizar o campo por inteiro, a solução encontrada com os quinze garotos disponíveis foi demarcar uma parte do campo. A partir daí identificar os gols, sem goleiros, com pedras ou latas ou outra coisa qualquer. E assim foi feito. Eu fui logo correndo para recolher quatro objetos. Depois de medir dois passos para delimitar a extensão de cada gol coloquei-os um objeto em cada ponto. Primeiro do lado de um time, depois do outro.

O Fogoió, outro que também não era nada bom trouxe a bola. Em seguida, ficou decidido, entre os peladeiros, que os dois melhores jogadores escolheriam, alternadamente, um componente de cada vez. No caso, esses dois eram o Nonoca e o Jacaré. Tiraram par-ou-ímpar para ver quem escolheria primeiro. Nonoca ganhou.

Então teve início à escolha. O primeiro escolhido por Nonoca foi seu irmão Biquinha, também, diga-se de passagem, bom de bola não tanto quanto Nonoca, mas melhor que muitos. Em sua vez Jacaré escolheu Canavieira, um baiano muito forte e que corria que nem notícia ruim.

E assim se deu até a escolha do décimo quarto integrante da turma. Não precisa nem falar quem não foi escolhido. Mas, para não ser humilhado ainda mais ao me deixarem de fora da pelada, o grupo resolveu que os capitães tirassem outro par-ou-ímpar para ver qual grupo eu iria integrar. Dessa vez Jacaré ganhou a disputa. Obviamente que a expectativa de todos seria de que o time do Jacaré teria oito jogadores e o do Nonoca o sete. E aí veio a surpresa:

O veredicto do Jacaré foi o seguinte:

- Bom, considerando que fui o vencedor e que o time do Nonoca ficou bem melhor, eu decidi que ele vai jogar no time dele.

Risadas e mais risadas. Humilhado, baixei a cabeça e com os olhos molhados virei às costas e fui embora. Não tive coragem de entrar em casa. Sentei num banquinho no terreiro e, engolindo soluços coloquei os braços nos joelhos, encurvei o corpo e coloquei a cabeça sobre as mãos e assim fiquei um tempão. Cheguei até a cochilar, mas não tardou escutei minha mãe da janela perguntando:

- O que houve meu filho?

Nada falei e amuado fui entrando.

Na primeira pelada havida depois disso voltei a fazer parte da turma como se nada tivesse acontecido. Só que dessa vez, ainda que não possa falar que cheguei a jogar tenho certeza absoluta que pelo menos atrapalhei o time adversário.

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: UVMU (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP será enviado junto com a mensagem.