A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

Luiz Roberto Pires Domingues
Publicações
Perfil
Comente este texto
 
Crônica
 
O Que É Ser Inteligente?
Por: Luiz Roberto Pires Domingues

Creio que seja uma curiosidade nossa a de saber exatamente o que seria uma pessoa inteligente, e o que isso poderia significar na sua vida.

Em mais de cinquenta anos de vida escolar, Deus me deu uma grata oportunidade de conviver de perto, e vivenciar o dia a dia com uma pessoa extremamente simples, humilde, de rara inteligência. Não se tratava de alguém simplesmente inteligente. Era uma inteligência raríssima, da qual todos à sua volta reconheciam ser algo excepcional, de alguém com um QI elevadíssimo, mas com condutas de uma pessoa absolutamente normal.

Aprendi que ser inteligente é algo quase que inatingível por pessoas consideradas normais.

Tratava-se de um colega de turma no Curso Técnico Têxtil realizado na Escola Técnica de Indústria Química e Têxtil, no Riachuelo, Rio de Janeiro nos anos de 1963 a 1966.

Era um curso de quatro anos, no qual os três primeiros correspondiam ao então Científico da época, acrescido de mais um ano, para se formar, também, em técnico têxtil.

Tínhamos 16 (dezesseis) matérias por semestre, com aulas de segunda a sexta-feira, de 7:00h às 17:00h, e um intervalo para almoço de 11:00h às 13:00h. Eram oito aulas por dia. Era uma rotina puxadíssima para alunos, em geral, com cerca de 16 a 20 anos. Dezesseis provas por mês, com 21 a 22 dias úteis. Uma prova quase todos os dias, ano após ano.

Estudávamos incessantemente durante o semestre inteiro. Tínhamos o costume de nos reunirmos, quase sempre, em grupos de três a quatro colegas, a fim de estudar para as provas.

Um dos nossos colegas, que não estudava com ninguém, Walfrido Moreira, só nos encontrava nas aulas e na hora da prova.

Walfrido não faltava às aulas. Era um aluno regularíssimo. Sentava-se em sua carteira na sala de aula, no meio da turma, na terceira ou quarta fileira, e não conversava com ninguém. Era brincalhão, simpático, não tinha nenhuma vaidade com absolutamente nada. A barba estava sempre por fazer. Ia para a aula com total descontração, e com uma roupa sem qualquer requinte. Pelo contrário, era de uma simplicidade a toda prova. A impressão que nos dava é que ele nem as passava. Ele também não estava nem aí.

Sentava-se na sua carteira, e lá ficava, sem falar com ninguém, depois da aula iniciada. Fixava-se no professor, e nem mosca era capaz de tirar a sua concentração. Nunca vimos o Walfrido fazer qualquer pergunta ao professor. Ele não possuia caderno, e muito menos caneta. Nada! Prestava atenção no professor e nada mais. Não anotava absolutamente nada.

Nos intervalos saía da sala, para conversar com os colegas, e em cada intervalo conversava, assim como eu, com um grupo diferente. Éramos uns trinta alunos. Mantinha uma conversa normal, e sem falar sobre qualquer dúvida nas matérias estudadas. Entrava e saía das aulas sem papel e sem caneta. Assim era o semestre inteiro.

Chegava o dia da prova, e lá estava o Walfrido na sala, quinze minutos antes, pedindo a um dos colegas para emprestar-lhe a matéria, para ele dar uma olhada rápida. Folheava o caderno, rapidamente, inclusive o meu algumas vezes, e o devolvia, agradecendo.

Logo em seguida procurava algum colega para saber se ele tinha uma caneta de reserva, para emprestá-lo, porque ele mesmo não tinha nenhuma. Dizia que perdia todas.

Fazíamos a prova e o Walfrido, canhoto, nada falava com ninguém. Não pedia e nem dava cola. Era quase sempre o primeiro a entregar a prova pronta ao professor.

Era costume dos professores trazer as provas corrigidas na primeira aula seguinte, e divulgar as notas de aluno por aluno, disponibilizando-a, para quem quisesse revê-la corrigida.

Ao divulgar as notas passou a ser corriqueiro ouvirmos: Walfrido Moreira nota dez. Prova atrás de prova, matéria atrás de matéria, e Walfrido Moreira nota dez. Passou a ser uma coisa banal. Raramente ouvíamos algum professor falar: Walfrido Moreira nota 9,5.

Em conversa com os colegas, ele simplesmente dizia que prestava atenção na aula, sem conversar com ninguém, e não perdia tempo fazendo anotações, porque isso o distraía, e ele perdia o fio da meada do assunto apresentado pelo professor. Nunca vimos o Walfrido com um livro na mão. Era surreal.

Alguém que nunca teve caneta, nem caderno ou livro, não anotava nada em lugar nenhum, pedia para ver a matéria rapidamente na hora da prova, não levava caneta nem no dia da prova, só tirava dez, e raramente 9,5, só pode ter uma inteligência muito acima do normal. Era um gênio, incomparável a qualquer outro que tive oportunidade de conhecer, em toda a minha vida escolar, nas faculdades de Economia e de Direito. Um QI elevadíssimo.

A sua simplicidade era de estarrecer. Uma humildade flagrante e exemplar. Nunca vimos o Walfrido se desfazer de ninguém, e nem elogiar a si mesmo. Nada. Tirar dez era uma coisa tão corriqueira na sua vida que ele nunca pediu para ver as provas, depois de corrigidas. Nem aquelas em que ele tinha tirado 9,5.

Inquirido por algum colega sobre esta nota surpreendente, ele simplesmente nos dizia, com total naturalidade:
- Devo ter faltado a alguma aula.

Sem comentários!!!

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (2)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: HEPL (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP será enviado junto com a mensagem.