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Crônica
 
OS MENDIGOS E OS TELEFONES
Por: Tolentino e Silva

Às vezes são apresentadas aos nossos olhos, coisas que nos deixam estarrecidos.

Na minha infância, conheci apenas duas camadas da sociedade: a pobre da qual eu fazia parte e a rica, da qual nós pobres dependíamos. Não havia intermediária, exceto mendigos, andarilhos e nômades.

A mendicância era acentuada. Contudo, era feita por mendigos reais, sem fantasias, sem máscaras. Eram pessoas que não tinham: lar, comida, roupas, quase que indigentes.

Os tempos mudam e as pessoas se transformam com eles.

Com a evolução tecnológica, surgiu um conjunto de equipamentos e acessórios, programas e circuitos que distribuem informações digitais a usuários e técnicos. Todos correm atrás da informação digital, seja lá qual recurso usem, todos querem acompanhar a evolução.

É verdade que, a busca desenfreada pelo modernismo, acaba levando-nos a dívidas, transtornos, muitas vezes irreparáveis.

Há quem, mesmo sem trabalhar, consegue modernizar-se, não se sabe como!

Certo dia, estava em um Box da estação rodoviária de Brasília, à espera do ônibus da linha Riacho Fundo I, onde eu tinha um escritório imobiliário.

É costume grande parte das pessoas puxarem conversa com alguém, mesmo que seja somente para reclamar da empresa concessionária, devido à demora do coletivo.

Estávamos ali, eu e um conhecido, conversando, a fila crescendo, muitas reclamações.

Observando sempre ao redor, aquela confusão. Uns pediam informações acerca de horários, outros usavam o terminal apenas como passagem, alguns lanchando, outros tomando cerveja, outros ainda “pescando” passageiros para o transporte clandestino.

Durante àquela espera, observava uma senhora, supostamente mendiga,

consuetudinária, que há alguns anos a via por ali. Com uma bolsa preta sobre o ombro, abordava as pessoas, pedindo-lhes, na sua linguagem, “uns trocados”.

Certo momento, observei atentamente, quando de súbito, tive uma surpresa:
a campainha de um telefone começou a tocar. Era um toque musical, muito alto e uma música bem moderna. Um procurava aqui, outro ali, homens levavam as mãos aos bolsos, mulheres abriam as bolsas e de repente, o telefone para de tocar. A suposta mendiga havia aberto a bolsa e retirado de lá um moderno telefone celular e o atendia.

Curioso e estupefato, mesmo sabendo que é falta de educação ouvir as conversas alheias, não pude conter a curiosidade. Quando já perto, ainda pude ouvir a seguinte frase:

- “Olha aí cara, até agora, faturei apenas “miúdos”. O povo tá ficando munheca demais! Na verdade, deixe eu te falar camarada, cê precisa me mudar de ponto, este aqui já era”.

Não só eu, mas todos que ouviram, ficaram perplexos. Um dos que estava na fila partiu para cima da mulher, dizendo:

- “Sua vigarista, safada, vagabunda, já lhe dei dinheiro várias vezes e é bem capaz de você ter mais do que eu e além do mais, parece que você faz parte é de uma quadrilha, sua filha de uma...

Dizendo aquelas palavras, saiu da fila e desapareceu por alguns minutos. De repente, lá vem ele com dois policiais.

Um deles perguntou:

- Prender quem? Cadê a mendiga?

Apesar de todos confirmarem o ocorrido, não houve como prender a mulher, que ao perceber a movimentação, "deu no pé", deixando todos embasbacados, com caras de idiotas.

Há pouco tempo haviam prendido várias mulheres que saíam bem vestidas de suas casas e ao chegar ao Setor Comercial Sul, trocavam de roupas, vestindo alguns trapos e muitas vezes até alugavam crianças de colo, fingindo serem suas mães, ficavam meneando por entre as calçadas, usando as inocentes para enganar as pessoas. Muitos davam dinheiro, penalizados com a situação em que as crianças se encontravam.

Em Belo Horizonte, a situação não foi muito diferente.

Morando, temporariamente, na linda capital mineira, costumava sair da Avenida Afonso Pena e subir pela Rua dos Guajajaras. Naquele trajeto encontrava sempre um mendigo. É um senhor de barbas e cabelos longos, descuidados, embranquecidos pelo tempo.

Ficava sempre pelas esquinas, encostado em alguma parede ou uma banca de revistas, ou na porta de um pequeno restaurante, onde eu costumava tomar minhas refeições.

Apesar das aparentes mazelas e esmolambado, era bom de papo. Um dia puxei conversa com ele e disse-me que já foi poeta, o que de fato parecia, não ter sido, mas ser, recitando alguns poemas de José Inácio de Alvarenga Peixoto e Cecília Meireles. se expressava muito bem, pausadamente e fazia gestos coreográficos. Ainda me lembro de trecho do poema “Bárbara Bela”, de Alvarenga Peixoto, no qual homenageia Bárbara Heliodora:

- “Bárbara bela, do norte estrela,

que o meu destino sabes guiar.

De ti ausente,

triste somente,

as horas passo a suspirar...”



Outros poemas, por mim desconhecidos foram recitados para eu ouvir, dizendo serem seus, feitos para a ex-esposa, que há muito havia deixado. Hoje, segundo ele, estava naquela situação, esmolando e precisando ser submetido a uma cirurgia na próstata.

Numa daquelas conversas me falou sobre seus colegas mendigos:

- Você conhece fulano?

- Não, respondi.

- E cicrano?

- Também não.

- E aquele ali?

Indigitava em direção ao restaurante da UFMG, onde estava um senhor que aparentava bem mais novo que ele.

- Pois é. Eles não precisam. Pedem por vício e safadeza. Todos eles têm casa e carro. O cicrano tem até apartamento alugado.

- Se eles têm tudo, por quê pedem? Perguntei.

- Preguiça de trabalhar. Além disso, na rua dá mais. Eles juntam o que ganham com os pequenos furtos e drogas.

Daquele dia em diante, passei a lhe ajudar nas refeições, quando o via, naquele horário.

Numa sexta-feira, preparando-me para viajar para minha cidade natal, saí às pressas para almoçar e comprar algumas coisas a mim encomendadas, quando me deparo com o referido senhor, na esquina da Rua da Bahia com a Avenida Afonso Pena. Ele não havia me visto. Caminhei em sua direção para cumprimentá-lo, quando um telefone tocou. De repente ele abre a frente do sujo paletó, tira um celular do bolso da camisa e diz:

- Oi. Sim sou eu.

Estava cabisbaixo e quando olhou para cima e me avistou, escondeu o aparelho e meio sem graça, ajeitando o enorme bigode, me cumprimentou dizendo:

- Olá meu amigo, tudo bem?

- Não, não está tudo bem! Respondi.

- Por quê?

Perguntou!

Irritado, eu lhe disse:

- Veja só como são as coisas. Eu trabalho todo santo dia, para, com sacrifício, conquistar minhas coisas e o que vejo: um senhor, pedinte, com um telefone celular, último lançamento, muito superior ao meu! Isso está certo? Vocês estão muito modernos para o meu gosto!

Saí aborrecido de perto daquele senhor que me inspirava tanta confiança e, no entanto, não passava de um enganador.

Não tive coragem de denunciá-lo, mas mesmo com o coração partido, deixei de ajudá-lo, passando a ajudar outras pessoas que me pareciam necessitadas. Não usavam máscaras.

Não sei se fiz a coisa certa ou errada. Só sei que não quis mais saber de ouvir as poesias e as histórias, “supostamente” tristes, daquele senhor, apesar de que, já estava gostando de prosear com ele.



Tolentino e Silva – Geraldo - Virginópolis/MG

OBS: a máscara aqui citada, não tem nada a ver com a máscara facial.
essa crônica foi produzida dia




Atualizado: 02/05/2022

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