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Conto
 
A ESPREITA
Por: Aniel dos Santos

A ESPREITA
Conto de: Aniel dos Santos

Primeira parte

As duas garotas andavam de bicicleta. Uma montava uma bicicleta de cor marrom e a outra, montava uma de cor verde. Ambas com idade entre 14 e 15 anos. Não mais que isto. Eram da cor do jambo e tinham cabelos ligeiramente encaracolados, na altura dos ombros. As duas trajavam roupa esporte.
Elas transitavam pela Avenida Treze de Maio, quando de repente, avistaram um indivíduo com ar estranho que, deixando a avenida em que elas estavam, entra pela 15 de Novembro. Instintivamente, sem que uma tomasse conhecimento do pensamento da outra, elas imaginaram que aquele indivíduo pudesse ser o “já” famoso gatuno que vinha roubando nas casas daquele bairro. Afinal, ele estava todo de preto, com uma jaqueta a “ James Dean “, o que para elas formava um estilo muito suspeito...
Com apenas uma olhadela, de uma para a outra, elas se entenderam e resolveram seguir o suspeito, entrando pela Rua 15 de Novembro. A rua em questão não era larga e um sem número de casas ladeava-a de um extremo ao outro. Elas, mantendo uma certa distância, não perdiam de vista o suspeito. E ele seguiu pedalando sua bicicleta, sem mesmo notar que estava sendo seguido.
Sorrateiramente elas continuaram seguindo o suspeito até que, depois de um certo tempo, ele entrou pelo portão de uma casa, desaparecendo em seguida.
Elas pararam a uma certa distância, de onde, segundo elas, era possível monitorar todos os movimentos do suspeito, caso ele saísse transportando algum produto de roubo ou coisa parecida...
Enquanto elas aguardavam, com certa impaciência, devaneios mirabolantes desfilavam por suas cabeças: Lorena, a que parecia ser a mais velha, imaginava a polícia algemando o delinqüente e agradecendo-a pela ajuda providencial que culminou com a prisão deste.
Já, Larissa, a que parecia ser a mais nova, imaginava o meliante preso, com a imprensa em peso; canais de rádio e TV importunando-a por um furo de reportagem; por uma entrevista, enfim, pedindo-a que contasse como ela conseguiu descobrir o infrator e denunciá-lo à polícia, numa época em que quase todas as pessoas têm medo de envolverem-se neste tipo de coisa...
O tempo passava... e nada. Pelo menos nada daquilo que elas esperavam. Afinal, o que mesmo que elas esperavam? ─ Bem, para duas garotinhas de não mais de quinze anos de idade, tudo parecia normal ou anormal. Elas não tinham noção de perigo. Mas, nas suas cabecinhas de cabelos encaracolados, elas sabiam tudo. Aliás, o jovem sempre sabe tudo. Os maduros, os de meia idade, os idosos, esses não sabem nada. São cafonas, estão ultrapassados; totalmente fora de sintonia. Para eles, os jovens, é bem assim.

Fazia calor. O sol daquela tarde estava muitíssimo quente. A temperatura, para uns, normal, para outros, quente em excesso, ultrapassava os 33ºC.
De repente um vento inesperado começa a soprar. Aquela era, deveras, uma tarde atípica para aquelas duas garotas. Elas jamais, em momento algum imaginaram que um dia estariam numa aventura dessas. Parecia-lhes mais coisa de cinema ou de romance policial, que de vida e existência genuína, como a delas. Mas, elas estavam ali, observadoras, sonhadoras, na espreita. Espreita? ─ Sim, espreita. Elas estavam espreitando alguém que, para elas, podia ser um bandido. Elas pensaram assim. Elas atinaram por este lado. Estariam certas? Erradas? ─ Quem sabe? Nem sempre precisamos de explicação para determinados fatos. Basta que queiramos entendê-los. E elas estavam ali, buscando uma verdade; buscando um fato. Algo que as pessoas não sabiam ainda e que elas ansiavam mostrar.
O tempo passava. Meia hora, uma hora... quanto tempo? Bem, o tempo não importava muito; desde que não passasse do horário nobre da novela. Afinal, elas estavam de férias escolares. Não tinham com que se preocuparem. A não ser... A não ser? ─ Um estremecimento percorreu a espinha da garota de 15 anos. Sim, a mais velha. “ Mamãe pode não gostar desta história. E papai: ele, com certeza brigaria conosco... ”
Mas, elas continuavam ali, na espreita. Pareciam anestesiadas, dominadas. Presas àquele momento mágico? Ligadas por laços indeléveis ao desfecho daquele episódio? ─ Não se sabe.


Segunda parte

Lorena e Larissa não saberiam dizer com exatidão há quanto tempo elas estavam ali, paradas, escondidas, espreitando, como predadores numa tocaia, à caça, sem pressa, de sua presa.
E o tempo passava... e elas estavam lá... agora, pacientemente, esperavam.
Lorena lembrou-se de um filme que assistira, quando ainda estava com treze anos de idade. Era pouco o tempo que havia passado; mas para ela, uma adolescente; de treze para quinze anos, era um longo período. Assim são os jovens. E não há nada que os adultos possam fazer para mudar isto. Só mesmo os anos de janela na vida, podem fazer essa conversão. Mudar essa crença...bem, mas o filme. Sim, o filme. No filme, todos os protagonistas naufragaram em alto mar e, alguns, com bastante sorte, conseguiram chegar a uma ilha deserta. E tudo o que puderam fazer, foi esperar pacientemente pelo socorro... “Nada a ver”. ─ Ela depreende.
De fato, não havia nada em comum com o filme. Mas, lembrar o filme e as cenas do naufrágio, a fez descontrair-se um pouco. E o tempo passava...
Larissa estava tão aficionada na espreita, que até parecia que estava vendo um espetáculo como as Cataratas do Iguaçu. Para ela só interessava a saída do suposto meliante. Suposto? Ela estava quase certa; tinha tudo para ser ele; tinha que ser ele o assaltante do bairro. Ela sentiu isto e sua irmã, também. Não podiam estarem erradas!

O calor era quase insuportável. Mas, elas nem pareciam se aperceber deste fato. E tão envolvidas estavam, que nem notaram o sol de inverno baixar vertiginosamente... mas elas estavam lá. A espera podia ser longa; elas estavam decididas. Decididas? O que elas poderiam fazer se se tratasse realmente do bandido? ─ Elas não haviam pensado nisto. O que elas queriam mesmo, era saber. Depois... bem, depois seria uma outra história.
O tempo continuava passando... chegou o lusco-fusco. A noite não tardaria a chegar, também. Era uma questão de tempo. E pouco tempo... “Meu Deus, papai deve estar preocupado?” Lorena, conseguiu atinar. Mas, ao olhar para a irmã, viu que ela só tinha olhos para a frente da casa, para o portão por onde o suposto bandido havia entrado. Suas preocupações com o pai esmaeceram-se. Todavia, um outro pensamento toma forma: “Mas, e mamãe? O que ela estará pensando? Afinal, não temos o costume de sair assim! Com tanta demora...”
A noite chega. As luzes se acendem. A espreita continua. A espera segue em frente. Elas estavam decididas. Não saberiam dizer como, mas, tomaram esta decisão. Iriam continuar, nem que fosse a última coisa que fizessem na vida. Aquele bandido precisava ser detido. Alguém tinha que pará-lo e elas decidiram que, de alguma forma, ajudariam...
Os ouvidos atentos ouvem um barulho vindo do portão. Os corações estão aos saltos. É chegado o momento? Será? Como vai ser? O que faremos? O que diremos? Todas essas interrogações teriam desfilado pela cabeça das duas, durante a espera e apreensão causadas pelo barulho vindo do portão. Porém, nada aconteceu. Pelo menos, não de imediato.
E o tempo continuava passando...


Parte final

Eram nove horas da noite, quando o portão da casa abriu-se. Nenhuma bicicleta foi conduzida para fora. Apenas um rapaz, trajando uma calça jeans com um blusão de napa escura, sai pela abertura. De longe podia-se ver suas botas em estilo “country ” reluzindo com a luz da rua. Ventava e o calor estava ameno.
Elas olharam para o rapaz. Nem parecia o mesmo que havia adentrado por aquele portão. Se não fosse pelo mesmo tipo de traje que ele vestia e pela mesma estatura, ninguém ousaria dizer que se tratava da mesma pessoa. Alguém acompanha-o até o portão. Na despedida, de onde estavam, elas puderam ouvir:
─ Tenha cuidado! A rua tem estado muito perigosa. Veja lá com quem você anda! Não chegue muito tarde!
─ Não se preocupe, mamãe. Sei me cuidar.
─ Antes isso!
E lá foi ele, rua afora...
Quando passava em frente de onde as garotas estavam, instintivamente, o rapaz olhou para o lado. Meio sem graça, elas cumprimentam-no em uma só voz:
─ Olá! Como vai?
─ Olá. ─ Ele responde-lhes, pachorrentamente. Não as conhecia. Foi a sensação que teve; e não quis conferir. Eram só duas garotas. “Ainda bem”; elas pensariam assim. E pensariam mais: “Alguém que tem uma mãe que o acompanha até o portão; despede-se dele e recomenda-lhe tanto quanto este fora recomendado, não pode ser dado a malefícios. O mal não pode ser-lhe atribuído em hipótese mínima. Não, não”. Elas complementariam.
Respiram aliviadas depois que o rapaz passa por elas. “Até que ponto elas chegaram? Deviam estarem loucas.” Lorena atina.
Elas não conheciam o mundo. Os anos de janela na vida eram poucos. Haviam vivido muito pouco. Era difícil para elas entenderem que para os pais, principalmente para as mães, todos os filhos são santos. Livres de qualquer suspeita. “Meu filho seria incapaz de fazer isto!” É o que qualquer mãe pensaria.
Elas pegam suas bicicletas e rumam para casa. Teriam que explicar a seus pais o motivo de tanta demora, já que saíram apenas para pedalar um pouco, como sempre faziam. Desta vez ela extrapolaram. Mas, tinham uma explicação: estavam espreitando. Esperavam encontrar um larápio. Não deu certo. Erraram de alvo...

Naquela noite, naquele bairro, mais uma bicicleta foi surrupiada.



* * * * *

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