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Conto
 
OLHOS REFLETIDOS- Suspense diante do espelho.
Por: PAMMÝ RODRIGUES

Respirei bem fundo de frente o espelho. Eu era uma garota com fascínio explicito por espelhos.
Sempre os admirei. Quando criança costumava dizer que minha melhor amiga era o meu reflexo no espelho.
Mas me olhar naquele não foi fácil, muito menos prazeroso.
-Eu devo fugir - disse para mim mesma refletida.
Meu reflexo imóvel, porque eu estava imóvel esperando um comentário qualquer a respeito daquela situação.
Olhei em meus próprios olhos, não com muita nitidez já que "ele" me obrigou a ingerir algo que deixou tonta por horas.
-Sim você deve fazer isso. Ele não é louco. Não...Ele tem consciência de tudo que faz com você.- voltei a dizer como se fosse meu reflexo me respondendo.
A vantagem de ter essas conversas é que raramente eu entrava em conflito com meu reflexo.
Observei meu olho direito. Estava horrível, apesar da maquiagem pesada para disfarçar o machucado.
-Ele fez isso com você!!!-voltei a dizer.
Minha cabeça ainda doía. Sem falar nas outras partes do meu corpo.
Porque ter medo de fugir, se ficando você poderá morrer? Ele estava la fora sonhando sonhos tranquilos com as chaves escondidas Deus sabe onde, enquanto eu estava naquele cubículo vivendo um pesadelo.
-Porque se enganar com as carinhas angelicais?-perguntei indignada para meu reflexo que consequentemente mostrou-se indignado.
Mas na verdade a questão era: "porque amar um psicopata?".
Não que eu o amasse agora. Não depois de descobrir de uma forma cruel que tipo de pessoa ele era. Não. Eu já não o amava mais. Porém uma noite antes daquilo eu o amei muito.
Ele me convidou para aquele passeio. Finalmente estaríamos longe de tudo.
Eu estava longe de tudo agora, e apenas perto do medo.
Era o medo que não me deixava dormir a noite. Era o medo que me deixava ainda presa nele.
-Preciso sair.Preciso fugir. Amar assim,não é amar. Ninguém ama mutilando. Ninguém.-disse fechando meus olhos.
Não queria mais as repostas do meu reflexo bobo a me fitar. O que queria era sumir. Para qualquer lugar e em qualquer condição. Queria sumir.
Senti passos logo atrás. Secos contra o mármore.
Um quase toque de uma mão fria. Um quase toque que me fez arrepiar.
Tentei abrir meus olhos, mas novamente era o medo que os cerrava. Tentei mover qualquer músculo do meu corpo. Todo o meu corpo era medo, e o medo é uma pedra fria e funesta.
Enfim o toque. Se antes tudo era medo, agora era desespero. Desespero ou quem sabe algo mais forte do que eu possa descrever. Na realidade era a certeza. Sabe...A certeza de que nada poderá ser feito. A quase morte por assim dizer.
-Sentiu saudades?.- "ele" perguntou bem próximo do meu ouvido.
Não que eu fosse fraca, ou não tivesse vontade de revelá-lo. Mas estávamos no meio do nada, e sem nada. Apenas nós dois. E eu era sua prisioneira naquela maldita floresta esquecida. O que era pra ser o passeio perfeito. Talvez tenha sido para ele. Me torturar de todas as formas foi algo que o deixou bastante feliz.
Minha felicidade estava bem longe dali. Estava ainda no garoto mais velho, porém muito sedutor por quem me apaixonei no cursinho. O garoto não era mais o mesmo. Na verdade aquele garoto jamais existiu realmente, tudo era um disfarce de uma mente doente. Ele me olhava com tanta admiração. Como poderia imaginar que enquanto ele me olhava tão apaixonadamente ele traçava todos os planos para me tirar do conforto da minha casa, e me submeter a tudo aquilo. Não... jamais poderia imaginar.
Agora ele estava com suas mãos frias em meu fino pescoço.
Apertava levemente.Mas o suficiente para meu coração acelerar.
-Sabe o que mais me chamou atenção em você?-ele me perguntou ficando na minha frente mas sem tirar as mãos do meu pescoço.
-Não!-respondi secamente,mas sem olhar para ele.
-Esse seu fascinio por espelhos.Também tenho,acredite.
E me virou de frente ao espelho novamente.
-Veja como somos perfeitos.Você é muito linda. Perfeita. Mesmo que não fosse apaixonada por mim,mesmo que não tivesse aceitado esse convite tão facilmente, eu a traria aqui para fazer tudo aquilo que fizemos.-disse ele.
Só de lembrar o que ele havia me feito, me provocara ânsia de vômito.
-Eu amei você noite passada.Amei seus olhos tão grandes de medo. Amei seus gritos abafados em minhas mãos.-
Se aproximou e tocou meus lábios com os seus.
Não posso descrever o que senti. Era um pavor mais repugnante que alguém pode sentir.
Segurou meu pescoço firmemente apenas com uma mão.Não consegui soltar-me embora fizesse um esforço sobre humano.
Então vi aquela agulha, não muito fina vindo em direção do meu pescoço.
-Nããã...
Quanto tempo se passou, eu não poderia dizer. Nem ao menos o quanto meu corpo doía.
Tudo estava rodando. Tudo era um turbilhão incluindo pensamentos e lembranças.
Meu corpo estava preso. Aquele lugar era tão apertado.
Quando olhei ao meu redor, não podia acreditar.
Comecei a ficar sem ar.
Vi meus olhos reflitos naquele espelho. Nunca odiei tanto um espelho quanto odiei aquele.
Aquele lugar apertado em que agora estava respirando com tanta dificuldade era um caixão de espelhos.


Não sei o que me fez acordar, se foi o desenrolar do pesadelo, ou se a buzinado carro de Adam na minha porta.
Acordei mas não abri os olhos. Sabia o que veria quando o fizesse.
Outra vez Adam buzinou.
Abri os olhos.
A sensação foi inteiramente igual a do sonho.Porque eu tinha um enorme espelho no teto do meu quarto.
Fitei meus olhos.
O que poderia ser aquilo? Que pesadelo havia sido aquele?
Meu corpo não estava machucado, muito menos meus olhos.
Adam buzinou outra vez. Não havia sido com ele aquele pesadelo. Mas Adam tinha o mesmo ar angelical e mesma vontade de me agradar o tempo todo.
Arrumei-me.
Adam estava já impaciente. Planejara tudo para aquele fim de semana. Ele dizia que iria ser perfeito.
Antes de sair voltei ao meu espelho outra vez.
-Tchau.-disse para o meu reflexo, poderia ser loucura, mas costuma fazer isso semrpe que saía de casa.
Meu reflexo estava abatido. Parecia até se despedir.
Como foi o meu final de semana perfeito?
Bom... se eu tivesse sobrevivido os contaria com maior prazer.

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