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Poema
 
POEMAS DIVERSOS DA AUTORIA DE JOÃO MBATCHI
Por: Joaquim Mbatchi

2 DE ABRIL DE 2019 A 2 DE ABRIL DE 2021, HOJE É O 2º ANIVERSÁRIO DA PARTIDA DE JOÃO MBATCHI PARA ETERNIDADE

Querido pai, foi a 2 de Abril de 2019, um dia como hoje, que tu nos abandonaste, preferindo juntar-te aos antepassados, deixando-nos cada vez mais desolados nesta martirizada terra. Já nos fazias falta quando, por causa da situação política, deixavas a família à sua sorte para te aliares aos ideais da revolução. Depois de longos momentos de ausência ainda te víamos de volta para os abraços e afeição paternal. Outra vez sonhei que tinhas ido “ku izombe”, como anteriormente, e que algum dia voltarias. Quando vejo os teus retratos nos diferentes álbuns que tenho, julgo que estás algures e que brevemente nos vemos. É verdade que a tua viagem sem regresso ainda nos deixa vergados, como uma planta emurchecida, que mesmo regada mil e uma vezes jamais reverdece. É tão largo e profundo o precipício que hoje nos separa, ninguém dali regressa à procedência, só os daqui vão desfilando irrecusavelmente para ali.
Diz-se que dentre os que jazem no sepulcro não há quem fale da bondade ou das maravilhas do Senhor, porque eles estão inconscientes. Olhando para aquilo que os nossos mais velhos reportaram, os mortos, embora não estejam mais entre nós, fisicamente, eles ainda vivem noutro mundo onde os nossos olhos carnais não alcançam. Também há quem diga que eles acompanham os nossos gestos de vida, por isso gostaríamos, querido pai, que voltasses para nós afim de nos dizer como encontraste aqueles que te antecederam, apesar da demora que nos impacienta.

Enquanto refugiado e revolucionário, João Mbatchi era um homem de caneta e papel com os quais registava factos relacionados aos diferentes momentos da sua vida em fragmentos repartida. Escreveu acontecimentos inerentes aos nossos usos e costumes, à nossa história e também alguns poemas onde o destaque vai para “Lamentações”, “Tempo meu Desejo”, “O Grito da Dor”, “Cabindês Eu Sou” e “Se Me Permitir Te Digo”, escritos no exílio e este último já em Cabinda, após o seu regresso.





LAMENTAÇÕES

Deixai que eu veja!
Um deserto que não seja;
Novas terras não quero
Oh! Como eu te aspiro!
Cabanas nas solidões do mar
Povos que não deixam de admirar
Não sei o que me fica na mente
Rumores, um ai de dor quebrante.

Oh! Como te não sou estranho
Quando a sorte desgraçante
Surge ao encontro, barrando caminho.
Eu sinto o odor das tuas vestes
A poeira, a lava que levantas
Descansando em praias de amargura
Paz, sossego, um mar que te assegura.

Deixai que eu veja!
Alteio o peito, vou torcendo os braços
Gente que não é gente, gente me enoja;
Pronta decide no que não entende!
Enigmáticos desejos o povo destrói;
Oh povo! Deixai-me chorar perverso
Porque sou teu filho desde o berço.

Deixai que eu veja!
Palhotas na densa selva erguidas,
Crianças, raparigas, viúvas… veja!
São episódios que ao tempo vão seguidos.
Quanto me não lembro da esbelta figura!
Perdi tudo para viver despojado
E quanta esperança não é confundida,
Convosco, ó esperança nunca mais volvida!

Não podem crer os génios cabindenses
Que a vida exige sacrifícios!
O que retrocedeu à guerra dos romanos;
Conheço finalmente o precipício
Aspérrimas batalhas produzem desgraçados;
Emendai os erros do passado
A língua impenitente;
É tempo transposto volvendo a falácia.


Algures, 1979
João Mbatchi (Manga Ndose Ntu)








TEMPO MEU DESEJO

Ai! não; que imagem monstruosa vejo?
Não; fui sempre infeliz, ó tempo meu desejo!
Se é isto a vida… a vida sem vida.
Vejo silhueta de fantasma que extasia
Fascinando a gente; dupla vassalagem!
E a cada passo promessas que à gente ludibria
Esse eterno obscurantismo, falaz miragem!
Condenai a boca sedutora que nos mentia.

Deixai-me ver
O berço da minha infância,
Aquele berço de banzas luzido
E também o ouro, petróleo, madeira e fosfato…
Tudo volatiza a minha alma em ânsia.
Riquezas que já não tenho sonhado.
Oh! povo que me acompanha…

Deixai-me recordar as praias do Chinga
Também Njiembo e Bungo Fuana.
E tu Subantando, fonte das minhas luzes
Tanta gente a tua escola foi formando,
Heróis e mártires da pátria, somos do teu berço;
Praias de lágrimas a cada passo;
Fútila, belas horas passei ao teu lado
Malembo, Lândana, Mandarim meu amado.

Exílio, deste-me tempo para recordar
Que livre vivi desde a infância
Tu podes justificar;
Amei para não viver só… bela imagem;
Mas exílio me deste, a quê destino fui subjugado!
Dele vieram-me filhos do acaso
Salvai-me, tempo, do jugo cruel, do estranho caso,
Salvai este povo esquecido no degredo.


Kbga, 1979
João Mbatchi (Manga Ndose Ntu)





CABINDÊS EU SOU

Mundo dizei-me o que valho
Enquanto for cabindês, eu sou.
Cá morro na dor que me assola
Vestido de luto, à cabeça o vermelho
É meu desejo que vos retrate
Minha dor tão sufocante,
Que dia vós me destes
Que vos não vi arrogante!

Mundo dizei-me o que valho
Dizei-me a quem me igualais;
Se soubesse o que valho
Quanto vos não lembrava os males!
Se quiserdes abro-vos o coração;
Dizei-me tudo quanto sou
Sem pena do que não é são,
Dizei-me todos quem eu sou.

Mundo dizei-me o que valho
Meu povo me acompanha no tempo
Mentiras, falsas promessas no trabalho
Quanta lembrança vos não dei tempo!
Se desconheceis a minha identidade
Filho africano também sou
E se considerais que seja vaidade
Dizei-me vós quem eu sou.

Algures no Exílio
João Mbatchi (Manga Ndose Ntu)







O GRITO DA DOR

Uma verdade tortuosa e obscura
Levou-me ao termo da subida
Depois da descoberta, atónito, da altura
Já o mal ladeava a vida.

Metido no mato eterno, procurando saída
Ouvi o tropel da orla
Das populações em sua ida
Para a vida que não é vida, vida matanhola.

O mundo viu-me barrado de miséria
Seguindo a rota de amargura;
Chorei pela dor e pelo desterro
Mas o mundo levou-me à sepultura.

No silêncio do mundo o povo me acompanhava
Despertando-me a dor a silhueta
Que, carecido de víveres, a morte me despertava
Então, gritei ao mundo e disse basta…


Algures no Exílio
João Mbatchi (Manga Ndose Ntu)







SE ME PERMITIR TE DIGO

Permitir todas as ambiguidades,
A ponto de não me respeitar,
Ó fonte de água cristalina!

Se me permitir eu te digo
Todas as tuas ambiguidades,
A ponto de não me respeitar.

O teu viver descreve paisagens
E a pluviosidade da água do teu leito,
Correndo entre vales
É um pensamento inédito
Que se torna uma torrente rápida,
A desenhar a tua formosura;
Sonho a desafiar espíritos e ilusões,
Água cristalina da levada fonte,
Por mim foste construída com amor.

Fiz-te canal dos meus sonhos a dissipar a dor,
A matar a sede à terra e à gente;
Tu és das minha paixões e conflitos,
Lenda bonita, mas triste e amarga.

Tens fome e sede como os bichos e eu,
Para acabar com o cenário de intrigas e paixões,
De quem a ambição é poder.
Construí-te com amor e carinho,
Fonte de água cristalina para jamais
Permitir todas as ambiguidades,
A ponto de não me respeitar.


Cabinda, 1998
João Mbatchi, (Manga Ndose Ntu)











A PAIXÃO DUM HOMEM

Entre tudo que ocultam
As paredes da minha casa
Está todo o bem que te quer.
O drama do meu coração
Há muito tempo se exprime
Vendo-me entrar e sair.

Faço promessa, faço viagem
De voo ou de automóvel
Em mim vai preso o sentimento.
Tu existes, leviano, isso não!
Sou prisioneiro renovado
Sou a tua alma,
O prazer da tua existência,
A essência dos amores vividos.

Sinto, dias e noites
O calor dos teus abraços,
A elegância dos teus sorrisos,
A ternura das tuas mãos,
A união que sempre nos animou
O desejo que nos embalou;
Quero-o vivo no meu íntimo.

Minha honra, minha paixão
Somos selvagens fictícios
Que não diga a alma sã
Com ilegalidade das nossas virtudes.
Se tudo pudéssemos saber e concluir.

Fomos feitos dois neste mundo
Para apreciar as mesmas tribulações
Para vivermos as mesmas tentações,
Um homem e uma mulher
Que comprazem a Deus e ao mundo,
Uma paixão, qualquer coisa,
A embeber corações apaixonados
E a enfeitar paisagens rústicas
Com abundância de ouro e diamante.


Luanda, 14-09-1997
João Mbatchi (Manga Ndose Ntu)






TUDO TENHO

Com Jesus eu tenho
Tudo para mim!
A vida que eu preciso
Porque Ele é a vida.

A água para matar a sede
Porque Ele é a fonte pura;
O pão para matar a fome
Porque Ele é o alimento vivo.

Com Jesus eu tenho,
Eu tenho a vida eterna;
Para a minha condução
Ele é o meu guia.

Para os meus pensamentos
Ele é a minha luz verdadeira.
Para os meus desejos
Ele é o modelo.

Para os meus passos
Ele é o caminho certo;
Nas minhas consultas
Ele é o médico.

Nas minhas culpas
Jesus é o juiz;
Nas horas de amargura
Ele é o meu consolador.

Se não sei mais o que fazer
Ele é o meu mestre;
Nas minhas dúvidas
Ele é o meu consultor.

Na minha perdição
Ele é o meu pastor,
Se quero cantar
Jesus é o meu maestro.

Jesus é meu pastor
Nada me faltará;
Do meu sono profundo
Ele é o despertador.

Da minha penosa cruz
Ele é o Cireneu
Que ajuda a levar
O peso dos meus pecados.

Jesus é o verbo divino,
O caminho, a verdade e a vida
Para se alcançar ao Pai
Princípio e fim de todas as coisas.

Rei do universo, feito homem,
Ofereceu-se no madeiro
Para me libertar
Contra as forças do mal.

Com Jesus eu tenho
Tudo para minha vida.

Cabinda, 26-11-1997
João Mbatchi (Manga Ndose Ntu)









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