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Conto
 
MATUTICE
Por: Afonso e Silva

Entardecia, dona Chiquinha descia apressadamente o morro do beco que dava acesso à viela. No caminho, em frente à casa de Tonha do sou Manel viu dona Benta e Tonha prosiano. Cumprimentou as duas e continuou sua toada e Tonha lhe perguntou:

- Ondé qui cumade vai com tanta pressa, ocê até parece qui tá com a mãe na forca mué?

Chiquinha sem parar disse:

- Dispois queu vortá conto procês. Agora num posso parar, pois tou com muita pressa. A passos largos continuou sua rota sem nem olhar para trás. Ao chegar à rua principal da localidade virou à esquerda e fugiu das vistas das duas que se entreolharam e curiosas se calaram.

Passados uns minutos dona Benta virou para Tonha e disse:

- Qui será qui aconteceu meu Deus do céu?

Tonha respondeu:

- Nem imagino cumade, mas deve tê aconticido argum treim ruim cum gente lá da rua.

Seus pensamentos vazavam em suspiros e muxoxos inteligíveis.

Já estava quase escurecendo e as duas continuaram ali pasmadas. Simultaneamente franziram as testas e com trejeitos involuntários levaram as mãos às cabeças balançando-as dum lado ao outro. Já escurecia e nem sinal de dona Chiquinha. Aí Tonha virou para dona Benta e disse:

- Lá vem o Zé, vamo entrá cumade? Tenho qui prepará um guisado prá nós cumê.

Tonha agradeceu e disse:

- Também preciso entrá, amanhã a gente fica sabeno o acontecido.

Despediram-se dando boa noite uma para a outra e cada qual entrou em sua respectiva casa.

Naquela noite, nem uma nem outra dormiu direito e o galo nem tinha cantado ainda, as duas já estavam em frente suas casas. Ao se verem as duas se cumprimentaram e foram, ao mesmo tempo perguntando:

- Cê ficou sabeno darguma coisa?

As duas se entreolharam e balançaram as cabeças negativamente. Também juntas esboçaram a pergunta:

- Vamo lá vê o qui houve?

- Dona Benta falou:

- Vontade não me falta, mas acho qui tá muito cedo, né?

- Verdade!

Respondeu Tonha.

- Vamo cuidá dos trens de casa e isperá dona Chiquinha nos contá, né?

- É mió mermo, respondeu Dona Benta.

Não tardou lá vem dona Chiquinha descendo o morro e, primeiro chamou Tonha e logo em seguida Dona Benta. As duas num piscar d’olhos estavam juntas. Aí, sem ser perguntada, dona Chiquinha começou a falar:

- Cumades o trem tava feio onte na casa da Zefa. O fio mais véio dela, o Tião, vocês conhecem, tava com uma dor danada na iscadera. Se contorcia todo dizendo que a dor ia da cacunda ao peito. Zefa falou que ele já tinha tomado um tanto de remédios qui o Nestô famacêutico passou, mas invêis de miorá o trem só piorou. Aí mandou Ritinha, sua fia me chamá. Chegano lá, vi logo de cara cuminino tava com a ispinhela caída. Não foi nada fáci... O minino chorava dimais. Pedi que ele tentasse ficar na ponta dos pés, levantasse ao máximo que pudesse os braços. Ainda que contorcendo em dor, assim ele fez. Aí benzi e demorou um tanto. Perguntado disse que ainda dóia, mas sentiu que miorô um tiquim. Hoje vou ter que vortá lá no mermo horáio pra mode vê cumé quele tá e se pricisa sê benzido dinovo.

Despediu-se das duas e voltou. Nem chegou a entrar em sua casa, pois ao olhar para trás parou viu, lá no começo do beco, que uma pessoa subia o morro numa carreira desenfreada. Esperou um pouco e a pessoa ao chegar mais perto ela viu que se tratava do Bené, marido da Zefa, que ao chegar mais perto, com a voz embargada disse:

- Dona Chiquinha, o Tião não vingou. Chiquinha se abraçou a ele e os dois choraram juntos por bom tempo. Aos dois se juntaram Dona Benta, Tonha e outras pessoas do beco.

Perguntaram ao Bené de que o Tião tinha morrido, a resposta de Bené foi:

- Ele morreu de espinhela caída.

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