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Crônica
 
CRÔNICA DE OUTROS DIAS
Por: Aniel dos Santos

CRÔNICA DE OUTROS DIAS
De: Aniel dos Santos




Eu me lembro que eu saía quase todas as noites de toda uma semana; não importava se era primavera, verão, outono ou inverno. Ah, eu me lembro, também, que eu era um apaixonado pelas fases da lua; e curtia todas, sem exceção.

Naquela época; bons tempos do “Cine Rex”; do banco em frente ao Armazém do Adelino; do Posto Shell em sua primeira versão; das barraquinhas em frente a Matriz; de Alceu Pepeu, falando aos apaixonados através de melodias oferecidas e executadas em vitrola no alto-falante da quermesse. Foram bons dias, aqueles...

Ainda posso me lembrar de muitos amigos com suas inseparáveis bicicletas. Nem ouso citá-los aqui. Minha mente pode falhar e omitir algum que eu não poderia e nem gostaria de esquecer. Mas, não posso deixar de lembrar: aqueles foram os dias...

Não queria, mas, vou recordar minha incomparável Brasiliana 74. Como foi difícil comprá-la... foram muitas economias. Mas, também pudera: naquela época, somente os ricos tinham bicicletas do ano. Esses sim, eram os que trocavam de bicicleta todos os anos; como hoje, os que trocam de carro...
Ah! Mas, eu me lembro: quantas saídas; quantas voltas... nós formávamos um belo par; se bem que, em muitos momentos eu a esquecia. Não por querer; mas, por distração mesmo e até pela descontração. Naquela época não se ouvia falar em roubos de bicicletas. Todos confiavam em todos, até que se provasse o contrário...

Certa vez, ao sair do cinema, eu acabei me esquecendo que estava com minha velha companheira e acabei voltando para casa a pé. Só que um pouco antes de chegar, fui alcançado por alguém que me disse: ─ Olha! Você esqueceu de sua bicicleta no cinema...
Diante do que ouvi, tomei um susto tremendo; mas, ao retornar ao local, lá estava minha velha e tão querida Brasiliana 74, intacta, no lugarzinho onde a deixei. Incrí
vel, não?!

De uma outra vez, de uma forma não menos trágica, acabei esquecendo minha bicicleta na Rua Salvador Roberto, em frente ao Armazém do Adelino. Fui para casa normalmente e nem me dei conta de que eu havia saído de bicicleta. Lá pelas duas da manhã, acordo com alguém batendo a minha porta, no que fui atender e qual não foi minha surpresa: ─ Vim pra dizer que o Sinhor isqueceu sua bicicreta na rua. Eu peguei ela e guardei no Posto Shell. Amanhã o Sinhor pode “percurar” lá. Tá lá bem guardadinha! ─ Agradeci, claro; e nem fiquei apreensivo... Aqueles dias se foram.

Tantos foram os acontecimentos; tantos foram os esquecimentos e tantas foram as surpresas... Ah, mas que surpresa que nada! Naquela época, era tudo tão simples, tudo tão natural que, as surpresas ficam por conta dos dias de hoje; com tudo mais ou menos previsto; embora, não queiramos acreditar no que, fatalmente, vem acontecendo...
─ Alguém roubou minha bicicleta.
Esta frase vive redundando a cabeça de muita gente que teve uma, duas ou até três bicicletas roubadas... E quem não sabe de um ou mais casos de alguém que teve a mesma sorte, ou seja: sua preciosidade afanada?... É, aqueles dias se foram. Eram poucas as bicicletas, mas, as pessoas tinham respeito pelas coisas alheias; e por isto, você podia esquecer-se de sua jóia ─ sim , bicicleta era como uma jóia, ─ onde quer que fosse, e, ninguém, mas ninguém mesmo ousaria subtraí-la de você. As pessoas eram mais honestas? Tinham mais brio? ─ Pode ser; mas, o certo é que, as pessoas tinham mesmo apego ao que era seu e, portanto, respeitavam mais o que era dos outros.
Ainda posso me lembrar de Estevão, sim, aquele da Central do Brasil, passeando todos os dias, nas tardes, em sua inseparável bicicleta, a cumprimentar um e outro e a responder, quando cumprimentado: ─ Oi! Tá bão, sou? ─ E quem não se lembra de Manoel Tacadas; sempre impecável, mas, em sua inseparável bicicleta, cumprimentando um e outro, ao seu estilo: ─ Como vai, doutor? Tudo bem, chefe? ─ Até mesmo aqueles que não trazem em si o problema do DNA – Ah! Você não sabe o que é DNA? ─ Não, não é o que você está pensando; é DATA DE NASCIMENTO AVANÇADA mesmo! Sim, mas, até mesmo os jovens podem se lembrar disto, porque não faz muito tempo.
É, todavia, esses dias se foram...

De lembrança em lembrança e retrocedendo um pouco neste texto, eu me reporto aos dias atuais. A cidade cresceu, muita gente nova; nova de paragens por aqui e, muitos, por ter chegado ainda há pouco neste mundo... hum! mas, eu estava dizendo que a cidade cresceu e com ela a turbulência do vai e vem, do trânsito medonho, intragável, nas horas do “hush”. Sim, bem, ali, na Salvador Roberto, na Dr. Mallard, na Joaquim Marques de Carvalho... Espantado? ─ Não se espante, é assim mesmo: quem faz parece não dar bola para isto. E como troco, temos um trânsito caótico, com excesso de tudo e por que não, das nossas tão queridas e estimadas bicicletas?
Não seria muito se se fizessem pistas para bicicletas; se se sinalizassem a cidade; se não em respeito ao cidadão, pelo menos em respeito à evolução. Porque não é demais lembrar que tudo evolui com o tempo; Várzea da Palma, nossa cidade, não é diferente. Cabeças para isto, com certeza não faltam. O que falta então? Vontade? Querer? Cobrança? Insistência? ─ É isto aí: vamos insistir, pedir. Pedir não, vamos exercer nossa cidadania, cobrando. É isto mesmo: vamos cobrar, exigir... afinal, é um direito nosso, enquanto cidadãos que somos, com deveres e sempre sem prerrogativas...
Mas, onde estamos, cadê nossas bicicletas? Ah, sim, elas estão aí, bem afloradas, são Bikes, Cross, Ceci, Cargo, enfim, são tantos os modelos e estilos que eu ficaria aqui um tempão enumerando-as. Dizer viva nossas bicicletas, digo sim. Mas, digo mais: viva nossa gente, esses ciclistas do dia-a-dia que transitam por aí, arriscando suas vidas num trânsito que tem tudo pra ser melhorado. Só depende de vontade. Disto eu tenho certeza.

─ Oi!
─ Oi! Sua Bike é linda!
─ Hum! A sua também.
─ Olá, tudo bem?
─ Puxa, sua Ceci é massa!
─ Ah, você não viu minha nova Caloi.
─ ...

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