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Crônica
 
TRAÇÃO HUMANA - 07-05-2010 - Reeditado
Por: Tolentino e Silva

TRAÇÃO HUMANA
Por: Tolentino e Silva


De acordo com o Código Nacional de Trânsito (CNTB), os veículos considerados de tração animal são aqueles que são conduzidos por animais, como é o caso das carroças, charretes, carros de bois, carroções, carriolas e outros que os caracterizam. Esses veículos eram e ainda hoje, são usados no interior, só que em pequena escala, para o transporte de cargas, principalmente lenha e produtos colhidos nas roças, como os da agricultura familiar, milho, arroz, feijão etc., transporte de entulho. Isso se dava em virtude da escassez de recursos financeiros e mão de obra especializada, fatores esses que impossibilitavam a aquisição de veículos automotores, movidos a diesel ou a gasolina. Os veículos de tração animal, dependendo da quantidade de produtos a ser transportada formavam verdadeiros comboios juntamente com as chamadas tropas, cujas cargas eram transportadas nos dorsos dos animais, utilizando as cangalhas como adornos para sustentação das cargas e proteção dos animais. Quando cheguei a Brasília, por volta de 1962, fiquei admirado com a grande quantidade de catadores de papel, sucatas de cobre, plástico, vidro, alumínio, chumbo, ferro, estanho e zinco, que sobravam ou eram substituídos nas inúmeras construções daquela época. Brasília parecia mais um formigueiro, tendo em vista a quantidade de peões que fomentavam o mercado imobiliário civil e administrações públicas. Muitos catadores, os chamados informais trabalhavam diuturnamente, porque os rejeitos das obras eram descarregados à noite, em diversos pontos da cidade ainda em construção. Maioria tinha carroças e animais para transportar o material coletado. Certo dia, a caminho do trabalho, deparei-me com uma enorme carroça, equipada com pneus velhos, de automóvel, feixes de molas, lanternas traseiras, algumas frases interessantes, pedaços de borracha presas sob a carroceria, servindo de lameiras. Era uma imensa carga. Ali parecia ter de tudo, do papel ao cobre. Como eu a via por trás, só pude perceber o que ou quem a puxava quando a ultrapassei. Deparei-me com um senhor forte, barba ruiva, pés descalços, calça com diversos remendos costurados grosseiramente e enrolada até os joelhos. A camisa, um verdadeiro molambo, mas nada disso o incomodava. Seu semblante aparentava de uma pessoa contente, apesar da situação em que vivia. Um cigarro grosseiro, de fumo de rolo, fumarando num canto da boca. Entre uma baforada e outra, silvava uma canção não conhecida. Orgulhoso e com passos firmes, conduzia aquele enorme veículo.
Curioso por ver aquele senhor puxando a enorme carroça, supostamente pesada demais para um ser humano, resolvi, de forma cordial, lhe fazer a seguinte pergunta:
- Não é sacrifício demais, puxar tão grande veículo, com esse volume de recicláveis, ademais, fazendo um serviço que deveria ser feito por um cavalo, um burro, uma égua, sei lá o que? O senhor cessou os movimentos, interrompeu o assobio, parou a carroça, apoiou sua parte inferior sobre o meio-fio e convidou-me para nos sentar-me ali com ele. Aspirou novamente o cigarro, emitiu uma enorme quantidade de cuspe para o lado e começou a contar sua história. Era uma história demasiadamente triste. Vez em quando as lágrimas desciam e penetravam na enorme barba encaracolada. Seus lábios tremiam quando sussurrava nomes de pessoas da família que deixara, quando saíra em busca do sustento pata todos. Tinha uma sensibilidade exacerbada, melindroso. Notei que, às vezes, minhas perguntas o constrangiam, mas sua história me comovia e eu queria saber mais. Foram quase duas horas de conversas e confissões. Transeuntes passavam, observavam e até fotografavam a gente. Àquela altura, eu já estava com duas horas de atraso para começar meu labor. Então, pedi licença, fui até a um telefone público (orelhão) próximo e liguei para o meu chefe, tentando justificar o não persuasório atraso. Despedi-me então, pedi licença ao catador e saí dali com aquela história na cabeça, a imagem daquele homem-animal que puxava carroça para sustentar sua família. Cheguei à triste conclusão de que na vida se paga caro para se ter consciência do próprio valor, ter dignidade e honestidade! O sujeito desta história, ignorado, é despercebido, como também o seu importante papel para com o meio ambiente e limpeza da cidade, que de forma indireta, sem salário o faz. Enquanto homens, iguais a esse catador de recicláveis enfrentam no dia a dia toda a má sorte, intempéries, humilhações, enquanto outros, com algumas exceções, se travestem de “autoridades” para manipularem e sacrificarem o povo, através do poder a eles outorgado, pelo sufrágio universal, previsto no artigo 14 da Constituição Federal de 1988: (pelo voto).










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